domingo, 17 de junho de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 3 (Veneza)

A caminho da Praça de São Marcos...
2012/05/25

Ala, que se faz tarde

Acordar numa nova cidade e sair do albergue bem cedinho tem uma graça muito própria. As localidades têm o seu despertar, feito de cores, sons e cheiros característicos e é revigorante sentir tudo isso nos primeiros passos do dia, quando ainda tentamos sacudir o sono dos nossos olhos. Os comerciantes preparam as lojas, os distribuidores entregam as mercadorias, os primeiros cafés são tirados e alguns cidadãos mais afoitos entregam-se à leitura das novidades do dia anterior no quiosque mais próximo.

Para sair cedo do "casulo" contribui, em muito, a estadia não incluir pequeno almoço. Quando temos direito à primeira refeição do dia (em Itália, prima colazione), acabamos por submeter o desejo de passeio às necessidades do estômago. Ganhamos em conforto, talvez poupemos uns trocos, mas, raramente os horários do albergue se coadunam com o interesse de partir para a rua bem cedo (e aqui digo que "cedo" é um conceito que nunca pode ir além das 08:00). Como todos os sítios escolhidos por mim nestas férias não incluiam "mata bicho", o meu espírito nunca teve de se ocupar com difíceis decisões ao acordar. Era levantar e... sair.

Na noite anterior tinha tido um vislumbre noturno de Veneza, coisa de pouca duração (dez ou quinze minutos), feita em passo acelerado e com mais atenção ao mapa do que propriamente à cidade. Agora, tratadas as formalidades no Ostello Santa Fosca (onde tinha apenas "dado entrada", por força da minha chegada tardia), e com um pequeno atraso relativamente à ideia de "sair cedo", eis-me em rota inaugural da minha visita a Veneza. E, porque as coisas devem ser feitas como deve ser, estava já apontado à Praça de São Marcos, onde tinha uma visita marcada ao Palazzo Ducale. O caminho durou cerca de vinte agradáveis minutos, por ruas, ruelas, pracetas, passagens cobertas e pequenas pontes, sempre tudo com aquele ar cheio de patine que dá o encanto tão característico às localidades italianas. 

Finalmente, ao atravessar uma pequena ponte e passar por debaixo de um edifício, revelou-se a famosa praça central de Veneza. Lá estava a torre, lá estava a basílica, lá estavam as arcadas, lá estavam as esplanadas (que ainda estavam sendo montadas). Tudo como se esperaria. Como o relógio ainda me dava uma folga, aproveitei para ir ver as traseiras da praça e ter os meus primeiros vislumbres de outros "cartazes" da cidade, como, por exemplo, as vistas para as ilhas de Dorsoduro e San Giorgio Maggiore.


Os "itinerários secretos" do Palazzo Ducale

Pátio do "Palazzo Ducale"
Já não me lembro de como era fazer turismo quando não havia a internet. Se calhar, não o fazia. Se calhar, já quase me esqueci de que se escrevia aos gabinetes de turismo das embaixadas ou a entidades sediadas nos países que se pretendia visitar e, na volta do correio, recebíamos brochuras diversas que consultávamos avidamente. Em alternativa, havia as agências de turismo que tratavam de "tudo" por nós... Se ainda fossem esses os tempos, talvez nunca tivesse sabido de uma coisa chamada itinerari segreti (itinerários secretos), i.e., uma visita "alternativa" ao palácio dos Doge (os soberanos da República de Veneza), e  na qual nos levam a visitar áreas do belíssimo edifício que não fazem parte da visita comum (que, com o mesmo bilhete - com custo de €20 -, podemos também fazer). 

Como já tinha tudo marcado pela internet foi só comparecer na bilheteira e receber o bilhete e um autocolante para por ao peito (identificando-me como participante na visita). O local de encontro era no pátio (praça, é um termo melhor), junto a um poço. Ao fim de algum tempo, apareceu a guia para a visita em Italiano. Rapidamente se percebeu que italianos não havia nenhuns e a guia prometeu que iria tentar falar mais devagar, acedendo ao pedido de um turista espanhol (que falava italiano), que rogou àquela que falasse "italiano normal" e não a 100 à hora. Ri-me para dentro com o pedido ("diz o roto ao nu", pensei eu...) e com a resposta da guia: "O que é Italiano não-normal? É Espanhol?".


Uma "caixa de correio" para denúncias...
A visita é muito interessante, mesmo. A primeira paragem (ainda numa zona "pública"), é junto à "Boca de leão", um local onde, numa parede, existem ranhuras por onde se podiam passar denúncias para serem analisadas pelos investigadores que estavam - adivinhem -, do outro lado da parede. Estas denúncias não eram totalmente anónimas  (e o denunciante, se se provasse a sua má fé, incorria em severas punições), mas asseguravam suficiente discrição para encorajar quem soubesse de "alguma coisa"...

De seguida, somos levados às modestíssimas instalações do funcionário estatal que, antigamente, atendia os pedidos do povo; depois, à mais elaborada sala onde eram copiados os documentos que serviam de suporte à burocracia da República (tudo, absolutamente tudo era documentado - sob estritas medidas de segurança -, e hoje constitui um gigantesco arquivo nacional).

Vista a sala dos copistas - e ouvida uma bela explicação sobre tudo aquilo -, vamos visitar a zona das prisões que ficavam debaixo do teto do edifício e onde esteve preso Casanova (o passeio sendo sempre acompanhado de "coloridas" explicações por parte da guia), passamos pela sala da "tortura" (que, aparentemente, era mais do tipo "guerra psicológica" do que, propriamente, física), e subimos ao sótão para admirar uma bela coleção de armas e o engenhoso processo pelo qual o teto do enorme salão do edifício se aguenta sem recorrer a colunas; Vistas estas coisas (e mais algumas), saimos por onde entramos e podemos começar a visita "normal". Posso dizer que durante todo o tempo da visita o meu interesse nunca esmoreceu e as explicações foram facilmente compreensíveis. Recomendo vivamente este percurso "alternativo" pelo Palazzo Ducale de Veneza!

(continua)

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