terça-feira, 12 de junho de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 2

2012/05/24

Se há coisa de que não me posso queixar é de ter apanhado com greves de transportes ou de outros quaisquer serviços que me tenham, alguma vez, prejudicado. Uma coisinha aqui, outra ali, mas nunca nada que merecesse ser colocada no arquivos dos momentos amargos. Desta vez, no entanto, os controladores aéreos portugueses ameaçavam por fim à minha boa sorte, com uma greve por períodos. Do mal, o menos, o meu voo partia meia hora depois do fim de um dos períodos "de luta"... Parti, portanto, para o aeroporto, confiante de que iria "ganhar asas" sem grandes problemas. Um aviso ominoso de um familiar ("isso vai dar atrasos"), soava-me longe, posto à distância pelo otimismo de quem está a caminho de férias.

Cheguei à Portela muito antes da hora. Entre o entusiasmo e a previdência, arranjei forma de comparecer no Terminal 2 (o novo pouso da Easyjet na nossa capital) algumas três horas antes do que devia. Seca da grande! Para quem não o conheça, o T2 é, basicamente, um grande pavilhão com cadeiras e onde não há nada que fazer. A única diversão que se arranja é, quando muito, andar a viajar de autocarro gratuito entre o dito sítio e o núcleo principal do aeroporto.

Ao fim de algum tempo tentando contar os parafusos no teto, surgiu, finalmente, no painel de informações, uma indicação sobre o meu voo. Cumpria-se a previsão do meu parente: o avião ia ter um atraso. De quanto tempo? Não nos diziam nada. Estava atrasado, e pronto. Como já tinha gasto a vista no que por ali havia que merecesse ser olhado, resolvi dar um pulo até ao "velho" terminal onde, pelo menos, há mais lojas e gente. Uma voltinha de rabo tremido e eis-me no meio dos voos "a sério", os que cruzam os céus intercontinentais levando gente de todos os credos e feitios. A Portela nunca foi um aeroporto bonito (estão sempre a arranjá-lo mas não se consegue desenvencilhar daquele ar feioso de transição entre os anos 70 e 80) mas, pelo menos, a maior agitação e a maior quantidade de lugares onde nos sentarmos são uma tremenda melhoria em relação ao Terminal 2.

Quando dei por mim - lá para a quinta volta à zona das lojas -, pouco faltava para o que devia ser a hora do meu voo. Sobressalto, passo acelerado e toca a apanhar a próxima ligação para o T2. A coisa ainda me corria mal. À chegada, outras pessoas (possivelmente, também elas tendo antes fugido da modorra), correram para o painel informativo. Eu, ao chegar lá, fui brindado com o descanso: o voo partiria com um atraso de quase duas horas! O que fazer? Na dúvida, uma mijinha nervosa só para justificar o gasto de alguns minutos.

Ao passar por uma montra com produtos que não se podem transportar na bagagem de mão, topei com uma bisnaga praticamente igual a uma que eu levava. Estava quase certo de que a medida da minha era aceitável (<= 100ml) mas, num daqueles assomos de imbecilidade à qual nenhum de nós escapa, resolvi não arriscar o valor da coisa e mandei-a para casa em correio verde (há uma máquina dispensadora de pacotes ali mesmo a jeito...). Nunca tinha enviado correspondência a mim mesmo e, para diminuir um pouco o ridículo da coisa, usei os meus nomes do meio (ainda que mantendo a morada). Coisa esquizofrénica, já se vê...

Confiante de que nada me seria apontado, avancei para a área de embarque. As perguntas do costume, as verificações do costume. A mochila passada duas vezes na máquina (mas nem ligaram aos produtos de higiene). As botas a apitarem por causa da biqueira reforçada (porque insisto eu em andar de avião com umas botas da tropa?) e, de repente, um esgar de asco na cara de dois dos seguranças, seguido de qualquer coisa como "Eh pá passa aquele ao Ferreira!", dito por um terceiro. Risos marotos entre todos e a minha curiosidade a fazer-me rodar para ver quem lá vinha. Pelo meio de algumas pessoas, em jeito algo apressado, vestido de cabedal, aproximava-se o "famoso" Alex "Mister Gay". Parece que ninguém ali estava com vontade de o revistar...

Uma vez na zona de embarque, todas as cadeiras estavam ocupadas. Era o típico cenário de greve (que tanto se vê na TV): pessoas sentadas pelos cantos, gente dormindo no chão e o enfado estampado no rosto de tantos. Poucos minutos são requeridos para ver a loja que ali está e como os preços nos comes e bebes são estupidamente elevados, nada mais resta fazer ao viajante do que... esperar sentado. E sentado me fui informando sobre os meus direitos perante um cenário como o que se me deparava. De tudo, a única coisa que me agradou foi a perspetiva de um lanche gratuito caso o atraso fosse igual ou superior a duas horas.

Finalmente, surgiu a indicação de embarque. Rapidamente se formou uma enorme bicha alimentada por todos aqueles a quem a ansiedade não permite esperar confortavelmente sentados. Por mim, quase que faço questão de ser o último a embarcar. Não me apanham uma hora em pé para uma coisa cujo lugar está garantido!

Uma vez no avião, tive a surpresa de ver que o pessoal de cabina era português. Sabe muito melhor viajar sentindo que estamos entre "os nossos". Mas melhor teria sabido se o tempo que ainda estive à espera no avião se tivesse passado no terminal. É que as tais duas horas de atraso aconteceram mesmo mas, como já estávamos a bordo, a coisa já não contou para o apetecido lanche :) Ora bolas!

Duas horas e tal depois, aterrava de noite no aeroporto Marco Polo. No voo, enganei a fome com um ótimo café Starbucks (moagem à italiana) acompanhado de um muffin (a forma moderna de dizer "queque") de chocolate. Caro, o par, mas bastante saboroso.

Do aeroporto, para chegar a Veneza, apanha-se uma camioneta (€5,50 ou €5 - consoante a transportadora) e esta deixa-nos na Piazzale Roma que é o único sítio de Veneza onde os carros podem ir  e que fica na extremidade da longa ponte que liga o continente à ilha principal (e por onde chegam, também, os comboios).

Descido da camioneta, senti uma chuva miudinha de boas vindas. O ar estava abafado e havia no ar aquele cheiro de chuva de verão. Comecei seguindo as indicações que levava comigo e, logo ao fim de alguns passos, agitando-se serenamente num canal, estavam umas gôndolas no seu descanso noturno. Começavam ali dois dias e meio de bilhetes postais.

Atravessei a ponte feita pelo mestre Calatrava (e que deve ser uma das suas piores obras) e, uma vez do outro lado do Grande Canal, rumei ao meu destino, passando por tranquilas ruas mais ou menos estreitas e cruzando mais algumas pontes. Ao fim de um bocado que me pareceu prazenteiro, e atravessando mais um canal, cheguei ao albergue onde iria ficar (Ostello Santa Fosca). O local aproveita um antigo complexo religioso e é, ao mesmo tempo, típico e sossegado. Logo à entrada, uns degraus dão acesso ao canal, para o caso de alguém querer chegar de barco. Eu cá cheguei a pé, já se vê, mas, daí a poucos minutos, já embarcava... numa boa noite de descanso...

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