quarta-feira, 14 de março de 2012

Não faz mal, senhor...

Monumento em Câmara de Lobos:
a especialidade da casa?...
Câmara de Lobos, na ilha da Madeira, é uma terra que, não sendo uma maravilha, tem interesse suficiente para merecer um saltinho até lá (a partir do Funchal, entenda-se). Há uma pequena praia com barcos de pescadores, há um núcleo antigo - hoje ocupado com bares -, que é castiço, e há um alto com uma igrejinha e umas construções modernas do tipo daquelas que admiramos nas revistas de arquitetura. Acredito que, à noite, tudo aquilo possa até ser verdadeiramente romântico.

Mas, segundo rezam as crónicas da Justiça, a vila também era (é?) conhecida por ser um dos pontos madeirenses do roteiro da pedofilia. Na altura em que o famoso Padre Frederico foi preso (e, depois, escapou para o "paraíso" brasileiro), muito se falou nesta localidade atlântica. E, quando eu lá fui, não me deixei de lembrar das histórias que tinha lido.

Ora, estava eu calmamente na praia, por entre os barcos ali "estacionados", tirando umas fotografias ao mar quando, ao baixar a máquina fotográfica, me apercebi da presença de um miúdo ao meu lado, estendendo-me uma flor. Já não me lembro do que lhe rosnei mas a resposta foi um "Não faz mal, senhor...". Naquele momento, senti uma sensação de repulsa, como se me tivessem arrastado para uma asquerosa história da qual queria desaparecer o quanto antes. O miúdo e o seu comentário pretensamente tranquilizador, a ideia do que aquilo podia envolver (ou talvez não), a sensação de que alguém nos podia estar a ver e a pensar que eu era mais um turista "dos especiais"... numa fração de segundo todo o prazer que me estava a dar aquele passeio desapareceu, engolido pela pegajosa presença da criança. Esta ainda insistiu com um "Uma moedinha, senhor", dita com uma fortíssima pronúncia madeirense, um olho semicerrado por causa do sol e, na cara, aquele ar de puto de rua que se tenta desenrascar. Acho que nem lhe respondi. Devo ter feito um gesto qualquer e abalado em direção às casas, quanto mais depressa lá chegasse melhor. O miúdo não insistiu e desapareceu tão discretamente como tinha aparecido.

Durante o resto do meu passeio por Câmara de Lobos agi como um estrábico: um olho no que queria ver e o outro à cata de mais alguma cena como a da praia. Felizmente, foi situação que não se repetiu...

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