sábado, 5 de maio de 2012

2500 km por Portugal - parte 15 (2011/10/04)

Capela de São Miguel
Monsanto

O castelo de Monsanto tem, a seus pés, um planalto rochoso onde se acumulam vestígios do passado. Para além das ruínas de uma capela românica, de troços de muralha e vários túmulos medievais, há, "perdidos" por entre as rochas e arbustos muitos pequenos, sinais da ocupação humana: degraus que não parecem levar a lado algum, pequenas covas nas pedras...

Passear na envolvente do castelo foi, para mim, ainda melhor do que a visita ao dito. Como gostei daquela solidão batida pelo vento... Pular de rocha em rocha, sempre na perspetiva de deparar com alguma marca dos nossos antepassados, escondida pelo tempo só para que conheçamos a graça de a encontrar... Cruzar os caminhos pelo meio das ervas, com os olhos postos naquela pedra lá longe que talvez seja - ou não -, alguma coisa... Mapa na mão, tentando não perder nenhum dos pontos nele marcados, que há sempre qualquer coisinha mais para ver.

A capela de São Miguel (do Séc. XII) está fechada mas, como lhe falta o teto, é possível ver todo o seu nu e agreste interior. Eram assim os templos daquela altura. Cá fora, e começando logo junto à porta, estão diversos túmulos, a maior parte deles já sem tampa. Estamos a falar de campas escavadas na pedra bruta, simples sítios onde os corpos eram depositados em solo santo, sem quaisquer "artifícios" e cobertos com uma lage que podia, ou não, ter algum tipo de decoração (o desenho de uma espada, por exemplo).

Defronte da capela há um campanário e, mais acima, uma torre isolada a que chamam "do peão". Como não consegui ver um bom caminho para ir a esta, fiquei-me pelo primeiro. Junto à sua base, por estarmos num ponto um pouco mais alto, podemos ter uma vista ainda melhor da envolvente.

Capela de São João
Consultando o mapa, apontei aos restos da capela de São João, que ficam do outro lado daquele sítio. Atravessei o campo e, finalmente, cheguei à triste ruína: um mero arco rodeado de um baixo muro e muita pedra lá dentro caída. Se os vestígios são, em si mesmos, desinteressantes, a verdade é que não é possível desenquadrá-los do "cenário" e o conjunto acaba por ser inteiramente merecedor do desvio já que a antiga capela está na encosta do monte e a paisagem... bom, só indo lá.

Onde quer que se esteja ali, o castelo projeta sobre nós a sua força: vigilante, poderoso, com as altas muralhas marcando o último reduto da defesa de Monsanto (que, diga-se de passagem, sempre se portou bem quando foi necessário repelir invasores - pudera!). Cá em baixo, serpenteamos pelos trilhos, saltando de rocha em rocha, olhos revezando-se na atenção ao chão e na contemplação do horizonte. É um local telúrico, rude, propiciador de meditação. O melhor de toda a visita a Monsanto, sem dúvida.

Já descendo para a aldeia/vila, a curiosidade fez-me meter por um curto caminho invadido por todo o tipo de arbustos que picam e arranham e no fim do qual havia uma porta na pedra. Era a típica casa de águas que tanto se vê pelas serras e nada tinha de interessante (a menos que eu fosse um estudioso de mosquitos...) mas este tipo de coisas exerce sobre mim uma atração que, espero, nunca seja fatal... Buracos, covas, minas... deve ser uma coisa freudiana.

Porta de Santo António
Tomei as ruas que o mapa me aconselhava para ir até à porta de Santo António, entrada nas muralhas da localidade e junto da qual há a capela de... certo: Santo António, também. A "igrejola" (que fica ao lado de um cemitério) estava fechada (mas, será que eu ainda esperava encontrar algum templo aberto?), e restou-me apreciar a simples porta na muralha, com a sua guarita e as armas locais. Coisa muito simples, coisa muito... desinteressante.

Toca a subir aquelas ruas todas, tentando variar sempre que possível relativamente às vias por onde tinha já passado. A escolha não é muita mas é alguma, apesar de tudo. Fotografia aqui, fotografia ali e eis-me de volta ao início do passeio. Faço um ou dois pequenos desvios para ir ver melhor algumas coisas e confirmar que a Igreja matriz continua bem fechadinha. Nem esta faz concessões aos turistas!

Que me ficou de Monsanto? A imagem de uma terra bonita, agreste e bela q.b., cuja graça variará consoante a época do ano (com neve deve ser uma coisa magnífica) e que merece, certamente, uma visita de todos nós. Se é, ou não, "a aldeia mais portuguesa de Portugal", isso pouco me interessa. Não é, concerteza, um apanhado de toda a riqueza patrimonial do nosso país. É uma aldeia do estilo das que se encontram nas Beiras ou - melhor -, naquela zona das Beiras, e só isso já é bem bom.

Na descida, resolvi desviar-me para ir ver a capela de São Pedro de Vir-a-Corça (sim, é um nome "bizarro"). Após algum tempo, fui dar a um local no sopé da montanha, cheio de árvores e enormes "bolas" de pedra que pareciam nascer do chão. Numa clareira, fresca e com boas sombras, está a velha capela (aquilo é zona de poucas igrejas e muitas capelas, mesmo que estas sejam do tamanho de... igrejas). O estilo exterior é o românico (e, mesmo que não fosse, havia de o parecer, tal é a força que a pedra local impõe a qualquer estilo arquitetónico) mas, quanto ao interior, nada posso dizer porque a porta estava... trancada. Só não me senti frustrado porque o hábito de me ser vedada a entrada em monumentos já se tinha instalado definitivamente. A exceção, nos meus 2.500 km por Portugal, seria sempre encontrar alguma coisa aberta.

Barragem Marechal Carmona
A caminho de Idanha-a-Nova, fui ainda até à barragem Marechal Carmona, um bonito sítio (todas as barragens acabam por criar paisagens belas) junto do qual há um parque de campismo para onde eu ainda pensei ir. Felizmente não o fiz porque aquilo fica bastante isolado para o turista que anda a passear em vez de "vegetar".

Não se via vivalma por ali e, sobre o paredão, andei passeando e observando os maquinismos existentes, quase com ar de abandonados. Encabeçando o muro estão umas enormes armas nacionais, bem ao jeito do Estado Novo, e que conferem uma monumentalidade muito própria à barragem.

Com a despreocupação fornecida pelo GPS, meti-me por uma estrada que não sabia a onde ia dar mas que avançava por colinas que começavam a dourar-se àquela hora.

Quando fosse necessário, havia de chegar a Idanha, à mesa de jantar e, finalmente, à cama. Até lá, passeava...


Itália - Pompeia


terça-feira, 1 de maio de 2012

Cavalos, só a passo?

Porta-estandarte de um dos bairros de Asti
A recente nega da Entidade Reguladora da Comunicação Social a um pedido do Bloco de Esquerda para que as transmissões de touradas fossem proibidas na televisão pública fez-me lembrar de um episódio em Itália onde pude testemunhar equivalente fundamentalismo (ou pior, mesmo) na defesa daquilo a que se convencionou chamar "direitos dos animais".

Na "bota" realizam-se anualmente vários palio, i.e., corridas de cavalos cuja tradição é velha de muitos séculos, refletindo-se essa ancestralidade em toda a envolvente dos espetáculos, sendo as corridas realizadas na praça central das cidades e estas decoradas com motivos medievais (ou renascentistas). Dos vários bairros locais vêm os competidores, acompanhados por toda a sorte de personagens necessárias à recriação histórica do período pretendido. O palio mais famoso é o de Siena mas a mim coube-me ver o de Asti (a cidade famosa pelo seu espumante). 

Chegado à localidade logo de manhã, aproveitei para fazer a volta turística (que incluiu um daqueles momentos "boca aberta", ao entrar na velha catedral). A cidade estava já decorada a preceito, com imensas bandeiras e fitas com as cores dos bairros que mais tarde iriam defender a sua honra na corrida de cavalos. Aqui e ali, pequenos grupos ensaiavam a sua participação no grande cortejo histórico, num misto de alegria e nervosismo.

Diversas atividades relacionadas com o palio permitiam ao turista ir-se entretendo até ao momento da grande festa. Após ver os principais monumentos, optei por ir ver até uma colorida exposição de vestuário medieval, realizada numa antiga igreja que hoje serve, também, de museu arqueológico. Foi a minha sorte ter dado com este local porque, estupidamente, não tinha carregado as baterias da máquina fotográfica na noite anterior e estava na desesperante situação de não ter como tirar fotografias. Um pedido na receção do museu e a câmara ali ficou carregando, sob o olhar vigilante mas muito desconfiado da filha deficiente do responsável do museu.

Cada bairro tem os seus sbandieratori
Toda a cidade parecia preparar-se para o primeiro grande momento do dia: o já referido cortejo histórico. Agora preparado para disparar em todas as direções, voltei até à catedral, de onde partia o desfile. Grupos de figurantes sucederam-se, recriando diversos quadros de antanho: os monges, as freiras, os guerreiros, os nobres, os burgueses, os clérigos, os santos..., tudo aquilo ao som de tambores rufando e acompanhado de malabarismos feitos com bandeiras.

O cortejo terminaria na praça central onde tudo já estava preparado para a competição. Nas janelas, mantas e bandeiras mostravam a fidelidade de quem nelas se debruçava e, nas varandas, gente "bem" acompanhava tudo aquilo de copo na mão. À volta da praça, o povo acumulava-se, uns acedendo aos lugares pagos nas bancadas e outros (como eu), tentando atravessar a pista para irem para a grande zona central (gratuita).

Finalmente, após uma longa espera, a corrida estava prestes a começar. Embora o recinto estivesse bem composto, no meio, a praça estava a universos de distância da mole humana que eu sempre tinha visto nas imagens de Siena. Melhor para mim, que consegui ver tudo aquilo com quase perfeito conforto (não fosse o forte sol). 

O povo entusiasmou-se e assim percebi que a corrida tinha começado. Em poucos momentos, à minha frente passou um conjunto de cavalos, montados por jockeys de roupas coloridas. Tão depressa quanto chegaram, deixei de os ver. Uma ou duas voltas e a coisa parou. Mais uma grande espera e... outra volta. E assim decorreu o palio, para minha grande deceção. Nada de dramatismo, nada de milhares de pessoas vibrando, apenas uma sensaborona passagem de cavalos de tempos em tempos. Numa das paragens, vim-me embora, farto que já estava daquilo.

Ativistas protestam contra a tradição.
No chão, uma mulher finge-se morta...
À saída, ao passar pela rua principal, um grupo de "ativistas" tentava convencer as pessoas de que tudo aquilo era um espetáculo desumano que envolvia o sofrimento dos pobres cavalos. Para que a mensagem fosse mais pungente, uma fotografia estrategicamente colocada mostrava-nos um desgraçado equídeo que num evento semelhante tinha partido uma perna e, consequentemente, havia sido abatido. Oh drama, oh desgraça!

Amigo que sou dos animais (que prefiro à generalidade das pessoas), só pude olhar para aquela gente com o tipo de desprezo que acaba por nos fazer rir do ridículo em que alguns caiem na defesa de fundamentalismos absurdos. Pretender o fim de simples corridas de cavalos e, consequentemente, terminar com séculos de cultura popular, em nome de algo tão tolo quanto "o direito de um cavalo a não... correr"? Há limites!



O quilómetro infernal...

O que nos esperará ao virar da curva?

Talvez a simpática visão de Almodôvar... :)

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