quarta-feira, 28 de março de 2012

A bruxa brasileira

Aeroporto de Barajas (Madrid, Espanha). Era já noite e eu esperava pelo voo que me traria a Lisboa, depois de três semanas passadas na Argentina. Na zona de espera junto ao portão de embarque espalhavam-se, pelas cadeiras ali existentes, pessoas de várias nacionalidades. 

Defronte de mim, um grupo de meia dúzia de brasileiros escutava atentamente o que lhes dizia uma mulher (também brasileira). Criatura avançada nos quarenta, de aspeto relativamente cuidado, mantinha-se em pé enquanto, em jeito quase professoral, ia respondendo a diversas perguntas que os seus compatriotas lhe iam fazendo. Topei tratar-se de um grupo de pessoas que emigrava para Portugal (trabalhadores sazonais, talvez), e que, ao encontrar alguém "conhecedor" do país, matavam a natural curiosidade relativamente à realidade que iam encontrar no seu destino.

Por ter estado com atenção à conversa de um homem de negócios que ali perto falava ao telefone numa língua que eu nunca tinha ouvido (e que talvez fosse Catalão), apenas tomei atenção à "prédica" quando ela já ia a meio. Graças a deus, digo eu!

Perante o olhar cada vez mais desconsolado dos meus futuros companheiros de voo, a mulher debitava todo um conjunto de críticas a Portugal, que iam do clima à culinária, passando pela educação das pessoas. Aparentemente, nada nesta terra era merecedor de qualquer apreciação positiva.

Contendo os nervos, fui acumulando o que a mulher ia dizendo: vivia em Portugal há vários anos, era casada com um português, tinha um filho nascido cá, trabalhava num restaurante na margem sul (do Tejo) e queria, desesperadamente, ir para França onde - aí sim! -, os ordenados e as pessoas eram decentes. Para melhor explicar aos seus compatriotas o quão mau era este país, resolveu concentrar os seus esforços na descrição dos nossos maiores defeitos culinários: fazíamos o arroz húmido (ela dizia-se cozinheira e "sofria" por ter de o fazer assim) e púnhamos azeite em tudo. O próprio filho dela, nascido em Portugal, gostava do bom óleo e isso só podia ser sinal de que era uma coisa genética! (culpa do pai "tuga", entenda-se). Não era de admirar, portanto, que os restaurantes brasileiros estivessem sempre cheios - as pessoas fugiam da má comida lusitana para se irem refugiar no prazer dos sabores brasileiros. Um dos presentes, de boca já aberta antecipando um futuro negro, perguntou-lhe se não era possível comprar produtos brasileiros em Lisboa... Possível é - disse ela -, mas há pouca coisa e só em lojas especializadas. O rapaz fechou a boca, engoliu em seco e, num tom absolutamente lamurioso olhou-a nos olhos e disse: "É tudo tão diferente, não é?...". Os outros acompanharam-no no ar triste.

Para que a coisa não ficasse por ali, a mulher apontava agora as baterias ao clima: chuva, chuva o tempo todo e frio! Um frio de rachar que, provavelmente, estava na origem da má educação das pessoas - que nunca pediam nada por favor! A coisa começava a ser demais e eu já me sentia a chegar ao ponto de caramelo em que só me restava confrontar aquele ser com todos os disparates que dizia. Não a bem da Pátria mas da minha própria sanidade! Quando a minha língua já começava a fazer os exercícios de aquecimento para o combate, a instalação sonora avisou do começo do embarque para Lisboa. Aproveitei a deixa e pirei-me dali, rumo à paz de um lugar no avião. Uma vez lá dentro, vi passarem os infelizes brasileiros que, àquela altura, deviam estar lamentando não terem antes ido para o Burkina Faso. Um pouco depois, em passo lento e cara enjoada de quem examinava o avião e nele encontrava mil e um defeitos (azar: o avião era espanhol), passou a odiosa criatura cujo pescoço as minhas mãos cobiçavam.

Felizmente, não voltei a ouvi-la (nem vê-la!). Espero sinceramente que ela tenha ido para França. Agrada-me pensar que semelhante personagem já não habite por cá e, ao mesmo tempo, imaginá-la enfiada numa cozinha, tendo de lidar com a imensidão de "lusitanos" que vivem em terras gaulesas e a fazer para eles arroz "húmido" encharcado em azeite...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Textos relacionados