sexta-feira, 16 de março de 2012

A pronúncia do Norte

Eu gosto de pronúncias. E de regionalismos. Gosto de "saborear" as diferenças na sonoridade de uma mesma língua, de lhes sentir as cambiantes na entoação, as alterações nos significados, de ter de perguntar "o que é isso?" e de receber uma explicação quase sempre com o tom alegre de quem tem oportunidade de mostrar uma coisa que é orgulhosamente sua.

Gosto das diferenças e aceito-as, não necessariamente como uma riqueza (argumento que muitas vezes pretende justificar a degeneração do idioma como algo saudavelmente inevitável), mas como algo que é tão natural, tão intrinsecamente nosso que rejeitá-lo seria como amputar uma parte da nossa identidade.

Enternece-me que, na Beira-Baixa, se agradeça com um quase humilde "Bem haja" e que, no Porto, ao corrigirmos de "imperial" para "fino" o empregado nos sorria e diga "eu sei o que é". Enleva-me a doçura das pronúncias algarvias, trazendo nas palavras aquele ar de leve indignação, com as vogais nasaladas ao limite, quase justificando uma nova onda no til (tenho cá para mim que nada deve ser mais sensual do que ter uma algarvia a murmurar-nos coisas marotas ao ouvido). Alegra-me a pronúncia alentejana, ao mesmo tempo rude e delicada, cartaz primeiro de todos os pequenos e lentos prazeres que nos são reservados além Tejo. Acalma-me a espessura dos "L" de São Miguel e a forma como são "escavados" os "U" (na Beira-Baixa, também). E chateia-me a ausência de pronúncia ou, pior do que tudo, o esforço por a perder naqueles que crescem falando Português de forma diferente da correntemente "aceite". A identidade, a nossa cultura, não é uma roupa que se muda consoante a estação; é uma pele que nos cobre e com a qual nos mostramos aos outros, inteiros e próprios.

Dito isto, há que dizer que o gosto pelas pronúncias (que sinto, igualmente, no caso dos idiomas estrangeiros), não implica, forçosamente, uma apreciação prazenteira de todas as pronúncias. Algumas há que são capazes de me inspirar alguma repugnância, até.

É comum dizer-se que a "pronúncia do Porto" é feia. Também é hábito de muitos tomar o particular pelo todo e chamar "pronúncia do Norte" às características da fala notadas na Invicta. Pois eu digo que nem uma coisa, nem outra. Nem a forma como as pessoas se expressam no Porto é necessariamente feia, nem é comum a todo o Norte (tem alguma coisa a ver com a forma de falar em Trás-os-Montes?).

Desde logo, há que dizer que a pronúncia "lá de cima" não é um todo homogénio que nos permita dizer "é assim que os portuenses" (e os bracarenses e os vimaranenses...) falam. Os "v" pelos "b" ocorrem aqui e ali (e até há quem faça a "viagem" contrária, trocando os "b" pelos "v", como em  "isto é muito vom"!!!); os "ão" pelos "on" é conforme os dias (os "on" pelos "õ-e", então, nunca os ouvi); os "an" pelos "án" aparecem com frequência; os "i" pelos "ii" saltam-me ao caminho regularmente mas... aquilo que eu identifico imediatamente com "a pronúncia do Porto" é a cadência. Há um tom lamorioso na voz daquelas gentes, independentemente de possuirem, ou não, qualquer uma das características anteriormente referidas. Podem ser autênticos "lisboetas" na forma de falar mas a cadência... essa, denuncia-os logo. E se eu não gosto dos "on" e dos "án" (e coisas quejandas) e acho que, de uma forma geral, essas alterações dão um tom grosseiro à fala, a verdade é que a cadência me transmite uma sensação de calma, de ponderação naquilo que me dizem, quase como se quem se expressa naquele ritmo (a um mesmo tempo queixoso e levemente espantado), possua uma virtude inata que lhe é transmitida pela calma entoação e cuidado posto nas sílabas. Um "teso-uro" parece-me sempre mais valioso do que um "tesouro". E quando alguém afirma "Eu so-u", parece fazê-lo com mais determinação e consciência de si mesmo. O que ele é, é lá consigo mas eu acredito, desde logo.

Eu gostava de namorar com uma algarvia, de patuscar com um alentejano e de confidenciar com um micaelense mas, para professor, escolheria um portuense. Sem "áns", "ons" e "v" por "b". Apenas, com aquele tom ponderado que tanto me agrada.

Para finalizar esta minha dissertação sobre as pronúncias, e porque, num blog sobre viagens, há que ilustrar as coisas com casos de "estrada", aqui fica o caso mais grave de "nortite" na fala com o qual já deparei. Ocorreu em Guimarães, quando eu me passeava pelas suas belas ruas e um grupo de miúdos passou por mim escutando atentamente um deles, que comentava um filme que havia visto na noite anterior:

- Entõ-e, á mulher do bámpiiro estaba fazendo so-upa...
- E o bámpiiro?
- O bámpiiro num estaba lá...

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