domingo, 11 de março de 2012

Lisboa sempre esteve aqui

Lisboa, como todas as grandes cidades, é um íman que atrai gente de todo o lado, vinda na senda de uma vida melhor. Das aldeias, das vilas e, até, das cidades menores, ao longo dos séculos multidões fizeram as malas (ou o que a elas mais se assemelhava) e rumaram à "Grande Alface" e seus arredores. O resultado fui, muitas vezes, a criação de tristes zonas dormitório e bairros degradados mas, também, a importação para a capital de corações que trataram de bombear sangue novo nas nossas urbanas artérias, contribuindo para o fortalecimento da cidade e nunca entrando em conflito com a cultura local já existente.

Mas, por mais gente que "aterre" em Lisboa, não nos podemos esquecer de que esta bela cidade é mais velha do que qualquer migração, mais antiga do que qualquer nacionalidade, mais forte do que qualquer invasão. Quando não havia Transmontanos assim chamados, já gente aqui construia casas; quando não sabia o mundo o que seriam os Brasileiros, já homens contemplavam o (ainda mais belo) estuário do Tejo e o mar que lá ao fundo tomava o horizonte; quando Algarvios, Alentejanos e Madeirenses não eram, sequer, um sonho de futuro, já crianças vinham aprender dos mais velhos o que eles tinham a ensinar. Má poesia à parte, Lisboa (ou o que lhe chamassem em cada época), está aqui desde sempre. E onde há uma terra, há gente que nela nasce. Os Lisboetas sempre existiram.

Porque me lembro disto? Porque, num belo verão feito de vários passeios, convidou-me um amigo para ir passar uns dias ao Porto, com uma paragem prévia em Melgaço (Minho). Foi a primeira vez que parei e andei no Norte mais nortenho, com a Galiza já ali à vista. Tudo me parecia diferente, fosse no aspeto das casas de pedra, fosse na descoberta do gosto da cidra. E se aquilo me era estranho (mas não estrangeiro), aparentemente, também eu o podia ser, ainda que involuntariamente. O meu amigo tinha amigos na zona, sobretudo antigos colegas de faculdade e gente conhecida em visitas anteriores à área. Naturalmente, a cordialidade levava a que as pessoas mostrassem interesse em mim, traduzido, quanto mais não fosse, na curiosidade pela minha proveniência. Ora, se nisso não havia rigorosamente nada de mais, o engraçado é que, mais do que uma vez, à minha resposta "Sou de Lisboa.", as pessoas contrapunham imediatamente um "Mesmo de Lisboa?". E quando eu lhes assegurava que sim, que era "mesmo de Lisboa", a sua curiosidade saltava logo para os meus pais "E os teus pais, também?". Sim, também eles de Lisboa, continuava eu. Seguia-se dos meus interlocutores um sorriso acompanhado de qualquer coisa do tipo "Que giro...". 

Quantos anos tem Lisboa? Dois mil? Mais, até... Séculos de "lisboetas" nascendo e sendo pais e avós de outros "lisboetas" e eis que, em 1996, compatriotas meus achavam "giro" que os meus pais também fossem desta terra. A coisa deixava-me a meio caminho entre o espanto e a diversão mas, verdade seja dita, que se Lisboa é terra-natal do meu "santo dos santos" familiar, basta dar um passo fora dele para se ouvir os nomes de Leiria, Nazaré ou Penhascoso. As duas primeiras mais distantes por força de ténues relações do lado paternal, a segunda mais próxima devido ao hábito da convivência com a família materna. Mas, mesmo "escavando" à procura das minhas raizes, não deixo de ter Lisboa sempre presente nas gerações mais chegadas. E isto, não me garantindo quatro costados lisbonenses, apesar de tudo permite-me por um ligeiro tom de espanto perante qualquer curiosidade relativa à naturalidade dos meus pais. "Sim, de Lisboa, também.". Porque ela sempre esteve aqui...

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