domingo, 18 de março de 2012

Carne, carninha, carnucha!

É bonito de ver, não é?
Uma das imagens de marca do triângulo formado pelo Brasil, o Uruguai e a Argentina é a carne (o bife, mesmo!). Sobretudo no que diz respeito aos dois últimos países, é quase impossível preparar uma viagem sem dar de caras com fotografias de belos escalopes entregues às infernais chamas que os tornarão no nosso céu... (pausa para limpar a saliva). Em nenhuma outra parte do mundo - dizem eles -, a carne é tão saborosa, tão macia, tão suculenta, tão capaz de nos fazer chorar por mais...

Quem já tenha tido a sorte de provar umas boas postas mirandesa ou barrosã, temperadas com azeite e alho e acompanhadas de maravilhosas batatas a murro ficará pensando, perante a publicidade turística argentina e uruguaia, que, ou eles são uns fanfarrões de primeira ou não sabem bem do que falam. Há que lhes dar desconto e ser condescendente, em qualquer dos casos.

Quando fui passear pelos países referidos, naturalmente, levava comigo a expetativa de me entregar a insanas comezainas regadas a boa cerveja sulamericana (eu gosto do "sumo de cevada" mais leve). E, ouro sobre azul, todos os relatos de viagem garantiam que a coisa podia ser feita ao preço da chuva. Logo no primeiro dia em Buenos Aires, procurei um restaurante que me parecesse agradável para a minha iniciação na especialidade local: churrasco (de carnes bem vermelhas). Como a fome me aguçava a visão (e o letreiro era bem grande), topei um restaurante que anunciava, do outro lado da larguíssima Av. Corrientes, ter o melhor churrasco da cidade. Como a fome também me aumentava a ingenuidade, eu acreditei.

O restaurante era perfeitamente informal, frequentado por todo o tipo de pessoas e, verdade seja dita, não posso dizer que alguma coisa tenha corrido mal. Comi um bife ("chorizo" chamam eles ali àquela carne - não confundir com o nosso "chouriço") de tamanho médio, acompanhado de batatas fritas e ajudado por uma cerveja Quilmes (o difícil, na Argentina, é conseguir que nos sirvam outra marca). Mas, não só o "melhor churrasco" não conseguiu passar da mediania como, para cúmulo, a refeição também não me saiu - ao contrário do que eu julgaria -, ao preço da uva mijona. Fiquei desiludido mas não derrotado.

A segunda tentativa foi no típico bairro de Boca (o local do Boca Juniors, o clube do danado Maradona). Após passear, comprar recordações e ver atentamente as artistas de rua mostrando o pernil enquanto dançavam o Tango, foi a vez da tanga, i.e., de atacar mais um "chorizo" num restaurante da zona. Nova desilusão... Ao ir-me embora, passei por uma tasca mesmo juntinho ao estádio (cujas portas dão para uma rua comum) onde um papel afixado anunciava "matambre a la portuguesa". Fiquei sem saber o que seria mas com a nítida sensação de que devia ser bom. Ah, o patriotismo!

O "Mercado del Puerto", em Montevideu
A tentativa seguinte de provar "a melhor carne do mundo" foi feita em Montevideu. Acabadinho de sair do barco que liga as duas capitais do Rio da Prata, dirigi-me logo ao "Mercado del Puerto", espaço que fica a poucos metros do terminal portuário e que, assegurava-me o guia que eu trazia, era o local de diversos restaurantes que serviam carnucha "de trás da orelha" (porque razão esta expressão caiu em desuso?). O (antigo) mercado cativou-me mal nele entrei. Todo o espaço interior estava ocupado por restaurantes que freneticamente grelhavam este mundo e o outro. Havia, inclusivamente, quiosques pelo meio, rodeados de grelhas apinhadas de bifes, salsichas e enchidos vários esperando serem enviados para uma mesa. O ar estava carregado de fumo e o cheiro a churrasco era omnipresente. Seria o paraíso? Havia que experimentar... 

Sentei-me num restaurante que ficava a um canto, para estar mais sossegado e porque também não havia muitos outros lugares disponíveis. Como não tinham ementa em Português (só cá em Portugal é que se trata os turistas como uns "lordes") tive de fazer o meu melhor para decifrar os nomes das coisas (a comida é das áreas onde as diferenças se fazem notar mais entre as línguas românicas). Acabei por mandar vir uma coisa da família dos enchidos mas sem que eu estivesse bem certo do que seria. Para beber: uma cerveja, claro. A empregada sorriu em resposta à minha "exigência" de que fosse uruguaia e trouxe-me a fatal "garrafinha" de litro - medida base para toda aquela gente. Quando o prato chegou, verifiquei que tinha pedido uma espécie de longa e fina salsicha, enrolada em espiral. Como também ali a comida não era tão barata quanto se dizia (e eu também não queria abusar nas despesas), fiquei-me por este único pitéu. Veredito: ainda não era desta que eu tinha sido contemplado com as maravilhas da carne sulamericana.

Em Colónia (a "do Sacramento"), após visitar a zona histórica, entrei num restaurante e mandei vir aquilo que me pareceu ser o correspondente local a um bitoque. Estava cansado de passear, estava com fome e estava a ficar com birra em provar uma carne cujo sabor fosse alguma coisa de especial. Terceiro falhanço. 

De volta a Buenos Aires, passo por uma inscrição na parede que dizia: "A carne para os Argentinos". Fiquei a meditar: quereria aquilo dizer que havia fome no país ou que eles mandavam a melhor carne para o estrangeiro? Para conforto da minha alma, escolhi o segundo significado.

Dadas duas oportunidades ao Uruguai e uma à Argentina, era a vez de o Brasil entrar na dança. Após visitar o lado "zuca" das cataratas do Iguaçu, fui comer ao restaurante do complexo hoteleiro do parque. Tratava-se de um buffet, com uma comprida mesa cheia de pratos para nossa escolha. Resolvi pedir a ajuda do cozinheiro de guarda ao "banquete". O seu conselho: picanha. Respondi-lhe que isso tinha eu em Lisboa e, talvez por influência das desilusões anteriores, ataquei qualquer coisa feita com carne de frango. Fui cobarde ao não "arriscar", bem o sei e a verdade é que, no dia seguinte, em Puerto Iguazu, os reais que eu ainda tinha no bolso não paravam de me dizer para atravessar a fronteira e ir gastá-los em Foz do Iguaçu a provar a versão local da picanha. Só a preguiça me impediu de o fazer. Ficou o benefício da dúvida para a nossa família americana, portanto.

Novamente na Argentina, chegou um momento em que o Paraguai estava "logo ali", do outro lado do rio (certo, em Iguaçu também estava...) Atravessada a fronteira (é nestas alturas que damos verdadeiro valor ao Espaço Schengen), dei por mim sentado a almoçar num pacato estabelecimento na cidade de Encarnación. Bife e cerveja, mais uma vez. A cerveja paraguaia era agradável (no fundo, todas o são, para aquelas zonas) mas a carne, como eu já acreditava que não podia deixar de ser, era do mais banal. O Paraguai não se tinha juntado com glória à minha procura pelo bife perfeito...

Em Salta (Argentina), fui a uma churrasqueira popularucha, coisa para servir o pessoal comum. Acreditei que uma certa mudança de estrato social talvez pudesse ser benéfica. Bife, batatas fritas e cerveja - como de costume -, e, também aí, a sensação de que tudo tinha sido fastidiosamente normal. Em honra de Salta, safou-se - no domínio da carne -, uma salsicha no pão, comprada numa banca de rua que tinha todos os alimentos ao ar livre e sem qualquer proteção (coisa capaz de provocar um ataque de coração a um inspetor da ASAE).

Eu já estava desconsolado e certo de que a história da "melhor carne do mundo" não passava disso mesmo, de uma história para turista ouvir. Deixei de ter remorsos em recorrer aos MacDonald's e coisas do mesmo tipo e passei a poupar os pesos no meu cada vez mais leve bolso.

Mas, no fundo, eu ainda tinha a esperança de me banquetear com carne da boa. Dizia o guia da Lonely Planet que, numa certa rua no centro de Buenos Aires, havia uma tasquinha que servia quantidades pantagruélicas de carne a um preço indecentemente baixo. De livro na mão percorri a rua onde o restaurante ficaria. Para cima, para baixo, dando a volta ao quarteirão... andei, andei e cheguei à conclusão de que, onde o maravilhoso estabelecimento ficaria, estava, agora, uma comum casa de hamburgueres. Oh, porra!!!

Na última refeição na Argentina, mesmo antes de apanhar o transporte para o aeroporto, fui a um restaurante junto à principal estação ferroviária, o tipo de sítio completamente à vontade onde vai o povo comum almoçar no dia a dia. Olhei para a ementa e vi, novamente, a referência ao "matambre a la portuguesa". Disse para comigo mesmo que macacos me mordessem se o que quer que fosse aquela carne "à portuguesa" não havia de ser a melhor que eu havia de provar. Chamei o empregado e pedi. "Já não temos...", respondeu ele. Mandei vir salsichas... 

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