quarta-feira, 25 de abril de 2012

2500 km por Portugal - parte 14 (2011/10/04)

A rua principal
Monsanto

Resolvi tentar a rua principal da localidade, em busca de comércio. Apetecia-me ver se Monsanto tinha lojas, e cafés que invocassem a sua natureza muito particular. Passei por uma loja que parecia servir de venda geral, com artesanato de má categoria e garrafinhas de água para matar a sede a turistas e, um pouco mais à frente, num solar, notei a existência de um posto de turismo (que estava fechado). Mais uns metros para ver um chafariz e outro solar e voltei para trás, decidido a empreender a subida até ao castelo.

Na rua íngreme que dá acesso à velha fortaleza já vi alguns restaurantes e bares, um ou outro chamando-me mais a atenção mas, apesar disso, nada do que eu esperava. Monsanto ocupava um lugar importante no meu imaginário de turista. Eu pensava que era um lugar rústico mas, ao mesmo tempo, cheio da azáfama própria dos símbolos turísticos. Talvez o seja noutras épocas do ano. Naquele dia, não o era, certamente.

Aqui e ali, sentadas nos degraus de alguma casa, mulheres mostravam cestos de palha com pequenas bonecas de pano lá dentro. "Venha cá, leve uma bonequinha", soltavam elas de forma pouco confiante - talvez habituadas a discernir os potenciais clientes dos meros passantes. Em momento algum senti uma ponta de interesse pelas "marafonas" (é o nome das bonecas) mas calculo que sejam populares entre quem por ali se passeie com meninas.

Mesmo antes de sair do aglomerado urbano entrei na "gruta", uma pequena cavidade sem interesse e que nem sequer merece o nome que tem. Já com a aldeia-vila pelas costas - e remoendo a tristeza de algumas casas abandonadas -, tinha à minha frente a floresta de enormes rochas arredondadas que cobre o monte e que valem uma visita só por si mesmas. Fiz um desvio ao caminho para o castelo, para poder "saltitar" pelas rochas até chegar a uma particularmente grande e cuja posição parecia dominadora. Ali, todas aquelas gigantescas bolas de pedra parecem guardar um qualquer tesouro nos espaços entre elas e, nalguns destes, de tão grandes que são, foram feitas casas e palheiros. Convenhamos que será difícil arranjar paredes mais sólidas...

A simbiose perfeita...
Descansei um pouco na sombra de um grande espaço criado pelo encosto de dois ou três rochedos e, após o refrescamento causado por alguns graus abaixo da média, retomei a caminhada. A chegada ao planalto é magnífica. A paisagem ganha cor pela amarela presença da erva que cresce por entre as pedras, acompanhada pelo céu que ali parece deitar-se sobre o monte. No cimo de tudo, a mole cinzenta do castelo - qual continuação do próprio monte -, projeta uma imagem de força que nos atrai inapelavelmente.

Toda aquela área é magnificamente misteriosa. É como se entrássemos num mundo de silêncio pesado, feito de uma embriaguez de pedra de cuja voz se ouvem antigas lendas. O castelo, os restos de muralhas espalhados pelo planalto, a capela românica... Monsanto, logo ali, partiu-se em duas - a aldeia e o castelo -, tão independentes que podem ser as duas zonas por aquilo que têm.



O castelo

A entrada no castelo faz-se por uma espécie de portaria, pátio de guarda onde umas escadas nos conduzem à primeira grande área. Esta é rompida por uma rampa que nos leva ao grande espaço da fortaleza, onde está uma capela (fechada) e, no meio de tudo, uma rocha junto da qual há uma cisterna. O espaço parece ser usado para arraiais (pudera) já que se notavam alguns restos de equipamento.

O castelo
O que fazer no castelo de Monsanto? Bom, pode-se gozar a sensação de grandeza, pode-se sair das muralhas e dar uns passos na encosta, pode-se subir às muralhas e dar muitos passos sobre elas, pode-se arriscar o pescoço e a espinha ou pode-se, simplesmente, sentar e meditar. Como sou do tipo irrequieto, fiz tudo aquilo e, no fim, meditei sobre a forma como sou pouco cuidadoso comigo mesmo...

A solidão fazia parte da piada de ali estar. Com exceção de um casal que a certa altura apareceu e de um pequeno grupo que saía quando eu entrei, ninguém andava pelo castelo ou pelas suas redondezas. Senhor quase absoluto me senti daquelas paredes e campo.

A partir da área central, pode-se entrar numa outra mais pequena, onde se acede facilmente às muralhas e onde existem dois marcos geodésicos, um dos quais ótimo para que o viajante solitário possa assentar a máquina fotográfica e tirar umas fotos a si mesmo. Estamos na zona mais alta da fortaleza, a partir de onde o mundo nos entra pelos olhos adentro, tal é a largueza do horizonte. Lá em baixo, Monsanto torna-se uma miniatura capaz de caber na nossa mão, pequeno mundo delicadamente colocado na encosta do monte, só para nós o podermos ver...

(continua)


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