sexta-feira, 30 de março de 2012

Viajar de camioneta na Argentina

Ao contrário do que seria de esperar, a Argentina, apesar do seu grande tamanho, não tem um sistema ferroviário particularmente desenvolvido. Na verdade, quem planeie umas férias nesse diversificado país rapidamente chega à conclusão de que a forma de ir a todo o lado é de camioneta.

Qualquer viagem por ali leva várias horas, tal é a distância a percorrer. E, como é perfeitamente normal que uma ligação nos tome o dia e a noite, as empresas rodoviárias desenvolveram diversas classes de camionetas para melhor acomodarem os passageiros e se adaptarem às suas possibilidades. Basicamente, há quatro tipos de assento: normal, semideitado, quase-deitado e deitado. Quanto mais perto da posição horizontal pudermos ficar, mais caro é o bilhete (desde logo porque a camioneta leva menos gente). Logicamente, o conforto também vai aumentando.

Independentemente do tipo de assento que escolhermos, a qualidade do serviço é, no mínimo, boa. Os bancos são confortáveis e, se a viagem se der à noite, há mantas para nos aconchegarmos, ceia antes da hora de dormir (nem sempre) e pequeno almoço de manhã. Este, é feito de coisas simples: café, chá e bolachas servidas em pequenos pacotes do mesmo tipo dos que se podem comprar em vulgares quiosques de rua.

Hora do pequeno almoço...
Qualquer que seja a camioneta, o conforto e o serviço que temos são, em princípio, superiores a qualquer um que experimentemos na boa velha Europa.

Quando as camionetas, ao longo do caminho, param em estações importantes, é comum virem vendedores ambulantes a bordo (ou ficarem juntinho à porta), tentando vender comida ou pequenos objetos que ajudem ao nosso conforto. Para café e chá, não vale a pena fazer despesa porque as camionetas têm-no sempre à disposição.

Em 2006 viajei nas categorias semideitado e quase-deitado (os nomes são dados por mim). Nesta última só fiz uma viagem mas deu para notar que, havendo mais algum dinheiro, vale bem a pena, sobretudo pelo menor número de passageiros. Só posso imaginar o que será viajar absolutamente deitado, na classe "ejecutivo"... Lembro-me, também, de que nessa viagem, feita entre Mendoza e Buenos Aires (parece-me), até houve direito a um pequeno passatempo promovido pelo assistente a bordo, uma espécie de bingo que divertiu os passageiros e cujo prémio foi uma garrafa de vinho que, infelizmente, saiu ao tipo errado...

Assento "semideitado" (o mais comum)
Independentemente do que nos espere no nosso destino, viajar nas camionetas argentinas (uma boa parte delas feitas no Brasil) é uma grande experiência em si mesma. Junta-se o prazer da viagem ao conforto e à sensação de agradável abandono que isso nos dá.

Ter as Pampas ou os montes ou a floresta  ou o deserto - enfim, tudo aquilo que a Argentina nos oferece -, desfilando por nós e enchendo o horizonte connosco ali refastelados, é, independentemente do bilhete que tivermos comprado, uma coisa de primeira... classe!



NOTA: a primeira e a terceira fotografias foram retiradas dos blogues That's it. I'm out of here. e Barry travels the world, respetivamente.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A bruxa brasileira

Aeroporto de Barajas (Madrid, Espanha). Era já noite e eu esperava pelo voo que me traria a Lisboa, depois de três semanas passadas na Argentina. Na zona de espera junto ao portão de embarque espalhavam-se, pelas cadeiras ali existentes, pessoas de várias nacionalidades. 

Defronte de mim, um grupo de meia dúzia de brasileiros escutava atentamente o que lhes dizia uma mulher (também brasileira). Criatura avançada nos quarenta, de aspeto relativamente cuidado, mantinha-se em pé enquanto, em jeito quase professoral, ia respondendo a diversas perguntas que os seus compatriotas lhe iam fazendo. Topei tratar-se de um grupo de pessoas que emigrava para Portugal (trabalhadores sazonais, talvez), e que, ao encontrar alguém "conhecedor" do país, matavam a natural curiosidade relativamente à realidade que iam encontrar no seu destino.

Por ter estado com atenção à conversa de um homem de negócios que ali perto falava ao telefone numa língua que eu nunca tinha ouvido (e que talvez fosse Catalão), apenas tomei atenção à "prédica" quando ela já ia a meio. Graças a deus, digo eu!

Perante o olhar cada vez mais desconsolado dos meus futuros companheiros de voo, a mulher debitava todo um conjunto de críticas a Portugal, que iam do clima à culinária, passando pela educação das pessoas. Aparentemente, nada nesta terra era merecedor de qualquer apreciação positiva.

Contendo os nervos, fui acumulando o que a mulher ia dizendo: vivia em Portugal há vários anos, era casada com um português, tinha um filho nascido cá, trabalhava num restaurante na margem sul (do Tejo) e queria, desesperadamente, ir para França onde - aí sim! -, os ordenados e as pessoas eram decentes. Para melhor explicar aos seus compatriotas o quão mau era este país, resolveu concentrar os seus esforços na descrição dos nossos maiores defeitos culinários: fazíamos o arroz húmido (ela dizia-se cozinheira e "sofria" por ter de o fazer assim) e púnhamos azeite em tudo. O próprio filho dela, nascido em Portugal, gostava do bom óleo e isso só podia ser sinal de que era uma coisa genética! (culpa do pai "tuga", entenda-se). Não era de admirar, portanto, que os restaurantes brasileiros estivessem sempre cheios - as pessoas fugiam da má comida lusitana para se irem refugiar no prazer dos sabores brasileiros. Um dos presentes, de boca já aberta antecipando um futuro negro, perguntou-lhe se não era possível comprar produtos brasileiros em Lisboa... Possível é - disse ela -, mas há pouca coisa e só em lojas especializadas. O rapaz fechou a boca, engoliu em seco e, num tom absolutamente lamurioso olhou-a nos olhos e disse: "É tudo tão diferente, não é?...". Os outros acompanharam-no no ar triste.

Para que a coisa não ficasse por ali, a mulher apontava agora as baterias ao clima: chuva, chuva o tempo todo e frio! Um frio de rachar que, provavelmente, estava na origem da má educação das pessoas - que nunca pediam nada por favor! A coisa começava a ser demais e eu já me sentia a chegar ao ponto de caramelo em que só me restava confrontar aquele ser com todos os disparates que dizia. Não a bem da Pátria mas da minha própria sanidade! Quando a minha língua já começava a fazer os exercícios de aquecimento para o combate, a instalação sonora avisou do começo do embarque para Lisboa. Aproveitei a deixa e pirei-me dali, rumo à paz de um lugar no avião. Uma vez lá dentro, vi passarem os infelizes brasileiros que, àquela altura, deviam estar lamentando não terem antes ido para o Burkina Faso. Um pouco depois, em passo lento e cara enjoada de quem examinava o avião e nele encontrava mil e um defeitos (azar: o avião era espanhol), passou a odiosa criatura cujo pescoço as minhas mãos cobiçavam.

Felizmente, não voltei a ouvi-la (nem vê-la!). Espero sinceramente que ela tenha ido para França. Agrada-me pensar que semelhante personagem já não habite por cá e, ao mesmo tempo, imaginá-la enfiada numa cozinha, tendo de lidar com a imensidão de "lusitanos" que vivem em terras gaulesas e a fazer para eles arroz "húmido" encharcado em azeite...

segunda-feira, 26 de março de 2012

Os Japoneses e o Inglês

Quando fui ao Japão levava comigo algum conhecimento do idioma japonês, fruto da frequência de um curso de iniciação à língua. De certa forma, até se pode dizer que a ideia da viagem surgiu na sequência do referido curso.

Não me preocupei em saber, antes de partir, se os Japoneses dominavam o Inglês. Eu ia com a confiança de quem sabia dizer umas coisas simples, o suficiente para me desenvencilhar como turista mas nunca para, sequer, entabular a mais singela conversa com um indígena.

Ao chegar ao Japão, rapidamente percebi que, para os Japoneses, o Inglês é uma coisa séria. Se por um lado eles se sentem fascinados pelo idioma - ao ponto de até a propaganda política (decorria uma campanha, na altura), utilizar a língua da velha Albion -, por outro lado, têm sérios problemas em conseguir falar aquele e muito poucos o dominam competentemente. E não me refiro a questões de pronúncia (eles trocam os "L" por "R"), mas tão simplesmente a conhecerem, sequer, as coisas mais básicas. Na realidade, não se pode acusá-los de ignorância ou má vontade. Quando se vive numa sociedade tão densa e com uma cultura tão forte onde tudo está disponível na língua local, dificilmente as pessoas sentirão necessidade de se expressarem numa língua estrangeira.

Foi-me, portanto, muito útil aquilo que aprendi em Lisboa, quer fosse para saber se um transporte ia para um certo destino, perguntar se podia pagar uma compra com cartão de crédito ou para fazer uma reserva num comboio.

Mas a verdade é que os mais novos em idade escolar, essa classe de criaturas com fardas de colégio que enche as ruas, museus e monumentos no Japão (a ponto de uma pessoa se perguntar se eles alguma vez entram numa sala de aulas), esses, dizia, aprendem Inglês. E, naturalmente, querem praticá-lo. Como não podem fazê-lo com os colegas, tão desajeitados quanto eles, escolhem como alvo os turistas. Fazem-no de uma forma engraçada, feita de "olás" seguidos do lançamento de palavras e expressões, a ver se conseguem uma resposta que os deixe orgulhosos das suas capacidades linguísticas e, provavelmente, em posição de vantagem relativamente aos seus amigos.

Ao abrir um livro deixado na zona de convívio de um albergue em Quioto, dei com a seguinte frase lá escrita por um anterior hóspede, em jeito de aviso:

"Os miúdos japoneses gostam de meter conversa connosco. Mas não julguem que é porque nos acham simpáticos:  eles apenas querem treinar o seu Inglês". 

A coisa fez-me rir ao lembrar-me dos "Herô! Herô, mister. How hah you?" que já tinha ouvido aqui e ali. No fundo, eles olham-nos como uma espécie de cobaias... :)

sábado, 24 de março de 2012

O vegetariano surpresa

A ideia de um fim de semana em Madrid tinha sido minha. A cidade era bonita, os voos estavam baratos... porque não ir lá? Apresentada a "proposta", os outros dois concordaram. Organizei a coisa: marquei voos, marquei  estadia, fiz um apanhado das coisas que valia a pena ver e, trocando uma ou outra opinião, chegou-se a um consenso sobre o que seria o programa a cumprir na capital castelhana. 

A coisa estava a correr bem e a perspetiva de dar um passeio com duas pessoas com quem eu simpatizava e cujos interesses eram minimamente parecidos com os meus fazia-me ansiar pela hora da partida.

Uma vez em Madrid, deixadas as coisas num simpático albergue gerido por argentinos, saímos para dar a nossa primeira volta pela cidade. Já era noite e pos-se a natural questão de onde ir jantar. Nesse momento, um dos meus companheiros de viagem anunciou, em tom quase solene: "Sou vegetariano".

Nunca me tinha passado pela cabeça semelhante situação. O rapaz em questão, de quem eu tinha sido colega de aulas e trabalho, nunca tinha mencionado essa sua condição, nem tão pouco eu me tinha apercebido dela. Talvez fosse recente, portanto. De qualquer forma, a sua "denúncia" foi feita mesmo em cima da hora, levantando-nos um inesperado problema. Eu não tenho nada contra os vegetarianos (dá-me mais a impressão de que eles é que têm algo contra os outros) e até aprecio bastante a "sua" comida mas... quando ando a galgar quilómetros e preciso de recuperar energias, a última coisa que me ocorre é virar-me para alimentações - digamos... -, alternativas. Onde raio havíamos de ir comer, portanto?

Éramos estranhos em terra (quase) estranha e não sabíamos para onde nos virarmos. A dois apetecia encher o bandulho com carne e a outro, com qualquer coisa que não a metesse. O ambiente começou a tornar-se algo tenso, até porque eu não estava para abdicar de uma refeição "normal" para me ir meter num restaurante vegetariano (onde quer que ele existisse) quando, afinal de contas, nós, os omnívoros, é que estávamos em vantagem numérica. Era uma questão de princípio para mim. Isto para além de me sentir, de certa forma, traído pelo tardio anúncio do vegetarianismo do meu companheiro de viagem.

Acabámos por ir parar a um MacDonald's (ou Burger King) onde o vegetariano se contentou com uma miserável salada. Aquilo que eu esperava vir a ser um agradável jantar a três num restaurante típico do centro de Madrid acabou por se tornar numa triste refeição na cave de uma cadeia de comida rápida. E tudo porque uma preferência de regime alimentar foi ocultada no planeamento da viagem, como se não fosse nada de importante...

No dia seguinte, após mais uma boa caminhada, nova "confusão" por causa do local para almoçar. Acabámos por atracar num obscuro e frio pronto-a-comer de remota inspiração turca que tinha "rolls" (porque raio não se diz "rolos"?) vegetarianos. Que bom! Não almocei e limitei-me a fazer companhia às duas almas com quem estava. Achei triste demais aquela refeição só para se acomodar ao dogmatismo alimentar de um dos turistas. O ambiente deteriorou-se. Eu estava num registo "que se lixe, petisco noutro lado qualquer" mas o meu colega "carnívoro" achou que eu não partilhar daquela "magnífica" refeição era qualquer coisa que lhe havia de mexer com o mau feitio. A partir daí, o passeio a três ficou estragado e só voltámos a encontrar-nos todos sentados à mesa, numa noite, numa cervejaria onde, para gáudio do vegetariano, serviam uma coisa qualquer com legumes e ovos.

A questão alimentar acabou por arrastar outras diferenças de gostos e enquinar completamente o que podia ter sido um fim de semana muito agradável. Acabámos por nos separar algumas vezes - o vegetariano indo ver as "suas" coisas -, eu, tendo de "passear" o outro colega (a quem aquilo desagradava profundamente, crente que estava de que era a três que tudo devia ser feito) e, no fim de todas as contas feitas, três pessoas que se davam acabaram por deixar de se dar. É pena? Por causa de uns legumes, sim.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Há dúvidas?

Olhando para esta placa informativa na estrada entre Vík e Reiquejavique (Islândia), não há muito que duvidar, pois não?

Se olharmos bem, o caminho de Steinmóðarbær até Grandavðr até é simples: o problema é conseguir ir percebendo os nomes pelo caminho...

quarta-feira, 21 de março de 2012

As diferentes posições para... obrar

Duas sanitas, duas formas de estar...
Diz-se que os Japoneses fazem muita coisa ao contrário de nós. Isso é bem capaz de ser verdade, embora não me pareça que eles se sintam particularmente afetados por diferenças tão insignificantes como mexerem o café girando a colher no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio (é uma das histórias que por aí correm) ou dormirem no chão, ou tomarem banho sentados ou... guiarem "à inglesa". A cada povo, os seus hábitos.

Já para quem visita a terra do sol nascente, as coisas podem revestir-se de contornos cómicos. Um dos pormenores que me saltou à vista quando por lá andei foi a questão das casas de banho. É que no Japão, a posição típica para defecar (ou cagar, obrar, arrear o calhar, mandar um fax, aliviar a tripa, ou fazer... cocó -  como quiserem), não é confortavelmente sentado (e logo eles que têm aquelas sanitas com aquecimento e jato de água), mas sim de cócoras. Ora, se eles fazem a coisa assim, a louça sanitária tem de estar de acordo com a posição tomada. Consequentemente, numa grande parte dos lavabos japoneses (incluindo nos comboios), há uma espécie de bidé quase ao nível do chão (ou mesmo lá colocado) sobre o qual o aflito se deve agachar. Para facilitar a vida, costuma haver um varão para que a pessoa a ele se segure com as duas mãos e assim se possa concentrar mais na sua tarefa principal e menos em não se estatelar sobre o traseiro (o que poderia ser, já se vê, uma grande porcaria). Terminado o esforço, o resultado deste é removido com um fluxo de água na horizontal. Felizmente para o turista ocidental, são poucos os locais onde apenas existem "sanitas" à japonesa e, em caso de emergência, é de esperar a existência de um "trono" à medida daquele. Se não houver... azar.

Outro pormenor que notei foi o relativo aos urinóis. Por alguma estranha razão, todos aqueles que eu vi se encontravam numa posição que permitia, a quem passasse junto à porta, ver quem estava lá dentro. A coisa era tão estranha que, até nos comboios, existiam cabinas com um urinol (ao lado da cabina com a "sanita") e com uma janela, fazendo com que do corredor observássemos as costas de quem ali estava a urinar! Seria mais alguma tara nipónica?

segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma novidade já conhecida...

Um cozido à madrilena
Era a terceira ou quarta vez que ia a Madrid e, desta feita, não ia à procura das emoções fortes de um concerto de heavy metal. Nada disso: com a namorada pela mão, ia passar uns dias à capital espanhola - dias feitos de passeio e namoro.

Com a minha experiência de visitas anteriores e alguma informação recolhida na internet, conseguimos estabelecer um roteiro de interesse comum que passava por alguns dos locais mais emblemáticos da cidade. Mas, desta vez, por se dar o caso de estar (bem) acompanhado, resolvi incluir um momento gastronómico na lista de coisas a fazer. Comer sozinho num restaurante (ainda mais, "catita") é, para além de triste, um bocado embaraçoso e, portanto, falhadas as hipóteses de o fazer em deslocações anteriores, havia que aproveitar a oportunidade que agora surgia.

Diziam os guias turísticos que o prato típico de Madrid era o cozido madrileno. Confiando na sabedoria dos sítios de internet e fazendo alguma pesquisa, descobri um restaurante que me pareceu engraçado e que se gabava de ter como especialidade o dito cozido. Encontrámo-lo numa rua antiga para os lados da Plaza Mayor e rapidamente engraçámos com o sítio: paredes pintadas de vermelho forte, quadros e cartazes alusivos às touradas e à Madrid antiga e, ao mesmo tempo, um ar suficientemente à vontade para que dois turistas descomprometidos se sentissem em casa. Uma empregada giraça, de bela juba negra e pele pálida levou-nos até ao andar de cima onde ficámos quase sozinhos. "Que querem?" - Cozido!

Estávamos contentes por estar ali e aguardávamos com saudável ansiedade a vinda do típico prato madrileno. Não tínhamos ainda visto qualquer fotografia ou lido qualquer descrição do petisco. Apenas sabíamos que era "típico".

Quando a empregada chegou com a comida só não nos desatámos a rir porque, primeiro, tínhamos de sentir a desilusão. O "cozido madrileno" não era mais do que o nosso "cozido à portuguesa", mas com outro nome. Mais tarde, também fiquei a saber que aquilo a que lá chamam o "caldo galego" é a sopa feita com a água do... "cozido à portuguesa". Comemos tudo (não estava nada de especial mas era agradável), rimo-nos entre nós e devemos ter comentado, certamente, como se dá tantas vezes nomes diferentes a coisas que são iguais. Se alguém julga, por exemplo, que entre o "porco preto" e o "porco ibérico" (do lado de lá da fronteira, as coisas são sempre "ibéricas"...), há alguma diferença, eu mandá-lo-ia pensar de novo.

Limpa a travessa e os pratos, a simpática empregada ofereceu-nos - para rematar a refeição -, um licor, que foi a única verdadeira novidade que provámos naquele "típico" almoço em terra estrangeira...


domingo, 18 de março de 2012

Carne, carninha, carnucha!

É bonito de ver, não é?
Uma das imagens de marca do triângulo formado pelo Brasil, o Uruguai e a Argentina é a carne (o bife, mesmo!). Sobretudo no que diz respeito aos dois últimos países, é quase impossível preparar uma viagem sem dar de caras com fotografias de belos escalopes entregues às infernais chamas que os tornarão no nosso céu... (pausa para limpar a saliva). Em nenhuma outra parte do mundo - dizem eles -, a carne é tão saborosa, tão macia, tão suculenta, tão capaz de nos fazer chorar por mais...

Quem já tenha tido a sorte de provar umas boas postas mirandesa ou barrosã, temperadas com azeite e alho e acompanhadas de maravilhosas batatas a murro ficará pensando, perante a publicidade turística argentina e uruguaia, que, ou eles são uns fanfarrões de primeira ou não sabem bem do que falam. Há que lhes dar desconto e ser condescendente, em qualquer dos casos.

Quando fui passear pelos países referidos, naturalmente, levava comigo a expetativa de me entregar a insanas comezainas regadas a boa cerveja sulamericana (eu gosto do "sumo de cevada" mais leve). E, ouro sobre azul, todos os relatos de viagem garantiam que a coisa podia ser feita ao preço da chuva. Logo no primeiro dia em Buenos Aires, procurei um restaurante que me parecesse agradável para a minha iniciação na especialidade local: churrasco (de carnes bem vermelhas). Como a fome me aguçava a visão (e o letreiro era bem grande), topei um restaurante que anunciava, do outro lado da larguíssima Av. Corrientes, ter o melhor churrasco da cidade. Como a fome também me aumentava a ingenuidade, eu acreditei.

O restaurante era perfeitamente informal, frequentado por todo o tipo de pessoas e, verdade seja dita, não posso dizer que alguma coisa tenha corrido mal. Comi um bife ("chorizo" chamam eles ali àquela carne - não confundir com o nosso "chouriço") de tamanho médio, acompanhado de batatas fritas e ajudado por uma cerveja Quilmes (o difícil, na Argentina, é conseguir que nos sirvam outra marca). Mas, não só o "melhor churrasco" não conseguiu passar da mediania como, para cúmulo, a refeição também não me saiu - ao contrário do que eu julgaria -, ao preço da uva mijona. Fiquei desiludido mas não derrotado.

A segunda tentativa foi no típico bairro de Boca (o local do Boca Juniors, o clube do danado Maradona). Após passear, comprar recordações e ver atentamente as artistas de rua mostrando o pernil enquanto dançavam o Tango, foi a vez da tanga, i.e., de atacar mais um "chorizo" num restaurante da zona. Nova desilusão... Ao ir-me embora, passei por uma tasca mesmo juntinho ao estádio (cujas portas dão para uma rua comum) onde um papel afixado anunciava "matambre a la portuguesa". Fiquei sem saber o que seria mas com a nítida sensação de que devia ser bom. Ah, o patriotismo!

O "Mercado del Puerto", em Montevideu
A tentativa seguinte de provar "a melhor carne do mundo" foi feita em Montevideu. Acabadinho de sair do barco que liga as duas capitais do Rio da Prata, dirigi-me logo ao "Mercado del Puerto", espaço que fica a poucos metros do terminal portuário e que, assegurava-me o guia que eu trazia, era o local de diversos restaurantes que serviam carnucha "de trás da orelha" (porque razão esta expressão caiu em desuso?). O (antigo) mercado cativou-me mal nele entrei. Todo o espaço interior estava ocupado por restaurantes que freneticamente grelhavam este mundo e o outro. Havia, inclusivamente, quiosques pelo meio, rodeados de grelhas apinhadas de bifes, salsichas e enchidos vários esperando serem enviados para uma mesa. O ar estava carregado de fumo e o cheiro a churrasco era omnipresente. Seria o paraíso? Havia que experimentar... 

Sentei-me num restaurante que ficava a um canto, para estar mais sossegado e porque também não havia muitos outros lugares disponíveis. Como não tinham ementa em Português (só cá em Portugal é que se trata os turistas como uns "lordes") tive de fazer o meu melhor para decifrar os nomes das coisas (a comida é das áreas onde as diferenças se fazem notar mais entre as línguas românicas). Acabei por mandar vir uma coisa da família dos enchidos mas sem que eu estivesse bem certo do que seria. Para beber: uma cerveja, claro. A empregada sorriu em resposta à minha "exigência" de que fosse uruguaia e trouxe-me a fatal "garrafinha" de litro - medida base para toda aquela gente. Quando o prato chegou, verifiquei que tinha pedido uma espécie de longa e fina salsicha, enrolada em espiral. Como também ali a comida não era tão barata quanto se dizia (e eu também não queria abusar nas despesas), fiquei-me por este único pitéu. Veredito: ainda não era desta que eu tinha sido contemplado com as maravilhas da carne sulamericana.

Em Colónia (a "do Sacramento"), após visitar a zona histórica, entrei num restaurante e mandei vir aquilo que me pareceu ser o correspondente local a um bitoque. Estava cansado de passear, estava com fome e estava a ficar com birra em provar uma carne cujo sabor fosse alguma coisa de especial. Terceiro falhanço. 

De volta a Buenos Aires, passo por uma inscrição na parede que dizia: "A carne para os Argentinos". Fiquei a meditar: quereria aquilo dizer que havia fome no país ou que eles mandavam a melhor carne para o estrangeiro? Para conforto da minha alma, escolhi o segundo significado.

Dadas duas oportunidades ao Uruguai e uma à Argentina, era a vez de o Brasil entrar na dança. Após visitar o lado "zuca" das cataratas do Iguaçu, fui comer ao restaurante do complexo hoteleiro do parque. Tratava-se de um buffet, com uma comprida mesa cheia de pratos para nossa escolha. Resolvi pedir a ajuda do cozinheiro de guarda ao "banquete". O seu conselho: picanha. Respondi-lhe que isso tinha eu em Lisboa e, talvez por influência das desilusões anteriores, ataquei qualquer coisa feita com carne de frango. Fui cobarde ao não "arriscar", bem o sei e a verdade é que, no dia seguinte, em Puerto Iguazu, os reais que eu ainda tinha no bolso não paravam de me dizer para atravessar a fronteira e ir gastá-los em Foz do Iguaçu a provar a versão local da picanha. Só a preguiça me impediu de o fazer. Ficou o benefício da dúvida para a nossa família americana, portanto.

Novamente na Argentina, chegou um momento em que o Paraguai estava "logo ali", do outro lado do rio (certo, em Iguaçu também estava...) Atravessada a fronteira (é nestas alturas que damos verdadeiro valor ao Espaço Schengen), dei por mim sentado a almoçar num pacato estabelecimento na cidade de Encarnación. Bife e cerveja, mais uma vez. A cerveja paraguaia era agradável (no fundo, todas o são, para aquelas zonas) mas a carne, como eu já acreditava que não podia deixar de ser, era do mais banal. O Paraguai não se tinha juntado com glória à minha procura pelo bife perfeito...

Em Salta (Argentina), fui a uma churrasqueira popularucha, coisa para servir o pessoal comum. Acreditei que uma certa mudança de estrato social talvez pudesse ser benéfica. Bife, batatas fritas e cerveja - como de costume -, e, também aí, a sensação de que tudo tinha sido fastidiosamente normal. Em honra de Salta, safou-se - no domínio da carne -, uma salsicha no pão, comprada numa banca de rua que tinha todos os alimentos ao ar livre e sem qualquer proteção (coisa capaz de provocar um ataque de coração a um inspetor da ASAE).

Eu já estava desconsolado e certo de que a história da "melhor carne do mundo" não passava disso mesmo, de uma história para turista ouvir. Deixei de ter remorsos em recorrer aos MacDonald's e coisas do mesmo tipo e passei a poupar os pesos no meu cada vez mais leve bolso.

Mas, no fundo, eu ainda tinha a esperança de me banquetear com carne da boa. Dizia o guia da Lonely Planet que, numa certa rua no centro de Buenos Aires, havia uma tasquinha que servia quantidades pantagruélicas de carne a um preço indecentemente baixo. De livro na mão percorri a rua onde o restaurante ficaria. Para cima, para baixo, dando a volta ao quarteirão... andei, andei e cheguei à conclusão de que, onde o maravilhoso estabelecimento ficaria, estava, agora, uma comum casa de hamburgueres. Oh, porra!!!

Na última refeição na Argentina, mesmo antes de apanhar o transporte para o aeroporto, fui a um restaurante junto à principal estação ferroviária, o tipo de sítio completamente à vontade onde vai o povo comum almoçar no dia a dia. Olhei para a ementa e vi, novamente, a referência ao "matambre a la portuguesa". Disse para comigo mesmo que macacos me mordessem se o que quer que fosse aquela carne "à portuguesa" não havia de ser a melhor que eu havia de provar. Chamei o empregado e pedi. "Já não temos...", respondeu ele. Mandei vir salsichas... 

Porrada neles!!!

Já me aconteceu passar por familiares, colegas, gente conhecida e, pura e simplesmente, não os ver. A coisa é tal que já dou comigo defendendo-me e mantendo os olhos no chão quando entro, por exemplo, num autocarro. Mas, se passar distraidamente os olhos por cima de alguém é, afinal, coisa que pode acontecer a qualquer um, não dar pela presença de dezenas de milhares de pessoas na rua já é mais grave...

Aconteceu-me esta situação na primeira vez em que fui a Madrid. Passeava-me pelo eixo Cibeles - Gran Via (onde tinha estado há pouco) quando, de repente, dei por mim com milhares e milhares de pessoas manifestando-se. Toda aquela mole saía da conhecida avenida (que faz as vezes da Av. da Liberdade lá do burgo) e invadia a Alcalla. O meu pensamento foi "De onde é que esta malta apareceu?!", tão surpreendido fiquei por todo aquele aparato (pessoas, gritos, faixas, bandeiras - penso que teria qualquer coisa a ver com a Educação) que, de uma forma incrível, eu tinha ignorado alguns minutos antes. Mas tive pouco tempo para meditar em explicações para o fenómeno. Tão depressa quanto aquela gente tinha aparecido, também surgiram várias camionetas da polícia (a poucos metros de mim) que, após travagem brusca, começaram a largar agentes munidos com a parafernália típica de quem vem para "dar porrada".

Se, até ali, a minha maior preocupação era entender o fenómeno da aparição dos manifestantes, em poucos segundos percebi que o meu principal objetivo seria, agora, não levar umas boas bastonadas dos furibundos polícias. É que os homens saltaram das carrinhas já com o braço ganhando balanço para arrearem nos manifestantes. Toda aquela gente que estava ali mais próxima manifestando-se não conseguiu escapar-se a levar no lombo! Num ápice, tive a ideia de me enfiar numa paragem de autocarro onde alguns pacatos madrilenos aguardavam um transporte e, pelo sim, pelo não, colocar a jeito qualquer coisa que me identificasse como turista. A palavra parecia-me ser a melhor das defesas. "Turista!!! Não me batam!". Provavelmente, não teria servido de nada...

Quando me assegurei de que a violência se afastava do meu "abrigo", retomei calmamente o meu passeio e a minha meditação sobre a origem daquela gente? Teria saído do chão?...

sábado, 17 de março de 2012

Vinho ou vinagre?

Quando vi no blog "Duas ou três coisas" um texto sobre a possibilidade do lançamento de uma marca de vinhos chamada Salazar (precisamente em homenagem ao "nosso" ditador), lembrei-me logo de quando andava a passear por Roma e dei de caras com a montra que a imagem ao lado mostra.

Que bela coleção de patifes!

E nem vale a pena cair em cima dos fascistas e do seu saudosismo porque, para vincar bem que a ideia de quem produziu esta série de vinhos era homenagear um grupo de facínoras, - independentemente da sua área política -, temos, a vivo vermelho, uma garrafinha dedicada ao camarada Che (com cujo nome também se vende - pelo menos em Lisboa -, tabaco de enrolar).

Olhando para estas garrafas, só me vem à ideia uma pergunta: aquilo será vinho ou... vinagre?

Portugal - Castelo Rodrigo

2500 km por Portugal - parte 12 (2011/10/04)

Idanha-a-Velha

Saído do bonito lagar de azeite, procurava agora a torre "dos Templários" (denominação talvez enganadora). Atendendo à pequenez daquilo tudo, "procurar" não é bem o termo. Digamos que me desloquei até ao sítio, inteiramente ciente que estava da sua localização graças ao folheto que tinha pegado no lagar.

O curto caminho até à torre tem a graça de todos os trajetos em Idanha-a-Velha, ou seja, é um percurso com casas de pedra onde nos sentimos rodeados da ruralidade. Gente, pouca se via e, não fosse um conjunto de engraçados gatos que se acumulavam debaixo de um alpendre, quase que poderia dizer que não tinha visto vivalma (os gatos têm alma?). A torre é relativamente desinteressante e tem - talvez como única graça -, o facto de estar assente sobre uma vulgar base de um templo romano. Chamar àquilo torre é um bocado exagerado, desde logo. A verdade é que, muito provavelmente, se tratava de uma casa (com rés-do-chão e primeiro andar) cuja entrada se encontra um pouco mais elevada (à altura da nossa cabeça). À volta há alguns buracos resultantes de escavações arqueológicas e... mais nada. Como local a visitar, só se aconselha se não houver pressa.

Como o mapa indicava a existência de qualquer coisa fora de portas (embora não dissesse o quê) e eu tinha visto uma referência a termas romanas, voltei a sair da aldeia pela porta defronte da basílica. Meti-me por um caminho à esquerda que acompanhava algumas hortas. Ao fim de uma centena de metros, por entre árvores, avistei uns restos de paredes. Sem qualquer indicação e sem possibilidade de aceder ao local (a menos que me armasse em turista salta-muros) contentei-me em acreditar que aquelas pedras junto a um buraco e lutando contra a vegetação eram os vestígios romanos. Voltei para trás com menos uns minutos no bolso... 

Atravessei ruas já conhecidas em direção ao largo onde fica o pelourinho e a igreja matriz. Esta, como seria de esperar, estava fechada (acompanhem o meu relato de sítios encerrados nesta viagem). 

Ao notar a existência de um café a metros dali, "bateu-me" a forma como tudo aquilo está subaproveitado em relação aos turistas. É certo que era a época baixa mas os estabelecimentos não despontam com a vinda do momento certo do ano. Idanha-a-Velha (como, tristemente, todas as nossas aldeias históricas) só tem para oferecer o seu património na forma mais básica, i.e., ver e tirar fotografias às "pedras". Sim, porque o turista que vá na ilusão de que chega a uma aldeia histórica e se senta comendo docinhos regionais e bebendo um licor da terra e pode comprar recordações engraçadas, etc., rapidamente chega à conclusão de que aquela conversa (repetida até à náusea), sobre o aproveitamento do património e a importância do turismo para a Economia do interior do país é tudo treta! Esta gente (a nossa gente) não sabe fazer negócio!

Bom, segui em frente, esperando encontrar, no fim da rua, a capela de São Dâmaso. Esta estava lá, em toda a sua singeleza exterior porque, do interior, nada vi. Adivinharam? Estava encerrada. Sorte a minha que, pouco a baixo, havia a ponte "de origem romana" e é característica das pontes não terem portas. Se as tivessem, alguém as manteria  fechadas, claro... Fotografias daqui e dali, descida até ao leito completamente seco da ribeira - para poder apreciar o perfil do monumento -, e, rapidamente, a sensação de já estar a raspar o fundo do tacho.

Idanha-a-Velha ainda não tinha acabado, no entanto. Mas, estava perto disso. Algumas casas bonitas  para fotografar (sobretudo aquelas cujos donos enfeitam com flores), e a subida à muralha do lado da entrada antiga eram tudo o que me faltava para marcar como concluída a minha visita.

Antes de ir para o carro, segui ainda o mapa na tentativa de ver uma necrópole romana que estaria junto à estrada por onde eu tinha chegado. Eu bem me empoleirei na cerca mas não vi nada. Talvez os vestígios da necrópole fossem os sarcófagos de pedra que eu tinha visto junto à basílica. Talvez os tivessem transferido para comodidade do visitante (e, provavelmente, de algum agricultor). Certo, certo, é que, se alguma coisa ali havia... não se via.

Voltei para o carro passando junto ao redondel que ali há: uma arena com três fileiras de bancadas e pintada de branco. Coisa pouca para quem vem da terra do Campo Pequeno mas que certamente dará muitas alegrias à população local. 

A água fresca de uma bica foi o complemento perfeito a dois secos minicroissants resgatados a uma embalagem que eu trazia no portabagagens desde Vila Velha de Ródão. Terminado o delicado repasto, parti para Monsanto. Antes de me fixar na paisagem fui pensando que Idanha-a-Velha, por mais interessante que seja, ficou bastante aquém das minhas expetativas, inflamadas por anos de elogios feitos à aldeia por muita gente. Não se entenda por isto que não aconselho a visita. Pelo contrário! É um local que merece uma deslocação mas, apenas, como parte de um passeio mais abrangente pela região. Caso contrário, é capaz de saber a pouco...

sexta-feira, 16 de março de 2012

A pronúncia do Norte

Eu gosto de pronúncias. E de regionalismos. Gosto de "saborear" as diferenças na sonoridade de uma mesma língua, de lhes sentir as cambiantes na entoação, as alterações nos significados, de ter de perguntar "o que é isso?" e de receber uma explicação quase sempre com o tom alegre de quem tem oportunidade de mostrar uma coisa que é orgulhosamente sua.

Gosto das diferenças e aceito-as, não necessariamente como uma riqueza (argumento que muitas vezes pretende justificar a degeneração do idioma como algo saudavelmente inevitável), mas como algo que é tão natural, tão intrinsecamente nosso que rejeitá-lo seria como amputar uma parte da nossa identidade.

Enternece-me que, na Beira-Baixa, se agradeça com um quase humilde "Bem haja" e que, no Porto, ao corrigirmos de "imperial" para "fino" o empregado nos sorria e diga "eu sei o que é". Enleva-me a doçura das pronúncias algarvias, trazendo nas palavras aquele ar de leve indignação, com as vogais nasaladas ao limite, quase justificando uma nova onda no til (tenho cá para mim que nada deve ser mais sensual do que ter uma algarvia a murmurar-nos coisas marotas ao ouvido). Alegra-me a pronúncia alentejana, ao mesmo tempo rude e delicada, cartaz primeiro de todos os pequenos e lentos prazeres que nos são reservados além Tejo. Acalma-me a espessura dos "L" de São Miguel e a forma como são "escavados" os "U" (na Beira-Baixa, também). E chateia-me a ausência de pronúncia ou, pior do que tudo, o esforço por a perder naqueles que crescem falando Português de forma diferente da correntemente "aceite". A identidade, a nossa cultura, não é uma roupa que se muda consoante a estação; é uma pele que nos cobre e com a qual nos mostramos aos outros, inteiros e próprios.

Dito isto, há que dizer que o gosto pelas pronúncias (que sinto, igualmente, no caso dos idiomas estrangeiros), não implica, forçosamente, uma apreciação prazenteira de todas as pronúncias. Algumas há que são capazes de me inspirar alguma repugnância, até.

É comum dizer-se que a "pronúncia do Porto" é feia. Também é hábito de muitos tomar o particular pelo todo e chamar "pronúncia do Norte" às características da fala notadas na Invicta. Pois eu digo que nem uma coisa, nem outra. Nem a forma como as pessoas se expressam no Porto é necessariamente feia, nem é comum a todo o Norte (tem alguma coisa a ver com a forma de falar em Trás-os-Montes?).

Desde logo, há que dizer que a pronúncia "lá de cima" não é um todo homogénio que nos permita dizer "é assim que os portuenses" (e os bracarenses e os vimaranenses...) falam. Os "v" pelos "b" ocorrem aqui e ali (e até há quem faça a "viagem" contrária, trocando os "b" pelos "v", como em  "isto é muito vom"!!!); os "ão" pelos "on" é conforme os dias (os "on" pelos "õ-e", então, nunca os ouvi); os "an" pelos "án" aparecem com frequência; os "i" pelos "ii" saltam-me ao caminho regularmente mas... aquilo que eu identifico imediatamente com "a pronúncia do Porto" é a cadência. Há um tom lamorioso na voz daquelas gentes, independentemente de possuirem, ou não, qualquer uma das características anteriormente referidas. Podem ser autênticos "lisboetas" na forma de falar mas a cadência... essa, denuncia-os logo. E se eu não gosto dos "on" e dos "án" (e coisas quejandas) e acho que, de uma forma geral, essas alterações dão um tom grosseiro à fala, a verdade é que a cadência me transmite uma sensação de calma, de ponderação naquilo que me dizem, quase como se quem se expressa naquele ritmo (a um mesmo tempo queixoso e levemente espantado), possua uma virtude inata que lhe é transmitida pela calma entoação e cuidado posto nas sílabas. Um "teso-uro" parece-me sempre mais valioso do que um "tesouro". E quando alguém afirma "Eu so-u", parece fazê-lo com mais determinação e consciência de si mesmo. O que ele é, é lá consigo mas eu acredito, desde logo.

Eu gostava de namorar com uma algarvia, de patuscar com um alentejano e de confidenciar com um micaelense mas, para professor, escolheria um portuense. Sem "áns", "ons" e "v" por "b". Apenas, com aquele tom ponderado que tanto me agrada.

Para finalizar esta minha dissertação sobre as pronúncias, e porque, num blog sobre viagens, há que ilustrar as coisas com casos de "estrada", aqui fica o caso mais grave de "nortite" na fala com o qual já deparei. Ocorreu em Guimarães, quando eu me passeava pelas suas belas ruas e um grupo de miúdos passou por mim escutando atentamente um deles, que comentava um filme que havia visto na noite anterior:

- Entõ-e, á mulher do bámpiiro estaba fazendo so-upa...
- E o bámpiiro?
- O bámpiiro num estaba lá...

Vizinhos celestes

O aviso surgiu na edição online do jornal Público: os planetas Vénus e Júpiter iriam ser mais visíveis do que o costume, sob a forma de dois solitários pontos brancos no céu de fim de tarde do dia 13.

Enquanto a noite não se instalasse completamente e as estrelas se acendessem, quem olhasse um pouco acima dos prédios lá veria os nossos distantes vizinhos, anormalmente próximos um do outro, Vénus maior e mais brilhante (porque mais próximo) e Júpiter mais pequeno (porque mais distante, ainda que sendo muito maior do que o planeta que nos precede na contagem desde o Sol).

Deixei-me ficar na rua olhando para aqueles dois pontos de luz, testemunhas brancas ali presas ao azul que escurecia, e senti uma espécie de familiaridade com o universo, uma vontade de tratar o céu por tu, de lhe falar das coisas aqui de baixo em jeito de confidência e de ficar a ouvir-lhe o suave e sereno silêncio.

Quem vive na cidade não conhece o céu. É preciso ir para o campo para nos assustarmos com a quantidade de olhos que nos observam lá de cima, o pano noturno mil vezes perfurado pelas luzes de longínquos sóis. E é por isso que ocasiões destas se tornam ainda mais especiais: porque nos lembram das ilhas que nos acompanham no interminável mar celeste e nos fazem, ainda que por um momento, sentir parte de algo que é muito maior do que a nossa própria imaginação.

Para estes sítios não há viagens. Como diz a canção dos Heróis do Mar, "são coisas do mundo que só se podem ver ao longe". Ao longe, é certo mas, de vez em quando, um pouco mais perto de nós...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Não faz mal, senhor...

Monumento em Câmara de Lobos:
a especialidade da casa?...
Câmara de Lobos, na ilha da Madeira, é uma terra que, não sendo uma maravilha, tem interesse suficiente para merecer um saltinho até lá (a partir do Funchal, entenda-se). Há uma pequena praia com barcos de pescadores, há um núcleo antigo - hoje ocupado com bares -, que é castiço, e há um alto com uma igrejinha e umas construções modernas do tipo daquelas que admiramos nas revistas de arquitetura. Acredito que, à noite, tudo aquilo possa até ser verdadeiramente romântico.

Mas, segundo rezam as crónicas da Justiça, a vila também era (é?) conhecida por ser um dos pontos madeirenses do roteiro da pedofilia. Na altura em que o famoso Padre Frederico foi preso (e, depois, escapou para o "paraíso" brasileiro), muito se falou nesta localidade atlântica. E, quando eu lá fui, não me deixei de lembrar das histórias que tinha lido.

Ora, estava eu calmamente na praia, por entre os barcos ali "estacionados", tirando umas fotografias ao mar quando, ao baixar a máquina fotográfica, me apercebi da presença de um miúdo ao meu lado, estendendo-me uma flor. Já não me lembro do que lhe rosnei mas a resposta foi um "Não faz mal, senhor...". Naquele momento, senti uma sensação de repulsa, como se me tivessem arrastado para uma asquerosa história da qual queria desaparecer o quanto antes. O miúdo e o seu comentário pretensamente tranquilizador, a ideia do que aquilo podia envolver (ou talvez não), a sensação de que alguém nos podia estar a ver e a pensar que eu era mais um turista "dos especiais"... numa fração de segundo todo o prazer que me estava a dar aquele passeio desapareceu, engolido pela pegajosa presença da criança. Esta ainda insistiu com um "Uma moedinha, senhor", dita com uma fortíssima pronúncia madeirense, um olho semicerrado por causa do sol e, na cara, aquele ar de puto de rua que se tenta desenrascar. Acho que nem lhe respondi. Devo ter feito um gesto qualquer e abalado em direção às casas, quanto mais depressa lá chegasse melhor. O miúdo não insistiu e desapareceu tão discretamente como tinha aparecido.

Durante o resto do meu passeio por Câmara de Lobos agi como um estrábico: um olho no que queria ver e o outro à cata de mais alguma cena como a da praia. Felizmente, foi situação que não se repetiu...

Portugal - Gravuras de Foz Coa

terça-feira, 13 de março de 2012

O infeliz benfiquista

Corria o ano de 1996. Eu chegava ao Porto, juntamente com um amigo, vindos de Melgaço. A fome apertava porque já passava das nove da noite. O Porto não é Lisboa, e os anos noventa não eram os de agora. O resultado desta coisa óbvia: não havia muitos sítios onde entrar para matar a fome. Ainda assim, o meu amigo, recorrendo ao seu conhecimento da cidade (onde trabalhava), conseguiu fazer-nos aportar a um restaurante, com a promessa de que, uma vez à mesa, poderíamos saborear uma boa francesinha.

O estabelecimento tinha dois pisos, ou seja, tinha, para além da entrada, uma plataforma à qual se acedia por uma escadaria. A imagem que tenho do local é ténue mas ficou-me a impressão de ser uma coisa à anos sessenta. Numa parede, uma grande tela exibia um jogo de futebol. A partida - um Benfica x Flamengo -, diria mais ao meu amigo do que a mim - que, também nestas coisas do futebol, sou orgulhosamente "ateu" -, mas preferimos o recato de uma mesa junto à janela no andar superior à "emoção" do exótico jogo.

Ali onde nos sentávamos, apenas outra mesa estava ocupada, e por um homem só e de ar bastante apreensivo. Quando do piso inferior nos chegou um grito geral de satisfação, imediatamente acompanhado de um ar triste por parte do nosso "colega", percebemos que a coisa não estava a andar bem para a equipa da Luz. Daí a pouco, a cena repetiu-se: grande algazarra por baixo de nós e os olhos do pobre benfiquista ainda mais mergulhados no prato. Não bastava a sua equipa estar a perder, ainda por cima tinha de suportar a irritante felicidade dos portistas.

A certa altura, o empregado de mesa subiu as escadas  para vir tratar do serviço. Condoído, mostrou compreensão pela infelicidade do seu cliente: "Então, isto está mal..". Como resposta, apenas teve um leve encolher de ombros. Mais não era preciso para dizer que sim, que ele tinha razão e que a coisa estava mesmo muito má.

O meu amigo, esticando o pescoço para ver por cima das grades da plataforma, iniciou uma pergunta dirigida a mim: "Aquele não é o..." - "O Vando, é o Vando!" - respondeu entusiasmado o homem ao aperceber-se de que poderia ter ali alguém que partilhasse as suas cores. Eu, que estava de frente para ele, sorri-lhe, como que agradecendo a sua precisão. Sim, era o Vando. Mas, por mais dribles que este fizesse, não conseguia o duplo milagre de nos entusiasmar com a coisa ou de salvar o Benfica de sofrer mais golos.

Se bem me lembro, quatro vezes celebrou a turba portista. A nós, as francesinhas acompanhadas de batatas fritas e molho de cerveja souberam-nos tão bem como em qualquer altura mas, ao deslocado benfiquista, nem a mais doce sobremesa poderia ter tirado o amargo de boca...

domingo, 11 de março de 2012

Lisboa sempre esteve aqui

Lisboa, como todas as grandes cidades, é um íman que atrai gente de todo o lado, vinda na senda de uma vida melhor. Das aldeias, das vilas e, até, das cidades menores, ao longo dos séculos multidões fizeram as malas (ou o que a elas mais se assemelhava) e rumaram à "Grande Alface" e seus arredores. O resultado fui, muitas vezes, a criação de tristes zonas dormitório e bairros degradados mas, também, a importação para a capital de corações que trataram de bombear sangue novo nas nossas urbanas artérias, contribuindo para o fortalecimento da cidade e nunca entrando em conflito com a cultura local já existente.

Mas, por mais gente que "aterre" em Lisboa, não nos podemos esquecer de que esta bela cidade é mais velha do que qualquer migração, mais antiga do que qualquer nacionalidade, mais forte do que qualquer invasão. Quando não havia Transmontanos assim chamados, já gente aqui construia casas; quando não sabia o mundo o que seriam os Brasileiros, já homens contemplavam o (ainda mais belo) estuário do Tejo e o mar que lá ao fundo tomava o horizonte; quando Algarvios, Alentejanos e Madeirenses não eram, sequer, um sonho de futuro, já crianças vinham aprender dos mais velhos o que eles tinham a ensinar. Má poesia à parte, Lisboa (ou o que lhe chamassem em cada época), está aqui desde sempre. E onde há uma terra, há gente que nela nasce. Os Lisboetas sempre existiram.

Porque me lembro disto? Porque, num belo verão feito de vários passeios, convidou-me um amigo para ir passar uns dias ao Porto, com uma paragem prévia em Melgaço (Minho). Foi a primeira vez que parei e andei no Norte mais nortenho, com a Galiza já ali à vista. Tudo me parecia diferente, fosse no aspeto das casas de pedra, fosse na descoberta do gosto da cidra. E se aquilo me era estranho (mas não estrangeiro), aparentemente, também eu o podia ser, ainda que involuntariamente. O meu amigo tinha amigos na zona, sobretudo antigos colegas de faculdade e gente conhecida em visitas anteriores à área. Naturalmente, a cordialidade levava a que as pessoas mostrassem interesse em mim, traduzido, quanto mais não fosse, na curiosidade pela minha proveniência. Ora, se nisso não havia rigorosamente nada de mais, o engraçado é que, mais do que uma vez, à minha resposta "Sou de Lisboa.", as pessoas contrapunham imediatamente um "Mesmo de Lisboa?". E quando eu lhes assegurava que sim, que era "mesmo de Lisboa", a sua curiosidade saltava logo para os meus pais "E os teus pais, também?". Sim, também eles de Lisboa, continuava eu. Seguia-se dos meus interlocutores um sorriso acompanhado de qualquer coisa do tipo "Que giro...". 

Quantos anos tem Lisboa? Dois mil? Mais, até... Séculos de "lisboetas" nascendo e sendo pais e avós de outros "lisboetas" e eis que, em 1996, compatriotas meus achavam "giro" que os meus pais também fossem desta terra. A coisa deixava-me a meio caminho entre o espanto e a diversão mas, verdade seja dita, que se Lisboa é terra-natal do meu "santo dos santos" familiar, basta dar um passo fora dele para se ouvir os nomes de Leiria, Nazaré ou Penhascoso. As duas primeiras mais distantes por força de ténues relações do lado paternal, a segunda mais próxima devido ao hábito da convivência com a família materna. Mas, mesmo "escavando" à procura das minhas raizes, não deixo de ter Lisboa sempre presente nas gerações mais chegadas. E isto, não me garantindo quatro costados lisbonenses, apesar de tudo permite-me por um ligeiro tom de espanto perante qualquer curiosidade relativa à naturalidade dos meus pais. "Sim, de Lisboa, também.". Porque ela sempre esteve aqui...

sábado, 10 de março de 2012

Portugal - Castelo Melhor


Lojas de marca

Como ainda faltavam algumas horas para apanhar o avião de volta à santa terrinha, decidi passá-las em Milão, dando umas curtas voltas na zona circundante da estação central de comboios (em si mesma, uma visita recomendada, para admirar a sua arquitetura de estilo fascista).

Tinha vindo de Bolonha e estava a sentir-me com fome por ter saído cedo de lá e ter tomado o pequeno almoço um pouco à pressa. Resolvi tratar-me bem, i.e., rejeitar a óbvia oferta do MacDonald's local, e sentar-me numa esplanada de uma pizzaria que me pareceu um compromisso aceitável entre a informalidade do "pronto a comer" e o conforto de um restaurante.

Numa mesa à minha frente sentava-se uma mulher de meia idade, com ar inglês e, na mesa que se interpunha entre nós, estava um casal cujo típico físico me escapava: eram brancos (ela, alourada) mas tinham aquele ar um pouco "rechonchudo" que se vê nalgumas pessoas do Próximo Oriente e que lhes dá uns traços pouco definidos. Falavam uma língua que não consegui distinguir mas que soava aos idiomas da zona atrás referida. Entre eles conversavam de forma animada, por vezes um pouco ansiosa, outras vezes quase à beira da zanga (como acontece com qualquer casal).

Rebuscava eu o prato em procura de restos de uma pequena pizza quando o homem se vira para mim e pergunta:

- A catedral, é perto daqui?
- Nem por isso. - respondi - Fica a uma certa distância mas pode apanhar o metro até lá.
- E de táxi? Não se pode ir?
- Pode, mas tem já aqui uma linha de metro.
- E leva muito tempo? Temos um comboio daqui a pouco, para Bolonha.
- Bem...

O homem talvez tenha achado melhor explicar o seu interesse em ir até à catedral...

- Há lá lojas por perto, não há? De marcas conhecidas... Nós queremos ir às compras.
- Sim, parece-me que há mas... se vai a Bolonha, tem lá um sítio só com lojas dessas.
- Ai sim? E os preços?
- Se estiver disposto a pagar dois mil euros por uma mala...
- Tanto?!

Nesta altura, a mulher de ar inglês (e que o era, de facto), interveio em minha "ajuda". Vinha frequentemente a Milão e sabia onde é que o casal podia arranjar coisas de marca, mais baratas. A solução era ir à... Suíça, a um outlet onde todos os ícones do luxo italiano eram vendidos com grande desconto. Seguiu-se a descrição de como chegar a esse local do tesouro, a essa gruta de Ali-Babá, onde o consumista casal poderia dar largas ao seu desejo de ter coisas de... marca.

Salvo pela especialista britânica, eu, que não sou dado a marcas, contentei-me em acabar uma anónima cerveja (que me custou o mesmo que uma refeição em Lisboa).

domingo, 4 de março de 2012

2500 km por Portugal - parte 11 (2011/10/04)

Idanha-a-Nova
Na noite anterior, enquanto procurava a Pousada de Juventude, deu para perceber que Idanha-a-Nova tinha "coisas para ver", com vários casarões antigos a merecerem especial atenção. Mas, o dia que nascia tinha marcado como título "Ida a Monsanto e Idanha-a-Velha". Trocava, assim, a atual localidade pela sua vetusta homónima, certamente mais importante na minha de lista de "sítios onde ir".

Idanha-a-Nova fica num alto e, se isso não é percetível para quem chega vindo de Castelo Branco, mal apanhamos a estrada que segue para Oeste, imediatamente começamos a descer bastante. Quando a inclinação acaba, Idanha surge-nos em toda a sua graça, que é aquela que já conhecemos de todo o mundo onde haja casario encavalitado em rochas ou espraiando-se por montes abaixo. Cá em baixo, passa-se um ribeiro e damos logo com uma antiga capela isolada numa "ilha" entre duas estradas que a circundam. Templo de pedra, com um alpendre, merecia melhor enquadramento do que aquele que lhe deram mas, verdade seja dita, não havia muito mais espaço onde se pudesse fazer passar os carros.

Pouco depois, tomei uma estrada cuja indicação era de ir dar à Barragem Marechal Carmona. Confortado pela presença do GPS, sabia que chegaria à velha Idanha, independentemente das voltas que desse. Estas - as voltas -, foram boas. A paisagem é bonita, com um misto de rocha e campos com olivais. Casas... poucas. O caminho faz-se com uma sensação de tranquilidade e leveza (nunca perdendo de atenção as curvas...).

Idanha-a-Velha

A certa altura, ao virar à esquerda, avisto, por entre as copas de algumas árvores, alguns dos monumentos de Idanha (para me facilitar a vida, omitirei doravante "a-Velha"). Fiquei surpreendido porque imaginava a aldeia ("histórica") deuma forma diferente. Pensava que era um grande conjunto de casario "agarrado" a uma encosta mas, afinal, não é nada disso: é um local pequenino, perfeitamente delimitado por uma baixa muralha e que fica no meio de uma zona "plana". Não fiquei desiludido porque o "postal" é bastante engraçado e fui gozando-o enquanto deixava o carro rolar languidamente.

A antiga entrada de Idanha-a-Velha
À chegada a Idanha, deixei o carro no parque de estacionamento preparado para os visitantes e que fica junto à praça de touros (redondel, seria um melhor termo). Alminhas não se viam, com exceção de duas mulheres que pareciam andar a tratar da limpeza do que, calculo, seja uma espécie de centro social ali construído e cuja traça desrespeita completamente a natureza pedregosa da aldeia. Parece que os arquitetos insistem em não querer imitar a "alma" dos locais, ocupados que estão em imitarem a monótona corrente estética do minimalismo pintado a branco...

A entrada das muralhas da aldeia está logo ali: dois torreões baixos, redondos, com uma passagem em arco e que vai dar a uma... parede. Para entrar na aldeia, usa-se a rua que fica do lado direito da antiga entrada. Ao fundo, um portão de ferro marca a entrada para os jardins de um grande casarão abandonado e cujo tamanho é absolutamente desproporcionado em relação à aldeia. Passando o braço através das grades consegui tirar uma fotografia ao espaço. Na volta da mão vinha a imagem de um local opulento, com arcadas e uma grande escadaria mas claramente entregue ao mato. O alarme de "património desperdiçado" soou estridentemente na minha cabeça e parti dali em direção a centro da aldeia com a curiosidade por este local sobrepondo-se à sentida pelos vestígios arqueológicos que constituem  o núcleo patrimonial de Idanha. Mais tarde, saberia pela voz de um local que o casarão era o solar (ou palácio) da Família Marrocos e que iria ser recuperado pela rede das Pousadas de Portugal. O meu espírito dividiu-se entre a alegria por imaginar travada a decadência do local e o receio pelo que pudesse ser feito na recuperação do edifício. Nem sempre estas "salvações" são feitas da melhor maneira. Enfim, do mal, o menos...

A velha basílica e a sua envolvente 
Junto ao "estranho" "Palácio Marrocos" (o edifício, não deixa de ser uma aberração ali), começa o casario de pedra. Contornando aquele, chega-se às traseiras da famosíssima basílica paleocristã ou visigótica (como também é conhecida). E é aqui que Idanha nos diz "viva!". Toda a zona é um mar de vestígios arqueológicos: largas dezenas de lápides, pedaços de colunas, pedras inscritas, mós, etc., alinham-se em parada junto à igreja e subindo por uma rua que dá a volta aos terrenos do solar (no fim, a via está fechada pelo que há sempre que voltar a trás). E, porque o visitante é exigente e quer mais, ainda há restos de casario, sarcófagos e uma passagem mais ou menos escondida sob a muralha. Para ter uma boa ideia de tudo aquilo, é melhor subir a baixo muro (e aproveitar para ir descobrindo nele os vestígios romanos embutidos). Em cada ponta da igreja (no exterior) ficam elementos protegidos e que são de grande interesse. Infelizmente, a degradação das proteções - associada ao reflexo do sol -, torna difícil apreciar os vestígios, obrigando-nos a alguma "ginástica".

Como a basílica ainda não estava aberta, resolvi seguir o caminho que saía da aldeia. Por ali se vai dar a um local curioso (poucos metros à frente) e que é a passagem de uma ribeira (naquela altura, seca) onde uma sucessão de pequenos pilares serve de passagem às gentes quando a água inunda o leito daquela. Não havendo ali mais nada para ver, reentrei na aldeia. No adro que há junto à igreja (e que é de arranjo moderno), dois populares varriam o chão calmamente. Isto fez-me reparar, daí para a frente, na limpeza que se verifica por toda a aldeia.

Como, finalmente, a basílica estava aberta (o cumprimento dos horários dos locais turísticos - e seus postos de informação -, foi uma das falhas que verifiquei em toda a minha viagem pelas Beiras), entrei no espaço relativamente ao qual tinha grandes expetativas. Estas, de um modo geral foram goradas. Tudo aquilo é um vazio apenas rompido por duas linhas de colunas suportando o teto e não se veem elementos como os que se esperaria ter num templo tão antigo. O chão foi modernizado com madeira envernizada (apenas "rasgada" aqui e ali por traços de piso antigo), e isto confere ao local um conforto inesperado, certamente agradável para as pessoas que vão sentar-se nas modernas cadeiras empilhadas a um canto mas em tudo contraditório com a "aspereza" do edifício. Como salvação da visita, há umas pinturas (esbatidas, é certo), numa capela lateral.

O museu lapidário
Havendo, defronte da basílica, um edifício cujo "jardim" estava aberto, fui entrando a passo pequeno. Ao reparar na existência de um quiosque multimédia apercebi-me de que era um espaço público. O quiosque era semelhante a um que eu tinha visto em Castelo Branco (e que estava avariado). Este, para não se fazer estranho, também estava, tendo apenas a registar-se a diferença de estar ligado e com imagem. Tremia era descontroladamente... Uma espécie de contentor muito comprido rasgava o espaço do jardim, junto ao tremelicoso quiosque. Apercebi-me de que havia  lápides romanas expostas e fui vê-las. Em cada extremidade do "contentor", há uma porta. Estando uma delas ligeiramente aberta, avancei, ainda com medo de que alguém me aparecesse dizendo "Onde julga que vai?!". É que não se via ninguém por ali e nada convidada o visitante a entrar.

O "contentor" onde entrei era, afinal, o novo espaço do museu lapidário de Idanha-a-Velha, guardando o espólio que estava numa antiquíssima construção românica (?) logo à entrada da zona da aldeia. Ao longo das paredes sucedem-se inscrições romanas, cuidadosamente dispostas e acompanhadas de alguns pontos multimédia com ótima informação sobre aquilo que se está a ver. Como grande graça, saliento o facto de haver vídeos com supostos romanos "lendo" as placas em Latim. Não é todos os dias que podemos ter este tipo de "mergulho" no passado, convenhamos.

O lagar
À saída do museu, aproveitei para ir a um canto do jardim espreitar os vestígios de uma casa romana, "escondidos" debaixo da "plataforma" onde assenta aquele espaço. De novo cá em cima, encaminhei-me para uma porta aberta a um canto e que é a entrada para o edifício que domina o espaço. Trata-se de um antigo (e grande!) lagar, recuperado de uma maneira magnífica, com todos os elementos para que possamos perceber como era feito o azeite por ali. É um espaço tão bem arranjado e confortável que duvido que alguém lá entre e não pense "como eu gostaria de viver aqui...". Aqui é onde fica o "posto de turismo" de Idanha. Fui bem atendido pelo rapaz que lá estava e pude obter informação respeitante a outros locais do concelho que me poderiam interessar. Este foi um pormenor que me agradou nos postos de turismo da zona: em nenhum deles a informação se limitava à sua "paróquia" (por assim dizer).

(continua)

sexta-feira, 2 de março de 2012

2500 km por Portugal - parte 10 (2011/10/03)

As "Portas do Almourão"
Saí de Vila Velha de Ródão apontado a duas aldeias "de xisto": Foz do Cobrão e Figueira. Antes de lá chegar (e por indicação no posto de turismo de VVR), iria passar nas "Portas do Almourão", uma formação do tipo da que é o ex-libris da vila junto ao Tejo.

O caminho que liga VVR às aldeias acima referidas é um misto de antigas estradas sinuosas e novas pistas que, em vários troços, ainda se encontravam em obras. Com o GPS e senso comum, lá consegui seguir a rota certa, não sem, por várias vezes, ter de voltar atrás e experimentar alternativas.

No fim de uma subida, uma zona mais larga e um letreiro anunciam a chegada às Portas do Almourão ou, mais propriamente, ao seu miradouro. Estas portas são uma formação do mesmo tipo das Portas do Ródão mas bastante mais modesta, no fundo, à medida de um afluente... Mas, se o "estreito" por onde o rio passa é mais pequeno e não tem aquela monumentalidade de bilhete postal que encontramos em VVR, a verdade é que os montes à volta compensam-nos - e bem! -, pela diferença. O miradouro está no cimo daquilo tudo e "espalha-se" por uma área considerável, permitindo-nos vários níveis de observação, ao mesmo tempo que podemos andar a "saltitar" pelas rochas para satisfazer a nossa curiosidade pela paisagem. É um local agradável mas que também nos confronta com uma paisagem agreste q.b., feita de rocha que impõe respeito.

As "portas" estão lá bem em baixo, onde é possível ir através de caminhos mais ou menos de cabras mas que me pareceram - ao longe -, apenas necessitar de algum cuidado e paciência (para além de boas pernas). Uma vez no fundo, estou certo de que o visitante será "esmagado" pela envolvente. É coisa a fazer para quem tenha tempo...

Ora, tempo era coisa que eu não tinha em grande quantidade. Andar a passear - seja por onde for -, tem este paradoxo: todo o tempo do mundo acaba por se traduzir em andar a correr para ver o máximo de coisas que for possível. No fundo, tipos como eu, a menos que estejam numas termas (coisa que ainda hei de experimentar), andam sempre a correr.

Foz do Cobrão
Tiradas as fotos da praxe, morta alguma sede e descansado o corpo durante alguns minutos, arranquei em direção à aldeia que tem o traiçoeiro nome de "Foz do Cobrão".

Para chegar à dita Foz, após subir, é preciso começar a descer. Alcança-se a entrada da aldeia e entra-se numa rua, deixando o carro deslizar até chegar a uma zona onde o casario começa a parecer mais interessante (entenda-se, "rústico"). Deixei o carro numa espécie de largo e preparei-me para dar uma volta pela terra.

Logo às primeiras passadas simpatizei com o local. Há uma mistura de casas "brancas" com outras feitas de xisto e, descendo até à ribeira, o cenário melhora. Quando chegamos à pequena ponte, estamos perante um ambiente bucólico, com casario de pedra, muita vegetação e aquele ar tranquilo que só os "fins do mundo" têm. Meti-me por caminhos que tanto podiam ser públicos como pertencer às traseiras das casas e fui admirando o ar antigo daquilo. Coisas abandonadas - como não podia deixar de ser -, conviviam com outras bem cuidadas. A certa altura, um caminho que eu seguia acabou num portão fechado. Aparentemente, o trajeto público acabava no quintal de alguém...

Com a noção de já ter visto o que interessava (que sendo pouco, era bonito), meti-me no carro. Resolvi experimentar uma estrada que saía por baixo (a vantagem do GPS é esta: podemos meter-nos por qualquer lado que havemos sempre de voltar a "casa" no fim do dia). Quando me aproximei de uma ponte "moderna", apercebi-me de que estava a chegar a um local muito bonito. Arrumei o carro num espaço junto à estrada e saí.

O que eu tinha à frente era um vale por onde passava um rio (o Cobrão, já se vê), devidamente "domado" pelo homem e que era de uma beleza que, infelizmente, as fotografias que tirei não conseguiram capturar. E não é só a beleza que escapa às fotos: é, também, o sossego, a sensação de tempo parado, o cheiro do campo...

Senti que a ponte que ali estava traía a paisagem mas aproveitei-a como base para observar a zona. A uma certa distância, um pastor de alguma idade, descansava sentado numa pedra enquanto as suas ovelhas pastavam nos terrenos semialagados. Carros, não passavam. Pessoas, não se viam (para além do dito pastor). Tudo aquilo murmurava "paz".

Foz do Cobrão
Voltei atrás, até onde tinha deixado o carro, e tomei um caminho descendente. No fim dos poucos metros, estava um conjunto de três ou quatro casas/palheiros de pedra semiabandonados. Tratava-se de uma velha quinta ou xácara ou sítio ou seja lá qual for o nome que se dá a um pouco de terreno para a prática agrícola.   Andei por ali, observando as casas e sentindo a terra.

Por esta zona há uma rota que se pode fazer e que, tal como outras da rede das Aldeias de Xisto, pretende fazer o viajante "mergulhar" na paisagem natural e, também, na feita pelo homem. Não tenho qualquer dúvida de que vale a pena palmilhar os diversos quilómetros do caminho definido pelas autoridades que tutelam a conservação destes espaços. Infelizmente, eu apenas estava de curta passagem.

Abandonei aquela paisagem abençoada com a pressa que tem quem sabe que a noite vem aí e ainda há muito que andar. Por esta altura já tinha posto de parte a ideia de ir a Figueira e apenas pensava em ir para Idanha-a-Nova aproveitando o máximo de luz que fosse possível. Viajar à noite não tem grande graça e muito menos quando andamos por montes. Valia mais "perder" uma aldeia e "ganhar" a paisagem do caminho...

Com a segurança do GPS, lá andei "perdido" pelos montes, dando uma volta grande até conseguir chegar novamente a Vilha Velha de Ródão. Uma vez aqui, foi aproveitar as boas estradas que se foram construindo pelo interior para tentar chegar o mais cedo à Pousada de Juventude de Idanha.

Cheguei a Idanha-a-Nova quando a noite já estava bem instalada. Por não ter percebido bem uma indicação (ou ela não ser das melhores) andei às voltas pela vila até conseguir alcançar a pousada. Esta, fica na zona mais antiga, num casarão recuperado em jeito moderno. À chegada, fui recebido por um funcionário de ar um pouco soturno. Cumpridas as formalidades (e explicada ao rapaz a diferença entre "ter uma reserva" e "fazer uma reserva" ali mesmo), tive, novamente, a grata surpresa de ter um grande quarto só para mim. Guardadas as coisas, a minha preocupação era só uma: COMER!

Das várias "sugestões" dadas pelo funcionário da pousada (a quem eu, mentalmente, apelidava de "o bruxo"), acabei por escolher o restaurante "O moinho", um daqueles locais que ficam nos arredores, junto a zonas "industriais", ótimos para famílias mas também camionistas de passagem. E foi uma boa escolha porque a comida não era nada cara e era bem servida, mesmo se tivermos em conta a diminuição de exigência que acarreta um fatigante dia de viagem.

De alma e corpo reconfortados, voltei para a Pousada de Juventude, desta feita acertando com o melhor caminho logo à primeira. Ao enorme sossego da vila, fiz eu corresponder um pesado sono...


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