terça-feira, 1 de maio de 2012

Cavalos, só a passo?

Porta-estandarte de um dos bairros de Asti
A recente nega da Entidade Reguladora da Comunicação Social a um pedido do Bloco de Esquerda para que as transmissões de touradas fossem proibidas na televisão pública fez-me lembrar de um episódio em Itália onde pude testemunhar equivalente fundamentalismo (ou pior, mesmo) na defesa daquilo a que se convencionou chamar "direitos dos animais".

Na "bota" realizam-se anualmente vários palio, i.e., corridas de cavalos cuja tradição é velha de muitos séculos, refletindo-se essa ancestralidade em toda a envolvente dos espetáculos, sendo as corridas realizadas na praça central das cidades e estas decoradas com motivos medievais (ou renascentistas). Dos vários bairros locais vêm os competidores, acompanhados por toda a sorte de personagens necessárias à recriação histórica do período pretendido. O palio mais famoso é o de Siena mas a mim coube-me ver o de Asti (a cidade famosa pelo seu espumante). 

Chegado à localidade logo de manhã, aproveitei para fazer a volta turística (que incluiu um daqueles momentos "boca aberta", ao entrar na velha catedral). A cidade estava já decorada a preceito, com imensas bandeiras e fitas com as cores dos bairros que mais tarde iriam defender a sua honra na corrida de cavalos. Aqui e ali, pequenos grupos ensaiavam a sua participação no grande cortejo histórico, num misto de alegria e nervosismo.

Diversas atividades relacionadas com o palio permitiam ao turista ir-se entretendo até ao momento da grande festa. Após ver os principais monumentos, optei por ir ver até uma colorida exposição de vestuário medieval, realizada numa antiga igreja que hoje serve, também, de museu arqueológico. Foi a minha sorte ter dado com este local porque, estupidamente, não tinha carregado as baterias da máquina fotográfica na noite anterior e estava na desesperante situação de não ter como tirar fotografias. Um pedido na receção do museu e a câmara ali ficou carregando, sob o olhar vigilante mas muito desconfiado da filha deficiente do responsável do museu.

Cada bairro tem os seus sbandieratori
Toda a cidade parecia preparar-se para o primeiro grande momento do dia: o já referido cortejo histórico. Agora preparado para disparar em todas as direções, voltei até à catedral, de onde partia o desfile. Grupos de figurantes sucederam-se, recriando diversos quadros de antanho: os monges, as freiras, os guerreiros, os nobres, os burgueses, os clérigos, os santos..., tudo aquilo ao som de tambores rufando e acompanhado de malabarismos feitos com bandeiras.

O cortejo terminaria na praça central onde tudo já estava preparado para a competição. Nas janelas, mantas e bandeiras mostravam a fidelidade de quem nelas se debruçava e, nas varandas, gente "bem" acompanhava tudo aquilo de copo na mão. À volta da praça, o povo acumulava-se, uns acedendo aos lugares pagos nas bancadas e outros (como eu), tentando atravessar a pista para irem para a grande zona central (gratuita).

Finalmente, após uma longa espera, a corrida estava prestes a começar. Embora o recinto estivesse bem composto, no meio, a praça estava a universos de distância da mole humana que eu sempre tinha visto nas imagens de Siena. Melhor para mim, que consegui ver tudo aquilo com quase perfeito conforto (não fosse o forte sol). 

O povo entusiasmou-se e assim percebi que a corrida tinha começado. Em poucos momentos, à minha frente passou um conjunto de cavalos, montados por jockeys de roupas coloridas. Tão depressa quanto chegaram, deixei de os ver. Uma ou duas voltas e a coisa parou. Mais uma grande espera e... outra volta. E assim decorreu o palio, para minha grande deceção. Nada de dramatismo, nada de milhares de pessoas vibrando, apenas uma sensaborona passagem de cavalos de tempos em tempos. Numa das paragens, vim-me embora, farto que já estava daquilo.

Ativistas protestam contra a tradição.
No chão, uma mulher finge-se morta...
À saída, ao passar pela rua principal, um grupo de "ativistas" tentava convencer as pessoas de que tudo aquilo era um espetáculo desumano que envolvia o sofrimento dos pobres cavalos. Para que a mensagem fosse mais pungente, uma fotografia estrategicamente colocada mostrava-nos um desgraçado equídeo que num evento semelhante tinha partido uma perna e, consequentemente, havia sido abatido. Oh drama, oh desgraça!

Amigo que sou dos animais (que prefiro à generalidade das pessoas), só pude olhar para aquela gente com o tipo de desprezo que acaba por nos fazer rir do ridículo em que alguns caiem na defesa de fundamentalismos absurdos. Pretender o fim de simples corridas de cavalos e, consequentemente, terminar com séculos de cultura popular, em nome de algo tão tolo quanto "o direito de um cavalo a não... correr"? Há limites!



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