domingo, 4 de março de 2012

2500 km por Portugal - parte 11 (2011/10/04)

Idanha-a-Nova
Na noite anterior, enquanto procurava a Pousada de Juventude, deu para perceber que Idanha-a-Nova tinha "coisas para ver", com vários casarões antigos a merecerem especial atenção. Mas, o dia que nascia tinha marcado como título "Ida a Monsanto e Idanha-a-Velha". Trocava, assim, a atual localidade pela sua vetusta homónima, certamente mais importante na minha de lista de "sítios onde ir".

Idanha-a-Nova fica num alto e, se isso não é percetível para quem chega vindo de Castelo Branco, mal apanhamos a estrada que segue para Oeste, imediatamente começamos a descer bastante. Quando a inclinação acaba, Idanha surge-nos em toda a sua graça, que é aquela que já conhecemos de todo o mundo onde haja casario encavalitado em rochas ou espraiando-se por montes abaixo. Cá em baixo, passa-se um ribeiro e damos logo com uma antiga capela isolada numa "ilha" entre duas estradas que a circundam. Templo de pedra, com um alpendre, merecia melhor enquadramento do que aquele que lhe deram mas, verdade seja dita, não havia muito mais espaço onde se pudesse fazer passar os carros.

Pouco depois, tomei uma estrada cuja indicação era de ir dar à Barragem Marechal Carmona. Confortado pela presença do GPS, sabia que chegaria à velha Idanha, independentemente das voltas que desse. Estas - as voltas -, foram boas. A paisagem é bonita, com um misto de rocha e campos com olivais. Casas... poucas. O caminho faz-se com uma sensação de tranquilidade e leveza (nunca perdendo de atenção as curvas...).

Idanha-a-Velha

A certa altura, ao virar à esquerda, avisto, por entre as copas de algumas árvores, alguns dos monumentos de Idanha (para me facilitar a vida, omitirei doravante "a-Velha"). Fiquei surpreendido porque imaginava a aldeia ("histórica") deuma forma diferente. Pensava que era um grande conjunto de casario "agarrado" a uma encosta mas, afinal, não é nada disso: é um local pequenino, perfeitamente delimitado por uma baixa muralha e que fica no meio de uma zona "plana". Não fiquei desiludido porque o "postal" é bastante engraçado e fui gozando-o enquanto deixava o carro rolar languidamente.

A antiga entrada de Idanha-a-Velha
À chegada a Idanha, deixei o carro no parque de estacionamento preparado para os visitantes e que fica junto à praça de touros (redondel, seria um melhor termo). Alminhas não se viam, com exceção de duas mulheres que pareciam andar a tratar da limpeza do que, calculo, seja uma espécie de centro social ali construído e cuja traça desrespeita completamente a natureza pedregosa da aldeia. Parece que os arquitetos insistem em não querer imitar a "alma" dos locais, ocupados que estão em imitarem a monótona corrente estética do minimalismo pintado a branco...

A entrada das muralhas da aldeia está logo ali: dois torreões baixos, redondos, com uma passagem em arco e que vai dar a uma... parede. Para entrar na aldeia, usa-se a rua que fica do lado direito da antiga entrada. Ao fundo, um portão de ferro marca a entrada para os jardins de um grande casarão abandonado e cujo tamanho é absolutamente desproporcionado em relação à aldeia. Passando o braço através das grades consegui tirar uma fotografia ao espaço. Na volta da mão vinha a imagem de um local opulento, com arcadas e uma grande escadaria mas claramente entregue ao mato. O alarme de "património desperdiçado" soou estridentemente na minha cabeça e parti dali em direção a centro da aldeia com a curiosidade por este local sobrepondo-se à sentida pelos vestígios arqueológicos que constituem  o núcleo patrimonial de Idanha. Mais tarde, saberia pela voz de um local que o casarão era o solar (ou palácio) da Família Marrocos e que iria ser recuperado pela rede das Pousadas de Portugal. O meu espírito dividiu-se entre a alegria por imaginar travada a decadência do local e o receio pelo que pudesse ser feito na recuperação do edifício. Nem sempre estas "salvações" são feitas da melhor maneira. Enfim, do mal, o menos...

A velha basílica e a sua envolvente 
Junto ao "estranho" "Palácio Marrocos" (o edifício, não deixa de ser uma aberração ali), começa o casario de pedra. Contornando aquele, chega-se às traseiras da famosíssima basílica paleocristã ou visigótica (como também é conhecida). E é aqui que Idanha nos diz "viva!". Toda a zona é um mar de vestígios arqueológicos: largas dezenas de lápides, pedaços de colunas, pedras inscritas, mós, etc., alinham-se em parada junto à igreja e subindo por uma rua que dá a volta aos terrenos do solar (no fim, a via está fechada pelo que há sempre que voltar a trás). E, porque o visitante é exigente e quer mais, ainda há restos de casario, sarcófagos e uma passagem mais ou menos escondida sob a muralha. Para ter uma boa ideia de tudo aquilo, é melhor subir a baixo muro (e aproveitar para ir descobrindo nele os vestígios romanos embutidos). Em cada ponta da igreja (no exterior) ficam elementos protegidos e que são de grande interesse. Infelizmente, a degradação das proteções - associada ao reflexo do sol -, torna difícil apreciar os vestígios, obrigando-nos a alguma "ginástica".

Como a basílica ainda não estava aberta, resolvi seguir o caminho que saía da aldeia. Por ali se vai dar a um local curioso (poucos metros à frente) e que é a passagem de uma ribeira (naquela altura, seca) onde uma sucessão de pequenos pilares serve de passagem às gentes quando a água inunda o leito daquela. Não havendo ali mais nada para ver, reentrei na aldeia. No adro que há junto à igreja (e que é de arranjo moderno), dois populares varriam o chão calmamente. Isto fez-me reparar, daí para a frente, na limpeza que se verifica por toda a aldeia.

Como, finalmente, a basílica estava aberta (o cumprimento dos horários dos locais turísticos - e seus postos de informação -, foi uma das falhas que verifiquei em toda a minha viagem pelas Beiras), entrei no espaço relativamente ao qual tinha grandes expetativas. Estas, de um modo geral foram goradas. Tudo aquilo é um vazio apenas rompido por duas linhas de colunas suportando o teto e não se veem elementos como os que se esperaria ter num templo tão antigo. O chão foi modernizado com madeira envernizada (apenas "rasgada" aqui e ali por traços de piso antigo), e isto confere ao local um conforto inesperado, certamente agradável para as pessoas que vão sentar-se nas modernas cadeiras empilhadas a um canto mas em tudo contraditório com a "aspereza" do edifício. Como salvação da visita, há umas pinturas (esbatidas, é certo), numa capela lateral.

O museu lapidário
Havendo, defronte da basílica, um edifício cujo "jardim" estava aberto, fui entrando a passo pequeno. Ao reparar na existência de um quiosque multimédia apercebi-me de que era um espaço público. O quiosque era semelhante a um que eu tinha visto em Castelo Branco (e que estava avariado). Este, para não se fazer estranho, também estava, tendo apenas a registar-se a diferença de estar ligado e com imagem. Tremia era descontroladamente... Uma espécie de contentor muito comprido rasgava o espaço do jardim, junto ao tremelicoso quiosque. Apercebi-me de que havia  lápides romanas expostas e fui vê-las. Em cada extremidade do "contentor", há uma porta. Estando uma delas ligeiramente aberta, avancei, ainda com medo de que alguém me aparecesse dizendo "Onde julga que vai?!". É que não se via ninguém por ali e nada convidada o visitante a entrar.

O "contentor" onde entrei era, afinal, o novo espaço do museu lapidário de Idanha-a-Velha, guardando o espólio que estava numa antiquíssima construção românica (?) logo à entrada da zona da aldeia. Ao longo das paredes sucedem-se inscrições romanas, cuidadosamente dispostas e acompanhadas de alguns pontos multimédia com ótima informação sobre aquilo que se está a ver. Como grande graça, saliento o facto de haver vídeos com supostos romanos "lendo" as placas em Latim. Não é todos os dias que podemos ter este tipo de "mergulho" no passado, convenhamos.

O lagar
À saída do museu, aproveitei para ir a um canto do jardim espreitar os vestígios de uma casa romana, "escondidos" debaixo da "plataforma" onde assenta aquele espaço. De novo cá em cima, encaminhei-me para uma porta aberta a um canto e que é a entrada para o edifício que domina o espaço. Trata-se de um antigo (e grande!) lagar, recuperado de uma maneira magnífica, com todos os elementos para que possamos perceber como era feito o azeite por ali. É um espaço tão bem arranjado e confortável que duvido que alguém lá entre e não pense "como eu gostaria de viver aqui...". Aqui é onde fica o "posto de turismo" de Idanha. Fui bem atendido pelo rapaz que lá estava e pude obter informação respeitante a outros locais do concelho que me poderiam interessar. Este foi um pormenor que me agradou nos postos de turismo da zona: em nenhum deles a informação se limitava à sua "paróquia" (por assim dizer).

(continua)

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