sábado, 24 de março de 2012

O vegetariano surpresa

A ideia de um fim de semana em Madrid tinha sido minha. A cidade era bonita, os voos estavam baratos... porque não ir lá? Apresentada a "proposta", os outros dois concordaram. Organizei a coisa: marquei voos, marquei  estadia, fiz um apanhado das coisas que valia a pena ver e, trocando uma ou outra opinião, chegou-se a um consenso sobre o que seria o programa a cumprir na capital castelhana. 

A coisa estava a correr bem e a perspetiva de dar um passeio com duas pessoas com quem eu simpatizava e cujos interesses eram minimamente parecidos com os meus fazia-me ansiar pela hora da partida.

Uma vez em Madrid, deixadas as coisas num simpático albergue gerido por argentinos, saímos para dar a nossa primeira volta pela cidade. Já era noite e pos-se a natural questão de onde ir jantar. Nesse momento, um dos meus companheiros de viagem anunciou, em tom quase solene: "Sou vegetariano".

Nunca me tinha passado pela cabeça semelhante situação. O rapaz em questão, de quem eu tinha sido colega de aulas e trabalho, nunca tinha mencionado essa sua condição, nem tão pouco eu me tinha apercebido dela. Talvez fosse recente, portanto. De qualquer forma, a sua "denúncia" foi feita mesmo em cima da hora, levantando-nos um inesperado problema. Eu não tenho nada contra os vegetarianos (dá-me mais a impressão de que eles é que têm algo contra os outros) e até aprecio bastante a "sua" comida mas... quando ando a galgar quilómetros e preciso de recuperar energias, a última coisa que me ocorre é virar-me para alimentações - digamos... -, alternativas. Onde raio havíamos de ir comer, portanto?

Éramos estranhos em terra (quase) estranha e não sabíamos para onde nos virarmos. A dois apetecia encher o bandulho com carne e a outro, com qualquer coisa que não a metesse. O ambiente começou a tornar-se algo tenso, até porque eu não estava para abdicar de uma refeição "normal" para me ir meter num restaurante vegetariano (onde quer que ele existisse) quando, afinal de contas, nós, os omnívoros, é que estávamos em vantagem numérica. Era uma questão de princípio para mim. Isto para além de me sentir, de certa forma, traído pelo tardio anúncio do vegetarianismo do meu companheiro de viagem.

Acabámos por ir parar a um MacDonald's (ou Burger King) onde o vegetariano se contentou com uma miserável salada. Aquilo que eu esperava vir a ser um agradável jantar a três num restaurante típico do centro de Madrid acabou por se tornar numa triste refeição na cave de uma cadeia de comida rápida. E tudo porque uma preferência de regime alimentar foi ocultada no planeamento da viagem, como se não fosse nada de importante...

No dia seguinte, após mais uma boa caminhada, nova "confusão" por causa do local para almoçar. Acabámos por atracar num obscuro e frio pronto-a-comer de remota inspiração turca que tinha "rolls" (porque raio não se diz "rolos"?) vegetarianos. Que bom! Não almocei e limitei-me a fazer companhia às duas almas com quem estava. Achei triste demais aquela refeição só para se acomodar ao dogmatismo alimentar de um dos turistas. O ambiente deteriorou-se. Eu estava num registo "que se lixe, petisco noutro lado qualquer" mas o meu colega "carnívoro" achou que eu não partilhar daquela "magnífica" refeição era qualquer coisa que lhe havia de mexer com o mau feitio. A partir daí, o passeio a três ficou estragado e só voltámos a encontrar-nos todos sentados à mesa, numa noite, numa cervejaria onde, para gáudio do vegetariano, serviam uma coisa qualquer com legumes e ovos.

A questão alimentar acabou por arrastar outras diferenças de gostos e enquinar completamente o que podia ter sido um fim de semana muito agradável. Acabámos por nos separar algumas vezes - o vegetariano indo ver as "suas" coisas -, eu, tendo de "passear" o outro colega (a quem aquilo desagradava profundamente, crente que estava de que era a três que tudo devia ser feito) e, no fim de todas as contas feitas, três pessoas que se davam acabaram por deixar de se dar. É pena? Por causa de uns legumes, sim.

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