terça-feira, 13 de março de 2012

O infeliz benfiquista

Corria o ano de 1996. Eu chegava ao Porto, juntamente com um amigo, vindos de Melgaço. A fome apertava porque já passava das nove da noite. O Porto não é Lisboa, e os anos noventa não eram os de agora. O resultado desta coisa óbvia: não havia muitos sítios onde entrar para matar a fome. Ainda assim, o meu amigo, recorrendo ao seu conhecimento da cidade (onde trabalhava), conseguiu fazer-nos aportar a um restaurante, com a promessa de que, uma vez à mesa, poderíamos saborear uma boa francesinha.

O estabelecimento tinha dois pisos, ou seja, tinha, para além da entrada, uma plataforma à qual se acedia por uma escadaria. A imagem que tenho do local é ténue mas ficou-me a impressão de ser uma coisa à anos sessenta. Numa parede, uma grande tela exibia um jogo de futebol. A partida - um Benfica x Flamengo -, diria mais ao meu amigo do que a mim - que, também nestas coisas do futebol, sou orgulhosamente "ateu" -, mas preferimos o recato de uma mesa junto à janela no andar superior à "emoção" do exótico jogo.

Ali onde nos sentávamos, apenas outra mesa estava ocupada, e por um homem só e de ar bastante apreensivo. Quando do piso inferior nos chegou um grito geral de satisfação, imediatamente acompanhado de um ar triste por parte do nosso "colega", percebemos que a coisa não estava a andar bem para a equipa da Luz. Daí a pouco, a cena repetiu-se: grande algazarra por baixo de nós e os olhos do pobre benfiquista ainda mais mergulhados no prato. Não bastava a sua equipa estar a perder, ainda por cima tinha de suportar a irritante felicidade dos portistas.

A certa altura, o empregado de mesa subiu as escadas  para vir tratar do serviço. Condoído, mostrou compreensão pela infelicidade do seu cliente: "Então, isto está mal..". Como resposta, apenas teve um leve encolher de ombros. Mais não era preciso para dizer que sim, que ele tinha razão e que a coisa estava mesmo muito má.

O meu amigo, esticando o pescoço para ver por cima das grades da plataforma, iniciou uma pergunta dirigida a mim: "Aquele não é o..." - "O Vando, é o Vando!" - respondeu entusiasmado o homem ao aperceber-se de que poderia ter ali alguém que partilhasse as suas cores. Eu, que estava de frente para ele, sorri-lhe, como que agradecendo a sua precisão. Sim, era o Vando. Mas, por mais dribles que este fizesse, não conseguia o duplo milagre de nos entusiasmar com a coisa ou de salvar o Benfica de sofrer mais golos.

Se bem me lembro, quatro vezes celebrou a turba portista. A nós, as francesinhas acompanhadas de batatas fritas e molho de cerveja souberam-nos tão bem como em qualquer altura mas, ao deslocado benfiquista, nem a mais doce sobremesa poderia ter tirado o amargo de boca...

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