domingo, 22 de julho de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 7 (Veneza)

2012/05/25

Proibido descansar

Ao lado da basílica de São Marcos há uma pequena praça - antiga claro -, quase toda ela ocupada por uma plataforma no meio da qual existe um dos inúmeros poços que se podem ver em Veneza e que asseguravam à população o abastecimento de água doce. Aproveitando a combinação da sombra projetada pela igreja e do "banco" que a plataforma é, muitos procuram ali retemperar forças antes de prosseguirem os seus passeios. 

Eu, por não querer ser exceção, também resolvi oferecer-me uns momentos de descanso. Mas, ainda as pernas não tinham tomado consciência da sua boa sorte, já eu observava um casal de jovens avisando os meus colegas de "banco" de que não podiam sentar-se ali. O duo vestia umas garridas camisolas indicando as suas importantes funções de "Guardas de São Marcos" (ou coisa que o valesse) e, um a um, iam desiludindo os presentes quanto às suas intenções de repouso. Embora cumprissem o seu irritante trabalho de forma simpática, não lhes dei oportunidade para que o fizessem comigo. Mesmo com um belo sorriso, chateia-me que me imponham proibições.

Esta "Guarda de São Marcos" não ataca só naquele ponto em particular mas em todo o recinto, impedindo que as pessoas se sentem nos concorridos degraus das arcadas ou que, sacado da mochila o farnel, se atrevam a comê-lo ali. A Praça de São Marcos, portanto, não quer que ninguém vá ficando por lá. E quem quiser "abancar", tem de fazê-lo num estabelecimento autorizado - entenda-se, "esplanada". Destas nem sequer me dei ao trabalho de ver preços mas, por relatos de outros que lá foram, parece que não são meigas a cobrar...

Na impossibilidade de descansar, continua-se, claro. E neste caso, isso implicou dar uma volta pelas arcadas, atravessar uma passagem coberta e ir dar a uma espécie de porto de gôndolas, local onde começa um dos circuitos pelo coração da cidade (há outros em zonas mais desafogadas como, por exemplo, o Grande Canal). A cena é bonita de ver porque, apesar de alguns edifícios mais modernos, o ambiente mantém-se cheio de "patine" e a esta é acrescida a cor da água e a alegria dos barcos (alguns deles muito decorados). 



As traseiras de São Marcos

Uma fila de turistas aguardava pacientemente a sua vez de embarcarem e, quase que ainda mais pacientemente, as gôndolas deslizavam dali para fora, carregadas de temporários marujos armados com máquinas fotográficas, e impelidas por aquele estranho movimento de um remo que mais parece um grande pau e que, em vez de bater na água, se limita a "rodopiar" (ocorre-me agora que a coisa faz lembrar alguém enrolando o macarrão com um garfo). Apreciei sossegadamente toda aquela cena antes de me enfiar pelas ruas que dali partiam, sem rota específica, apenas "andando por andar" (embora tivesse a esbatida ideia de voltar ao topo da Praça de São Marcos). Apesar do muito movimento, andava-se à vontade, sem encontrões e com toda a possibilidade de parar para apreciar o que nos apetecesse. 

Uma das graças de Veneza (e que é referida nos guias turísticos), é cirandar pelas ruelas, becos, pequenas praças, enfim, toda aquela rede de vias que da cidade não chegam, sequer, à categoria de artérias, mais ficando como uma espécie de capilares que se estendem aos cantinhos mais remotos e sossegados da urbe. Estes, podem ficar imediatamente ao lado das concorridas ruas do circuito turístico, à curta distância da travessia de uma pouco convidativa passagem coberta. E se escrevo pouco convidativa é porque, para o visitante mais "medroso", o aspeto velho e, às vezes, abandonado de muitos destes sítios pode causar algum receio de encontros desagradáveis. A verdade é que a segurança em Veneza parece ser total e isto é apontado por gente de todas as cores e feitios. Alguns dizem que é devido à pouca e idosa população local; outros que é por causa do relativo isolamento da cidade. Seja pelo que for, em Veneza anda-se despreocupadamente. Portanto, toca a invadir as ruelas, ala a ver as traseiras do circuito "pré-estabelecido" e a deliciarmo-nos com coisas que são velhas como o catano...

As recompensas que a cidade dá a quem a explore vêm em várias formas: locais onde descansar, tascas castiças onde comer ou a simples visão de uma gôndola passando docemente lá ao fundo, emoldurada pelas escuras paredes de prédios que já deviam ter caído há muito mas que se mantêm por saberem que nós contamos com que eles lá estejam.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Textos relacionados