sexta-feira, 2 de março de 2012

2500 km por Portugal - parte 10 (2011/10/03)

As "Portas do Almourão"
Saí de Vila Velha de Ródão apontado a duas aldeias "de xisto": Foz do Cobrão e Figueira. Antes de lá chegar (e por indicação no posto de turismo de VVR), iria passar nas "Portas do Almourão", uma formação do tipo da que é o ex-libris da vila junto ao Tejo.

O caminho que liga VVR às aldeias acima referidas é um misto de antigas estradas sinuosas e novas pistas que, em vários troços, ainda se encontravam em obras. Com o GPS e senso comum, lá consegui seguir a rota certa, não sem, por várias vezes, ter de voltar atrás e experimentar alternativas.

No fim de uma subida, uma zona mais larga e um letreiro anunciam a chegada às Portas do Almourão ou, mais propriamente, ao seu miradouro. Estas portas são uma formação do mesmo tipo das Portas do Ródão mas bastante mais modesta, no fundo, à medida de um afluente... Mas, se o "estreito" por onde o rio passa é mais pequeno e não tem aquela monumentalidade de bilhete postal que encontramos em VVR, a verdade é que os montes à volta compensam-nos - e bem! -, pela diferença. O miradouro está no cimo daquilo tudo e "espalha-se" por uma área considerável, permitindo-nos vários níveis de observação, ao mesmo tempo que podemos andar a "saltitar" pelas rochas para satisfazer a nossa curiosidade pela paisagem. É um local agradável mas que também nos confronta com uma paisagem agreste q.b., feita de rocha que impõe respeito.

As "portas" estão lá bem em baixo, onde é possível ir através de caminhos mais ou menos de cabras mas que me pareceram - ao longe -, apenas necessitar de algum cuidado e paciência (para além de boas pernas). Uma vez no fundo, estou certo de que o visitante será "esmagado" pela envolvente. É coisa a fazer para quem tenha tempo...

Ora, tempo era coisa que eu não tinha em grande quantidade. Andar a passear - seja por onde for -, tem este paradoxo: todo o tempo do mundo acaba por se traduzir em andar a correr para ver o máximo de coisas que for possível. No fundo, tipos como eu, a menos que estejam numas termas (coisa que ainda hei de experimentar), andam sempre a correr.

Foz do Cobrão
Tiradas as fotos da praxe, morta alguma sede e descansado o corpo durante alguns minutos, arranquei em direção à aldeia que tem o traiçoeiro nome de "Foz do Cobrão".

Para chegar à dita Foz, após subir, é preciso começar a descer. Alcança-se a entrada da aldeia e entra-se numa rua, deixando o carro deslizar até chegar a uma zona onde o casario começa a parecer mais interessante (entenda-se, "rústico"). Deixei o carro numa espécie de largo e preparei-me para dar uma volta pela terra.

Logo às primeiras passadas simpatizei com o local. Há uma mistura de casas "brancas" com outras feitas de xisto e, descendo até à ribeira, o cenário melhora. Quando chegamos à pequena ponte, estamos perante um ambiente bucólico, com casario de pedra, muita vegetação e aquele ar tranquilo que só os "fins do mundo" têm. Meti-me por caminhos que tanto podiam ser públicos como pertencer às traseiras das casas e fui admirando o ar antigo daquilo. Coisas abandonadas - como não podia deixar de ser -, conviviam com outras bem cuidadas. A certa altura, um caminho que eu seguia acabou num portão fechado. Aparentemente, o trajeto público acabava no quintal de alguém...

Com a noção de já ter visto o que interessava (que sendo pouco, era bonito), meti-me no carro. Resolvi experimentar uma estrada que saía por baixo (a vantagem do GPS é esta: podemos meter-nos por qualquer lado que havemos sempre de voltar a "casa" no fim do dia). Quando me aproximei de uma ponte "moderna", apercebi-me de que estava a chegar a um local muito bonito. Arrumei o carro num espaço junto à estrada e saí.

O que eu tinha à frente era um vale por onde passava um rio (o Cobrão, já se vê), devidamente "domado" pelo homem e que era de uma beleza que, infelizmente, as fotografias que tirei não conseguiram capturar. E não é só a beleza que escapa às fotos: é, também, o sossego, a sensação de tempo parado, o cheiro do campo...

Senti que a ponte que ali estava traía a paisagem mas aproveitei-a como base para observar a zona. A uma certa distância, um pastor de alguma idade, descansava sentado numa pedra enquanto as suas ovelhas pastavam nos terrenos semialagados. Carros, não passavam. Pessoas, não se viam (para além do dito pastor). Tudo aquilo murmurava "paz".

Foz do Cobrão
Voltei atrás, até onde tinha deixado o carro, e tomei um caminho descendente. No fim dos poucos metros, estava um conjunto de três ou quatro casas/palheiros de pedra semiabandonados. Tratava-se de uma velha quinta ou xácara ou sítio ou seja lá qual for o nome que se dá a um pouco de terreno para a prática agrícola.   Andei por ali, observando as casas e sentindo a terra.

Por esta zona há uma rota que se pode fazer e que, tal como outras da rede das Aldeias de Xisto, pretende fazer o viajante "mergulhar" na paisagem natural e, também, na feita pelo homem. Não tenho qualquer dúvida de que vale a pena palmilhar os diversos quilómetros do caminho definido pelas autoridades que tutelam a conservação destes espaços. Infelizmente, eu apenas estava de curta passagem.

Abandonei aquela paisagem abençoada com a pressa que tem quem sabe que a noite vem aí e ainda há muito que andar. Por esta altura já tinha posto de parte a ideia de ir a Figueira e apenas pensava em ir para Idanha-a-Nova aproveitando o máximo de luz que fosse possível. Viajar à noite não tem grande graça e muito menos quando andamos por montes. Valia mais "perder" uma aldeia e "ganhar" a paisagem do caminho...

Com a segurança do GPS, lá andei "perdido" pelos montes, dando uma volta grande até conseguir chegar novamente a Vilha Velha de Ródão. Uma vez aqui, foi aproveitar as boas estradas que se foram construindo pelo interior para tentar chegar o mais cedo à Pousada de Juventude de Idanha.

Cheguei a Idanha-a-Nova quando a noite já estava bem instalada. Por não ter percebido bem uma indicação (ou ela não ser das melhores) andei às voltas pela vila até conseguir alcançar a pousada. Esta, fica na zona mais antiga, num casarão recuperado em jeito moderno. À chegada, fui recebido por um funcionário de ar um pouco soturno. Cumpridas as formalidades (e explicada ao rapaz a diferença entre "ter uma reserva" e "fazer uma reserva" ali mesmo), tive, novamente, a grata surpresa de ter um grande quarto só para mim. Guardadas as coisas, a minha preocupação era só uma: COMER!

Das várias "sugestões" dadas pelo funcionário da pousada (a quem eu, mentalmente, apelidava de "o bruxo"), acabei por escolher o restaurante "O moinho", um daqueles locais que ficam nos arredores, junto a zonas "industriais", ótimos para famílias mas também camionistas de passagem. E foi uma boa escolha porque a comida não era nada cara e era bem servida, mesmo se tivermos em conta a diminuição de exigência que acarreta um fatigante dia de viagem.

De alma e corpo reconfortados, voltei para a Pousada de Juventude, desta feita acertando com o melhor caminho logo à primeira. Ao enorme sossego da vila, fiz eu corresponder um pesado sono...


VER FOTOGRAFIAS: Portas do Almourão / Foz do Cobrão

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