quinta-feira, 26 de abril de 2012

Só ou acompanhado?

"E vais sozinho?!", perguntam-me diversas vezes a propósito de muitas coisas. Concertos, viagens, simples passeios - parece haver uma certa dificuldade em entender que, quando não se arranja companhia, isso não é uma desculpa para nos fecharmos em casa carpindo pela injustiça que é os outros não partilharem dos nossos gostos ou disponibilidades. Mas há quem admita que sem alguém a seu lado, nem ao cinema vai. Bem tramado estaria eu se ingressasse no clube dos avessos à vida a... um.

Estar sozinho poucas vezes me pareceu uma coisa aborrecida. Confesso que muitas vezes deixei de fazer coisas por não estar acompanhado mas isso nunca foi além da área gastronómica. Ir a um bar ou a um restaurante mais cuidado pode ser apetecível mas a perspetiva de ficar sozinho a um canto ou - pior! -, no meio de todas as pessoas, desanima-me quase invariavelmente. Como alternativa, escolhe-se locais mais descomprometidos, quase "utilitários", onde uma mesa não seja uma espécie de palco para um evento social mas tão só um sítio para matar a fome. E nisso, os estabelecimentos de comida rápida são imbatíveis, claro. É triste? De vez em quando, sim.

Mas se à mesa ou à noite pode ser normal sentir-se a falta de gente com quem fazer a festa, durante o resto do tempo é verdadeiramente ótimo andar sozinho. Quem anda só não tem de se preocupar com os horários dos outros, ou as suas pequenas birras e gostos, ou de negociar roteiros, ou de encaixar críticas e queixas. O viajante solitário é aquele que mais coisas vê, porque só vê aquilo em que está interessado e não tem de, diplomaticamente, fazer companhia a outrém fazendo coisas que não estão entre as suas prioridades. O nosso ritmo é o único que está certo porque é o nosso. Os nossos interesses são os únicos que têm valor porque são os nossos. Quando se anda sozinho, é como se tudo estivesse à nossa disposição. É só chegar e agarrar. Não há lugar a discussões ou hesitações.

Eu sou de passo rápido, tenho horários alargados e exijo pouca coisa. Quero com isto dizer que quando viajo não estou preocupado em submeter-me às pequenas rotinas que no dia a dia moldam a minha vida. Se falho uma refeição ou a tomo a desoras, isso nem por um momento me perturba. Pelo contrário: se tal acontece é porque estive a fazer qualquer coisa mais importante. Se me deito tarde não compenso na manhã seguinte esticando o sono. Se não me lavo convenientemente, não entro em paranoia até ao próximo banho. Férias são férias e nenhum conforto pode valer mais do que a satisfação dos objetivos principais dos meus passeios: ver o que nunca vi, provar o que nunca provei. O resto, são coisas secundárias. Afinal de contas, para alguma coisa existem as toalhinhas húmidas e os pacotes de bolachas.

Para quem viaja em época baixa, então, a gestão de horários ganha maior importância devido ao menor número de horas de sol e, por vezes, aos horários reduzidos de algumas atrações turísticas. Quando a luz no céu se apaga às 17:00 justificar-se-á perder uma hora a almoçar? Dificilmente...

É por tudo isto que quando me dizem que "viajar só com companhia", a minha memória dispara com a lembrança de todas as pequenas chatices que já tive quando gozava as "maravilhas" de viajar a dois ou a três e, ao mesmo tempo, me recordo de tantas coisas que só pude fazer porque, sendo o único dono do meu tempo o pude esticar e torcer para se adaptar às minhas vontades. E, apesar disto, fica sempre tanto para ver...

"Vais sozinho?!" Vou, sim senhor: e ainda bem!

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