sábado, 21 de abril de 2012

2500 km por Portugal - parte 13 (2011/10/04)

Monsanto, ao longe, lá pelo meio das pedras...
Monsanto

Vista Idanha-a-Velha, era tempo de abalar rumo à "aldeia mais portuguesa de Portugal" - o mais do que repetido título pelo qual Monsanto é conhecida e que foi ganho nos tempos da "velha senhora".

Sem o saber, eu já tinha avistado a localidade várias vezes, no caminho para Idanha (a velha...), quando admirava um escarpado monte que me surgia  ao longe, do lado direito da estrada mas, por não ter na ideia qualquer noção do enquadramento do sítio, não pude adivinhar que pelo meio daquelas rochas se escondia um dos meus destinos do dia. Este monte de que falo é um dos vários existentes na região e que são conhecidos por "montes-ilha" por surgirem do "nada" (estando rodeados de planície e não encostados a "colegas"). Na gíria científica - e em muita informação turística -, o termo usado é "inselberg" (ou seja, "monte-ilha" em... Alemão).

Quando já estava na reta que antecede o desvio para começar a subir o monte (em Monsanto só há dois sentidos: ascendente e descendente) lembrei-me de uma indicação relativa à existência de ruínas romanas por ali (estação arqueológica de São Lourenço). Infelizmente, a informação que levava era pouquíssima mas isso pouco me importava. Guinei para um caminho que entrava pelo campo e em pouco segundos dei por mim a desejar que não me aparecesse alguém à frente porque não havia espaço para manobras... Esta incursão saldou-se por um total fracasso porque não se via qualquer indicação que me pudesse levar aos vestígios romanos (que existem, de facto, mas estão num terreno particular) e fiquei logo à nora no primeiro desvio que me apareceu: para onde vou, agora? Acabei por virar em direção à estrada principal, mal o pude fazer.

Não tive oportunidade de remoer o desaire porque Monsanto estava logo ali e, poucos minutos volvidos, já o meu Opel Corsa B (intimamente conhecido como "o tanque" - por aguentar, com poucas queixas, os maus tratos a que eu o sujeito) galgava com algum custo a inclinada estrada que me levaria à famosa aldeia histórica. A meio da subida, uma primeira paragem, para ver uma pequena construção religiosa e dois enormes pedragulhos cujo espaço criado no ponto em que se encostam era usado, naquele momento, por uns turistas para fazerem um piquenique.

O baluarte / miradouro / estacionamento
Puxando pelo "bólido", cheguei ao fim de pouco tempo a uma curva onde se forma uma esplanada com larga vista. O baluarte, antigamente usado para a defesa da aldeia (estão lá ainda uns canhões) serve hoje de parque de estacionamento a quem ali se desloca. Talvez não seja o local mais indicado mas antes isso do que deixar o carro lá em baixo ou - muito pior -, entrar com ele pela terra adentro procurando onde o deixar. Aproveitei para fingir um almoço num café logo ali. Uma cerveja e uma sandes, comidos lá dentro (estava muito sol para ficar numas mesinhas do exterior), acompanhadas da observação de três mulheres de idade (não necessariamente "velhas") que se entretinham em cavaqueira à volta de umas revistas mundanas.

A partir da última trincadela na sanduíche começava o passeio. De Monsanto eu tinha a ideia de que era um aglomerado de casinhas rústicas, terra fechada e, até, triste, muito isto por influência de ter visto, em pequeno, a série "Retalhos da vida de um médico", com o ator que fazia de Fernando Namora saltando de casa em casa ao som da bonita música cantada pelo Carlos do Carmo. Neste dia não nevava, o céu estava  claríssimo e o sol até queimava quem não tivesse cuidado. E Monsanto parecia ser bastante mais do que um molho de casas de pedra...

O primeiro monumento que vi foi a Igreja de São Salvador (matriz), situada pouco acima do baluarte-estacionamento. Fechada estava e, portanto, apenas pude apreciar o exterior austeríssimo. Meti-me por uma rua à direita, em direção à torre do relógio. O casaria era de pedra à vista, cumprindo as minhas expetativas relativamente à traça da aldeia, embora algumas casas brancas se intrometessem no conjunto, deixando-me sem conseguir chegar a uma conclusão relativamente ao valor do "exotismo".

A presença de automóveis nas ruas da aldeia foi coisa que notei imediatamente, para meu desgosto. Compreendo que as pessoas queiram ter os seus carros, que "precisem" de os ter parados a uma distância aceitável mas, enquanto turista, não consigo deixar de ir a estas velhas aldeias e imaginar o quão mais belas elas seriam se as infernais máquinas desaparecessem do seu interior e as ruas surgissem em toda a pureza da sua nudez de pedra feita. Carros e tradição, para mim, são coisas que não rimam. Tem a ver com  "cenário"...

Lá em cima, a torre do relógio e o famoso galo
Junto à torre do relógio há uma capela. Quando me preparava para entrar, reparei que estava lá um velório. Não havia nada a fazer ali, portanto, e subi o pouco que faltava para chegar à torre, ótimo miradouro sobre a região.

Comecei este texto por referir o incontornável título pelo qual Monsanto é conhecida. Ora, é no topo da torre do relógio que está o prémio do concurso dos anos 30: um catavento em forma de galo (o que se vê é uma réplica). Ali, orgulhoso, dominando a paisagem, o galo anuncia às redondezas que não há o que enganar e que Monsanto é... Bom, já sabem, não é?

Passeei-me pelas ruelas à volta. De um modo geral, o aspeto das coisas é cuidado, notando-se diversas recuperações de casas. Como em todo o lado, Monsanto também não está imune ao abandono e à saloíce, havendo mesmo casos de coisas que precisavam de desaparecer mas, só mesmo um espírito azedo poderá levar a que alguém não aprecie o ambiente. Verdade seja dita que, se alguma coisa me surpreendeu, foi o facto de a aldeia estar muito mais limpa e arranjada do que eu esperaria. Por mim, aquilo seria ainda um espaço com velhas carregando fardos de palha e bostas de burro pelo chão. Mas não é, e não há mal nenhum nisso...

(continua)

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