terça-feira, 31 de julho de 2012

Lá ao longe

Aconteceu-me três vezes, e sempre em ambiente de montanha: olhar para um caminho que entrava pela paisagem adentro, rumo a um bonito horizonte, e sentir uma espécie de força a puxar-me, uma coisa quase ao ponto de me causar, literalmente, medo de perder o controlo sobre as minhas decisões e... partir. Partir pela necessidade da caminhada, arrancar pela pura aventura, ir sabe-se lá por onde mas sempre com os olhos postos na hipnotizante montanha lá ao fundo, como se ela ali estivesse só para me receber, anunciando um novo mundo no fim do trajeto.

Suíça:o monte Matterhorn
Suíça (2005/11/11)

A primeira vez que senti esta perturbante sensação foi na Suíça. Estava em Gornergrat, um local em plenos Alpes onde termina uma linha de comboio turística (que maravilha de viagem!) e onde está um observatório astronómico. A paisagem estava coberta de neve e, caso nos desviássemos da estrada que ia da paragem do comboio até ao observatório, imediatamente podíamos dar por nós atascados até ao joelho o que, mesmo com botas e polainas, era desconfortável (para já não dizer perigoso). 

Havia poucos turistas por ali e a loja de recordações não estava a ter grande movimento. O observatório - a única construção de monta existente -, estava fechado e nada mais restava a quem por ali estivesse senão aguardar pela partida do comboio de retorno a Zermatt. Para fazer tempo, as poucas almas iam ao miradouro, contemplavam a magnífica paisagem e observavam algumas aves que por ali brincavam.

Daquele sítio (tal como de muitos outros), via-se um dos ícones da Suíça, o monte Matterhorn. O cenário não necessitava deste último para ser magnífico mas a sua presença conferia uma imponência muito particular à paisagem. O céu não podia estar mais azul, a terra estava coberta de branco e, ao longe, a enorme mole rochosa do Matterhorn (o monte é tão íngreme que a neve pouco se acumula) rompia do chão como uma garra que quisesse ferir os céus. Ninguém de perfeito juizo podia ficar indiferente àquilo tudo. Era como um vai e vem entre a placidez e a ira da natureza.

Meti-me a caminhar um pouco fora de trilho, só o suficiente para tirar umas fotografias e apanhar um pequeno susto quando vi um joelho sumir-se na neve. Foi o sinal de despertar e voltar atrás, para a firmeza do piso de alcatrão onde podia, em total segurança, olhar para as placas que, no meio da neve, indicavam a direção de terras perdidas por entre as montanhas, todas elas, estou certo, existindo sob o ominoso olhar da grande montanha suíça.



Argentina: o Aconcágua (ao centro)
Argentina (2006/12)

Da segunda vez que senti o apelo da montanha, fazia eu uma excursão de um dia pelos arredores de Mendoza (Argentina). Já para o final do trajeto, fomos levados até um local próximo da fronteira com o Chile, na estrada que, atravessando os Andes (*), liga Mendoza a Santiago do Chile.

A camioneta parou na berma da estrada e o guia fez-nos sair. A intenção era que pudéssemos ver, ao longe, o monte Aconcágua que, do alto do seus quase sete mil metros, reina sobre todo o continente americano. A paisagem era bela, como se esperaria. Um caminho mais ou menos pronunciado partia desde próximo da estrada em direção à montanha (que, na realidade, estava mais longe do que parecia), subindo e descendo ao sabor de suaves elevações cobertas de vegetação rasteira.

Não tínhamos muito tempo para estar ali. Ao fim de alguns minutos - que eu aproveitei para galgar umas centenas de metros -, ouvi a voz do guia que me chamava lá atrás. "Fraaaaaancoooo", gritava ele, acompanhando a chamada com um acenar largo. Olhei para o trilho que seguia rumo à natureza inóspita e invejei alguns viajantes que, mais à frente, por ele seguiam. Como eu teria gostado, também, de me lançar naquela caminhada...

Suspirei, puxei uma lufada daquele ar fresco e conformei-me com a necessidade de voltar à camioneta. E, ainda hoje, tantas vezes dou por mim pensando no que haveria para ver no trilho rumo ao Aconcágua... 

(*) Refira-se que, se se chama "alpinistas" aos exploradores dos Alpes, por maioria de razão se chama "andinistas" aos exploradores dos... Andes.




Islândia (2009/04/26) 

Skaftafell é um parque nacional islandês que fica, mais ou menos, no sudeste da ilha. De uma forma um bastante amadora, eu tinha planeado fazer uma caminhada que me levasse a um local onde uma nascente de água quente formava um lago onde era possível tomar banho. Atraía-me a ideia de penetrar na natureza e de, após alguns quilómetros, ser recompensado com uma confortável banhoca numa paisagem onde a neve marcasse forte presença. Exotismos, já se vê...

Por ter ido ver o famoso lago dos icebergues (o Jökulsárlón) e de ainda ter ido contemplar o glaciar adjacente ao parque, acabei por chegar à entrada de Skaftafell muito depois do que esperaria. Se bem que nenhum dos pontos anteriormente referidos deixasse de ser fundamental na minha viagem, a verdade é que a visita a ambos acabou por me impedir de concretizar o plano da caminhada pois, conforme me informaram na receção, o passeio levava, pelo menos, quatro horas para cada lado. Como já era perto do meio dia, dava para ver que, a menos que eu fosse inconsciente, nunca poderia fazer-me ao caminho do lago.

É claro que, uma coisa era eu não poder fazer a caminha e outra era eu ir-me embora. O parque estava ali e, dentro do tempo que eu tinha disponível, havia muito para ver. Depois de cirandar pela zona, de ir ver uma cascata e de me sentar a admirar a visão do glaciar que parecia não ter fim, comecei a caminhar rumo ao interior, por um trilho que amiúde se confundia com o terreno numa mistura de poças, pequenas zonas de neve e húmida vegetação rasteira. Acabei por dar por mim mais ou menos perdido. Valia-me o facto de "apenas" ter de voltar para trás para, mais tarde ou mais cedo, encontrar o caminho de volta. Ainda assim, apoderou-se de mim um certo desconforto, aumentado pela hora que avançava, pela ausência de outras pessoas e pela visão de umas montanhas lá ao fundo... Estas, cobertas de neve, reinavam sobre as suaves elevações que se alinhavam na sua direção e anunciavam-se-me como destino de contornos quase míticos para quem vencesse aquela distância, cruzando arbustos e riachos até ao momento em que todos os tons do campo se fundissem num imaculado branco.

Eu sabia que devia, que tinha de regressar até ao ponto onde existia um caminho seguro construído através daqueles campos mas, à minha frente, corria um regato em cujas margens se acumulavam placas de gelo e a partir desse ponto era à descoberta através do campo empapado. No fim, as montanhas...

Senti uma luta dentro de mim em que ao cobarde bom senso se opunha a aventurosa inconsciência. Voltar para mais tarde poder partir de novo ou partir para poder nunca mais voltar? Ganhou o bom senso e, ao fim de algum tempo (onde um pitada de angústia ainda chegou a aparecer), lá reencontrei o caminho feito com tábuas de madeira que me levaria à entrada do parque. As montanhas lá estão e eu também, mas aqui...


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Os "hotéis cápsula"

Quem perca um pouco de tempo a explorar as milhentas idiossincrasias japonesas irá, fatalmente, tropeçar nessa coisa tão aparentemente bizarra quanto os "hotéis cápsula" (*), locais onde os hóspedes são literalmente empilhados dentro de "caixas", em vez de ocuparem normalíssimos quartos.

O público alvo deste tipo de estabelecimentos é constituído, essencialmente, por aquelas pessoas que, por alguma razão, não conseguem (ou não podem) voltar a casa ao fim do dia e, claro, têm necessidade de um sítio onde pernoitarem. Gente que perdeu o último comboio, homens que se zangaram com as mulheres, pessoas que beberam demais... Enfim, pessoal que precisa de se desenrascar para não dormir na rua.

Embora para os japoneses os HC (abreviemos o termo para não cansar), sejam um mal menor, para o resto do mundo eles constituem uma coisa tão exoticamente engraçada como, por exemplo, as vénias. Nós podemos achar aquilo "esquisito" ou "parvo" mas não conseguimos deixar de nos sentir atraídos pelo conceito. A verdade é que este não tem nada de extraordinário e é em quase tudo equivalente aos nossos albergues. E só não é igual porque é... melhor. É que, enquanto num albergue os hóspedes não têm direito a mais do que uma cama num beliche, partilhando um quarto com várias outras pessoas, nos HC os beliches são substituídos pelas "cápsulas", que têm cortina, rádio, telefone e, até, televisão e ar condicionado. Como se isto não bastasse, por causa do conceito que está na raiz destes hotéis, os hóspedes ainda são "brindados" com um roupão, chinelos e produtos de higiene, tudo para que, no dia seguinte, aqueles possam voltar ao emprego ou a casa com o melhor aspeto possível. Querem melhor?

Um sítio modernaço: o "Nine Hours Hotel"
Quando estive no Japão, guardei para a minha penúltima noite em Tóquio a estadia num HC (a última noite seria passada no aeroporto). Tinha comigo a indicação de dois ou três estabelecimentos do género, todos eles situados numa mesma área da cidade. Eu tinha chegado do sul, numa pequena e pontualíssima sucessão de comboios que, finalmente, me tinham trazido de volta à capital. Já era noite e as ruas naquela zona começavam a ser mais frequentadas por vagabundos e bêbedos. Com toda a tralha às costas, eu ia seguindo o meu caminho, com a apreensão pela "fauna" com que me cruzava sempre combatida pela noção do respeito (ou indiferença) que aquela gente demonstra pelos outros.

Após passar por dois ou três HC sem que me sentisse tentado a entrar (na verdade, eu procurava o mais barato da lista que trazia), lá dei de caras com o prédio. Na receção, um sujeito de idade indefinida, com um soturno ar de "marrão", atendeu-me. Num tom muito calmo, misturando Inglês e Japonês, encaminhou-me para o andar onde ficava a minha camarata. Esta era constituída por oito ou dez "caixas", dispostas ao comprido e empilhadas aos pares. Havia ainda um cacifo por cada cápsula, dentro do qual estava um roupão de pano fino (ao estilo quimono de trazer por casa), um par de chinelos e um saquinho com escova e pasta para os dentes.

Não me fiz rogado e troquei o desconforto da mochila e das roupas de viagem pela leveza da indumentária guardada no cacifo. Dei um salto à casa de banho do andar (comum a mais do que uma camarata, portanto) e, despachado da higiene, entreguei-me, enfim, à exploração da minha "cápsula". Era uma caixa amarela, aberta a todo o comprimento e com uma cortina que conferia privacidade a quem dela sentisse necessidade. Olhei em volta e reparei que havia duas cortinas corridas. Tinha dois companheiros de quarto, portanto. O fundo da cápsula estava coberto por um colchão fino mas confortável e, para me tapar, tinha apenas um lençol. Verdade seja dita que mais não era preciso porque a camarata era aquecida. Do meu lado direito ficava toda uma consola que incluia rádio, candeeiro, ventoinha e telefone. Embora se notasse que o equipamento já não era recente, tudo funcionava e estava impecavelmente limpo. Dentro da cápsula, o conforto era total, havendo espaço mais do que suficiente para que eu me pudesse sentar à vontade.

A "minha" cápsula
Na manhã seguinte, tratada a higiene, apenas tive de deixar as roupas do hotel na "cama". A estadia já tinha sido paga na noite anterior. Lembro-me de que o preço era mais elevado do que num albergue mas mais barato do que num hotel, o que é perfeitamente compreensível. Para quem estivesse com fome, havia, na receção, máquinas com comida e bebidas (onde é que não as há, no Japão?...), que, a troco de umas poucas centenas de yenes, nos matariam a larica matinal (uma lata de café custava, na altura, 120 yenes, o que correspondia a 180$00, ou seja, €0,90).

Sei que, hoje em dia, já há umas muito tímidas tentativas de trazer o conceito do hotel cápsula para a Europa. Acho que é pena que esta forma de alojamento não esteja espalhada pelo mundo. Se há tanta coisa nipónica que as sociedades ocidentais adotaram, porque não esta também? A resposta estará no puro preconceito e na ideia de que as cápsulas são claustrofóbicas. Para combater isto, só há que experimentar. Por mim, trocava já os beliches em que sempre durmo por uma boa... cápsula.


(*) O termo "hotel cápsula" não é o mais correto. "Hotel de/com cápsulas", sim, seria um nome mais apropriado, já que não são propriamente os hotéis que são as cápsulas...

domingo, 29 de julho de 2012

domingo, 22 de julho de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 7 (Veneza)

2012/05/25

Proibido descansar

Ao lado da basílica de São Marcos há uma pequena praça - antiga claro -, quase toda ela ocupada por uma plataforma no meio da qual existe um dos inúmeros poços que se podem ver em Veneza e que asseguravam à população o abastecimento de água doce. Aproveitando a combinação da sombra projetada pela igreja e do "banco" que a plataforma é, muitos procuram ali retemperar forças antes de prosseguirem os seus passeios. 

Eu, por não querer ser exceção, também resolvi oferecer-me uns momentos de descanso. Mas, ainda as pernas não tinham tomado consciência da sua boa sorte, já eu observava um casal de jovens avisando os meus colegas de "banco" de que não podiam sentar-se ali. O duo vestia umas garridas camisolas indicando as suas importantes funções de "Guardas de São Marcos" (ou coisa que o valesse) e, um a um, iam desiludindo os presentes quanto às suas intenções de repouso. Embora cumprissem o seu irritante trabalho de forma simpática, não lhes dei oportunidade para que o fizessem comigo. Mesmo com um belo sorriso, chateia-me que me imponham proibições.

Esta "Guarda de São Marcos" não ataca só naquele ponto em particular mas em todo o recinto, impedindo que as pessoas se sentem nos concorridos degraus das arcadas ou que, sacado da mochila o farnel, se atrevam a comê-lo ali. A Praça de São Marcos, portanto, não quer que ninguém vá ficando por lá. E quem quiser "abancar", tem de fazê-lo num estabelecimento autorizado - entenda-se, "esplanada". Destas nem sequer me dei ao trabalho de ver preços mas, por relatos de outros que lá foram, parece que não são meigas a cobrar...

Na impossibilidade de descansar, continua-se, claro. E neste caso, isso implicou dar uma volta pelas arcadas, atravessar uma passagem coberta e ir dar a uma espécie de porto de gôndolas, local onde começa um dos circuitos pelo coração da cidade (há outros em zonas mais desafogadas como, por exemplo, o Grande Canal). A cena é bonita de ver porque, apesar de alguns edifícios mais modernos, o ambiente mantém-se cheio de "patine" e a esta é acrescida a cor da água e a alegria dos barcos (alguns deles muito decorados). 



As traseiras de São Marcos

Uma fila de turistas aguardava pacientemente a sua vez de embarcarem e, quase que ainda mais pacientemente, as gôndolas deslizavam dali para fora, carregadas de temporários marujos armados com máquinas fotográficas, e impelidas por aquele estranho movimento de um remo que mais parece um grande pau e que, em vez de bater na água, se limita a "rodopiar" (ocorre-me agora que a coisa faz lembrar alguém enrolando o macarrão com um garfo). Apreciei sossegadamente toda aquela cena antes de me enfiar pelas ruas que dali partiam, sem rota específica, apenas "andando por andar" (embora tivesse a esbatida ideia de voltar ao topo da Praça de São Marcos). Apesar do muito movimento, andava-se à vontade, sem encontrões e com toda a possibilidade de parar para apreciar o que nos apetecesse. 

Uma das graças de Veneza (e que é referida nos guias turísticos), é cirandar pelas ruelas, becos, pequenas praças, enfim, toda aquela rede de vias que da cidade não chegam, sequer, à categoria de artérias, mais ficando como uma espécie de capilares que se estendem aos cantinhos mais remotos e sossegados da urbe. Estes, podem ficar imediatamente ao lado das concorridas ruas do circuito turístico, à curta distância da travessia de uma pouco convidativa passagem coberta. E se escrevo pouco convidativa é porque, para o visitante mais "medroso", o aspeto velho e, às vezes, abandonado de muitos destes sítios pode causar algum receio de encontros desagradáveis. A verdade é que a segurança em Veneza parece ser total e isto é apontado por gente de todas as cores e feitios. Alguns dizem que é devido à pouca e idosa população local; outros que é por causa do relativo isolamento da cidade. Seja pelo que for, em Veneza anda-se despreocupadamente. Portanto, toca a invadir as ruelas, ala a ver as traseiras do circuito "pré-estabelecido" e a deliciarmo-nos com coisas que são velhas como o catano...

As recompensas que a cidade dá a quem a explore vêm em várias formas: locais onde descansar, tascas castiças onde comer ou a simples visão de uma gôndola passando docemente lá ao fundo, emoldurada pelas escuras paredes de prédios que já deviam ter caído há muito mas que se mantêm por saberem que nós contamos com que eles lá estejam.

sábado, 21 de julho de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 6 (Veneza)

2012/05/25

A basílica de São Marcos

Desde o fim da visita ao campanário de São Marcos até ao início da bicha para entrar na basílica iam uns poucos metros que fiz com o devido cuidado para não ser abalroado por um qualquer cardume de turistas em desordenada formação atrás de uma bandeirinha.

Chegado ao posto de espera e tomadas as devidas precauções para poder estar ali despreocupadamente, sem ter de manter um olho na mochila e outro no cigano (no sentido literal, já que a praga de "pedintes" romenos e búlgaros faz-se notar ali como em qualquer outro lugar), entretive-me apreciando lentamente a fachada da basílica (o edifício que alguns dizer ser uma igreja com umas enormes cebolas por cima - as diversas cúpulas). Imagem transmitida até à exaustão, não me impressionou por aí além. Talvez isto tenha a ver com o facto de, na sua envolvente, existirem outros edifícios que me chamaram mais a atenção e estes a poderem "abafar" mas a verdade é que, nunca negando a sua beleza geral ou dos pormenores que a compõem, a coisa não mexeu comigo. Havia esculturas interessantes, havia mosaicos bonitos (ajuda ter uma explicação daquilo que neles é representado) mas, ao fim de alguns minutos, a minha atenção já era, de novo, desviada para as arcadas da praça, para a torre do relógio, para o campanário e, claro, para o palácio ducal. As pessoas que iam passando também ajudavam a distrair-me, enquanto aguardava o momento de entrar.

Nos últimos metros antes da entrada, começo a reparar num aviso de proibição de entrada com mochilas. Não consigo entender o porquê desta obsessão (que se vê um pouco por todo o mundo), já que ninguém se sente incomodado pelas malas das mulheres e há mesmo locais onde a única coisa que nos pedem é que usemos a mochila a tiracolo, como se de uma mala se tratasse. Às costas, é que não pode ser. Mistérios da segurança... Olho à minha volta e vejo mais gente com mochilas como a minha (pequenina) mas, um pouco à frente, já dois turistas estavam a ser encaminhados para uma rua ali próxima onde se situa o bengaleiro da basílica. A perspetiva de ter de voltar à bicha após ir largar a mochila incomodava-me e decidi "arriscar". No momento de entrar, coloquei a mochila a tiracolo, do lado contrário àquele onde estava o guarda e... sucesso! Durante toda a visita, ninguém veio ter comigo, o que só prova como estas medidas de "segurança" são uma perfeita treta.

Uma vez no interior da basílica estamos - à semelhança do que acontece no palácio ducal -, sujeitos à proibição de tirar fotografias. Em muitos sítios existe uma restrição à utilização do flash mas há aqueles que são taxativos e não deixam, mesmo, o turista ficar com uma recordaçãozinha daquilo que está a ver. Se isto se traduz em venda de postais e livros, é coisa relativamente à qual tenho sérias dúvidas.

A entrada no monumento é - pasme-se! -, gratuita. Sim, leu bem: não se paga um tusto para entrar no principal monumento de Veneza. Mas isto não quer dizer que tudo seja à borla. A ida ao andar superior (onde fica o museu) é paga e há ainda a contemplação de uma obra que fica na zona por trás do altar, para a qual também é necessário comprar bilhete. A verdade é que, a menos que se esteja numa onda de "ver tudo" ou de "especialista", a basílica de São Marcos mostra-nos as suas belezas de graça. Eu, como não estava com espírito para museus, fiquei-me pelo circuito "gracioso".

São Marcos não é uma igreja que prime pela luz. Ao contrário da sua fachada, feita de pedra branca, o interior é escuro e, até, pesado. É bonito mas sem deslumbrar (para o nível de Itália, então, é mesmo coisa de segunda divisão), com grande profusão de mosaicos dourados. O estilo bizantino declara-se, ali, de forma categórica.

Embora tenha lido, num guia turístico, que a cada turista só eram permitidos dez minutos de permanência no interior, não vi qualquer tipo de limitação. Toda a gente andava perfeitamente à vontade, cada um ao seu ritmo. Talvez a restrição ocorra unicamente nas alturas do ano em que o fluxo de turistas é maior. Talvez nessas alturas se justifique, até, a reserva online de entradas (estive quase para fazer isto, perante os relatos de enormes filas) mas, naquele dia, visitar São Marcos era uma coisa perfeitamente descontraída. Ótimo!

Após dar as voltas que bem entendi (e torturar suficientemente o meu pescoço),  abandonei a igreja, fazendo ainda uma paragem no átrio para admirar algumas das coisas tão antigas que ali estão, nomeadamente, túmulos. Saía agradado mas não maravilhado. São Marcos é um ponto fundamental do roteiro turístico de Veneza mas, em caso de grande aperto de tempo, não creio que seja essencial a visita ao seu interior.

Porque, reciclar também pode ser um prazer...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Praia do Creiro (na continuação do Portinho da Arrábida).

Desde que não se olhe para a esquerda (onde está a cimenteira do Outão e as torres de Tróia), a paisagem é, no mínimo, bela.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 5 (Veneza)

Campanário e basílica de São Marcos
2012/05/25

O campanário de São Marcos

A Praça de São Marcos é dominada por uma espécie de sentinela de vermelho vestida e que é o campanário da basílica. Separado desta, constitui uma atração por si mesmo, quer pelo seu aspeto, quer pela possibilidade que dá aos turistas de a ele subirem e verem Veneza lá de cima.

O campanário que hoje vemos é uma reconstrução, já que o original ruiu há muito tempo. Mas que isso não nos faça ver na réplica qualquer coisa de menor. Para o comum dos visitantes, tudo ali passa como genuíno e mesmo que a nossa atenção fosse desviada por estas trivialidades "enciclopédicas", rapidamente nos focaríamos de novo no monumento ao ver a sua bonita "base" esculpida. E a verdade é que temos algum tempo para o fazer pois a bicha para entrar ainda pode demorar um pouco.

Enquanto se espera pelo momento de pagar os oito euros do ingresso e apanhar o elevador para o topo (sim, não se vai a pé...), pode-se apreciar todo o movimento à nossa volta. Na altura em que lá cheguei, a indústria turística local já carburava em pleno, com a praça invadida por uma multidão de visitantes - a solo ou em grupo -, e que, como seria de esperar, de uma forma mais ou menos caótica, cirandavam de cabeça levantada apreciando os monumentos. Veneza é daqueles sítios onde, em qualquer momento, podemos tirar uma espécie de fotografia da Humanidade, tal é a diversidade de pessoas que por ali andam.

Tomado o elevador e "desembarcado" no miradouro (como se chama o sítio onde ficam os sinos de um campanário?), o visitante tem como missão "embebedar" a vista com as diversas vistas da cidade. Sim, porque, para cada lado por onde se olhe (e são, pelo menos quatro), Veneza mostra-nos uma face variada mas sempre monumental. Um mar de casario ocre entrecortado pelo azul das águas e por torres e campanários estende-se pelo horizonte mais próximo para gáudio de todos aqueles que empunhem uma máquina fotográfica. Quem está acompanhado faz-se fotografar com a cidade como fundo; quem está só tira o dobro das fotografias...

Veneza vista do alto do campanário
A gente ali é muita e, por vezes, é preciso fazer fila para chegar aos parapeitos e captar uma imagem melhor. Ouvem-se muitas línguas, levam-se alguns encontrões, e o fluxo de pessoas que chegam confunde-se com aquelas que partem numa alegre confusão ainda aumentada por aquelas que se entretêm com a pequena loja de recordações ali existente. Não há limite de tempo de permanência naquela zona mas o movimento acaba por nos saturar e aliar-se à noção do muito que ainda temos pela frente para nos fazer alinhar na fila para descer.

O campanário de São Marcos não estava na minha primeira lista de visitas a fazer em Veneza mas a verdade é que, depois de lá ter estado, fiquei com a ideia de que é um sítio essencial onde ir. O preço que se paga - não deixando de ser "puxadote" -, acaba por não pesar na consciência quando nos vem à memória a paisagem a que só lá de cima se tem acesso.

domingo, 8 de julho de 2012

O Forte da Casa e o seu centro interpretativo

Forte da Casa
Eu nunca tinha ouvido falar do Forte da Casa. Já tinha passado várias vezes junto de Forte da Casa mas, por qualquer razão, nunca tinha associado o nome da localidade à existência de uma fortificação. Talvez porque o aspeto absolutamente desinteressante daquilo que se vê da estrada nunca tenha despertado a minha imaginação para a hipótese de, por trás da muralha de feios edifícios, poder haver qualquer coisa que me pudesse - ainda que remotamente -, interessar. Preconceito? Sim.

Durante o planeamento de um passeio até Vila Franca de Xira (naquela fase em que se anda a saltar de site em site), dei de caras com uma referência à existência, em Forte da Casa, de um dos muitos exemplares das construções militares que faziam parte da Linha de Torres [Vedras], essa magnífica sucessão de fortificações que tinha como objetivo (conseguido, diga-se), suster o avanço napoleónico na terceira invasão francesa, no Séc. XIX. Imediatamente acrescentei o local à minha rota.

Na devida altura, e após algumas voltas mais fruto de alguma azelhice do que, propriamente, de más indicações, lá dei por mim em frente dos restos da "Obra nº 38" (referência do local, no sistema defensivo). Se eu fosse à procura de um forte sólido e imponente, ter-me-ia desiludido imediatamente perante a visão de poucas pedras e muita terra mas eu já sabia do estado do conjunto e, verdade seja dita, a fortificação é perfeitamente identificável, apesar da degradação causada pelo tempo. No interior (muito bem arranjado, para local de passeio e descanso), existe um "centro interpretativo", coisa que, na minha experiência, pode oscilar entre um contentor vazio e um autêntico museu. No caso, estamos mais próximos da primeira situação.

O "Centro interpretativo do Forte da Casa", é uma pequena "caixa" de cor de ferrugem cujas paredes interiores estão cobertas com informação sobre as Linhas, informação essa que recorre a gravuras da época para nos dar uma ideia de como tudo aquilo era. Um dos painéis, apresenta um salto no texto, provavelmente correspondente à omissão de, pelo menos, meia frase. Assim foi feito e assim ficou... A um canto, um grande écran tátil mostra-nos uma desenxabida página de internet com ligações para conteúdos sobre o forte e o sistema defensivo. Carreguei num dos links com a perspetiva de ver um vídeo e apareceu-me um aviso de descarregamento de ficheiro para instalação. "Quer continuar com o download?", perguntou-me o computador - deixa lá, pá, fica para outra vez. De seguida, carreguei noutro link, e o chato do computador voltou a não me fazer a vontade porque... não tinha ligação à internet. Desisti, ao perceber que não ia sacar nada daquele aparelho.

Interior do Centro Interpretativo
Voltei-me para o pequeno balcão sobre o qual se alinhavam algumas publicações relativas às Linhas. A funcionária presente acompanhou o meu interesse com alguma conversa na qual me esclareceu logo que não tinha nada daquilo para venda e que eu teria de ir, pelo menos, a Alverca, ao núcleo museológico local. Ou aí ou a Vila Franca de Xira... Perante o mais do que óbvio interesse das publicações (uma das quais um guia pormenorizado das rotas disponíveis, com indicações GPS para tudo - um tesouro!, digo eu), senti-me tentado a voltar atrás uns poucos quilómetros para adquirir os livros. E ainda mais o fiquei quando soube dos preços obscenamente baratos daquilo (€1 por um guia de rotas e €5 por um grande livro com a história das Linhas). Era ala para Alverca que os livros estão à minha espera! (*)

Mas, o entusiasmo pela qualidade das publicações que eu procurava comprar e pelo seu preço simbólico, não podiam ocultar uma grande pergunta: para que serve o Centro Interpretativo do Forte da Casa? A informação mostrada nas paredes é pouca (e podia perfeitamente fazer parte dos painéis existentes no exterior); a informação no computador, pelos vistos, está inacessível (e, suspeito, que seja de pouco interesse); os livros mostrados não estão para venda... Então, para que serve aquilo? Para justificar um posto de trabalho?

A preservação do nosso património edificado vive muito de um certo voluntarismo que, por vezes, nos tenta fazer crer que coisas simples como uns painéis informativos ou um arranjo paisagístico são grandes progressos em prol do Património quando, na realidade, mais não passam do que o cumprir de pequenas obrigações básicas. Outras vezes, gastam-se mundos e fundos em "grandiosos" programas que, no fim, se traduzem em frios arranjos a leste das necessidades e interesses dos visitantes. Dir-se-á que tudo isto é melhor do que nada, melhor do que o abandono puro e simples. Obviamente que sim e, só mesmo em casos extremos, fazer algo é pior do que deixar estar mas... porque razão não se podem fazer as coisas - as pequenas coisas -, bem? Se se faz um centro interpretativo, ele tem de ser uma mais valia para o visitante e não somente uma acumulação de pequenos nadas que acabam por passar uma imagem frustrante para quem lá vai.

Indicada aqui a medida do meu desconsolo, termino com nota em sentido contrário: vale bem a pena, para quem é da capital (e não só, claro), gastar algum tempo percorrendo os sites dos municípios do distrito de Lisboa em busca de informação sobre o património neles existente. É uma agradável sensação de descoberta que só pode terminar com a exclamação "Tanta coisa para ver!".

(*) Em Alverca seria recebido por uma funcionária de inexcedível simpatia que, inclusivamente, me ofereceu um interessante livro sobre a localidade. Males que vêm por bem...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 4 (Veneza)

Ponte dos Suspiros
2012/05/25


Depois dos segredos, tudo o resto...

Terminada a visita aos "segredos" do palácio ducal, era tempo de ir fazer a visita "normal". Felizmente, em Itália - e no que diz respeito a palácios -, "normal" quer dizer "espantoso" e dificilmente alguém poderá ficar desiludido numa visita a qualquer edifício onde antigamente habitasse alguém de posses ou títulos. Obviamente que o poderoso Doge veneziano não poderia fugir à regra e logo nos primeiros passos nos apercebemos de que temos à nossa frente umas boas dores de pescoço, tal é a necessidade de admirar paredes e tetos magnificamente decorados.

De sala em salão, dei por mim visitando a coleção de armas antigas do palácio. Como os italianos antigos passavam a vida a guerrearem-se, o espólio militar que chegou aos nossos dias é bastante grande e podemos ali ver algumas peças bem interessantes, entre armas e armaduras. Depois das duas ou três salas dedicadas à arte da guerra, continuei a visita indo dar a uma pequena bicha que se formava para passar pela "Ponte dos suspiros" (um dos ex-libris da cidade), uma pequena passagem entre dois edifícios - sobre um canal -, e que, diz a história, foi assim chamada porque era usada pelos presos que por ali eram levados até às novas prisões mandadas construir pela República. Os suspiros, facilmente se entende, eram pela liberdade que se perdia... O engraçado é que, no interior, nós nem nos apercebemos de que estamos na ponte, tal é o despojamento decorativo do espaço. Do exterior, a beleza é inegável (embora eu ache que se exagera nas apreciações feitas) mas, lá dentro, o interesse é... nulo.

A visita às "novas prisões", essa, é interessante. Do luxo do palácio, passamos à fria nudez das celas. Algumas destas ainda mantêm mobiliário da época e é mesmo possível, nalguns casos, contemplar graffitti feitos pelos prisioneiros. Escusado é dizer que, se o pessoal do turismo enlatado fica todo contente por dizer que passou por dentro da famosa ponte (há, até, um atalho para saída dos mais apressados), o visitante mais inteligente (ou com mais tempo), não perderá a oportunidade de se passear calmamente pelas prisões, apreciando os muitos pormenores que, paradoxalmente, aquele espaço "vazio" oferece. Por mim, gostei bastante do contraste entre a simplicidade desta zona do complexo e a magnífica decoração de tudo o resto.

Sala del Maggior Consiglio
Saindo das prisões, é tempo de voltar à festa para a vista. Um pouco depois de se reentrar no palácio propriamente dito, chegamos  ao grande salão (cujo esquema para segurar o teto eu tinha podido ver na visita anterior - a "secreta"). Estamos a falar de um espaço enorme onde nem uma coluna existe. Tudo aquilo é uma imensa área, com tetos e paredes profusamente decorados (com pinturas), e onde, antigamente, se tinham de reunir milhares de pessoas para decidirem de questões do Estado. A expressão "à grande e à francesa", por vezes, parece-me algo injusta quando me lembro de algumas coisas que se veem em Itália... Se é certo que os Franceses sentiam necessidade de expressarem aquilo que julgavam ser a sua grandeza através de, por exemplo, o tamanho das avenidas das suas cidades, a verdade é que, apesar de eu ser um admirador incondicional do património gaulês, não posso deixar de confessar que em terras transalpinas, grandiosidade e beleza costumam andar de mãos dadas de uma maneira muito especial, para grande gozo de quem ali vá em demanda de algo com que entreter a vista.


Escadaria dos Gigantes
Dizer que, depois do grande salão (a "Sala del Maggior Consiglio"), nada mais tinha interesse seria pouco apropriado. Mas, é verdade que o local tem algo de "esmagador", e que é capaz de nos deixar um pouco "anestesiados" para o que ainda se segue. Este já não é muito mas ainda é capaz de nos manter agradados até chegarmos à loja do palácio e, atravessando esta, desembocarmos na "praça" interior, mesmo junto à escadaria dos gigantes - uma bela escadaria que, no topo, tem duas grandes esculturas. É um daqueles locais procurados para fotografias por toda a gente... Infelizmente, não se pode subir por ela e temos de nos ficar pelas suas imediações. 

Outra coisa que também merece levar com um "infelizmente" é a proibição de tirar fotografias do interior do palácio. Há quem as tire, no entanto e, diz-me a experiência, é "crime" que compensa porque nunca vi, em qualquer lugar, alguém ser obrigado a apagar as fotografias que tirou. É tudo uma questão de ter feitio para se fazer "desentendido".

Visto o Palazzo Ducale (com grande satisfação minha), havia que passar à "atração" seguinte. No meu plano de passeio, isso seria a subida ao campanário da Praça de São Marcos...

(continua)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A rua de lugar algum

Não seria de esperar que numa pequena localidade a imaginação aplicada à toponímia se esgotasse. Em aldeias e vilas não há qualquer necessidade de, por exemplo, recorrer à numeração para nomear ruas e assim ultrapassar a dificuldade de arranjar qualquer coisa com que batizar uma via. Mas, em Palmela (essa vila que tantos de nós nos habituámos a ver ao longe, quando apressados a caminho do Algarve), alguém achou que já era tempo de homenagear esse mítico lugar onde ninguém vai, onde ninguém vive...mas que faz parte de tantas das nossas pragas.

Desconheço a origem do curioso nome desta via palmelense que fica ali bem pertinho do ex-libris local - o castelo da Ordem de Santiago -, mas a rua, essa, guarda segredos bem antigos, como se pode ver por esta página da Câmara Municipal (Escavações arqueológicas na Rua de Nenhures)

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