terça-feira, 31 de julho de 2012

Lá ao longe

Aconteceu-me três vezes, e sempre em ambiente de montanha: olhar para um caminho que entrava pela paisagem adentro, rumo a um bonito horizonte, e sentir uma espécie de força a puxar-me, uma coisa quase ao ponto de me causar, literalmente, medo de perder o controlo sobre as minhas decisões e... partir. Partir pela necessidade da caminhada, arrancar pela pura aventura, ir sabe-se lá por onde mas sempre com os olhos postos na hipnotizante montanha lá ao fundo, como se ela ali estivesse só para me receber, anunciando um novo mundo no fim do trajeto.

Suíça:o monte Matterhorn
Suíça (2005/11/11)

A primeira vez que senti esta perturbante sensação foi na Suíça. Estava em Gornergrat, um local em plenos Alpes onde termina uma linha de comboio turística (que maravilha de viagem!) e onde está um observatório astronómico. A paisagem estava coberta de neve e, caso nos desviássemos da estrada que ia da paragem do comboio até ao observatório, imediatamente podíamos dar por nós atascados até ao joelho o que, mesmo com botas e polainas, era desconfortável (para já não dizer perigoso). 

Havia poucos turistas por ali e a loja de recordações não estava a ter grande movimento. O observatório - a única construção de monta existente -, estava fechado e nada mais restava a quem por ali estivesse senão aguardar pela partida do comboio de retorno a Zermatt. Para fazer tempo, as poucas almas iam ao miradouro, contemplavam a magnífica paisagem e observavam algumas aves que por ali brincavam.

Daquele sítio (tal como de muitos outros), via-se um dos ícones da Suíça, o monte Matterhorn. O cenário não necessitava deste último para ser magnífico mas a sua presença conferia uma imponência muito particular à paisagem. O céu não podia estar mais azul, a terra estava coberta de branco e, ao longe, a enorme mole rochosa do Matterhorn (o monte é tão íngreme que a neve pouco se acumula) rompia do chão como uma garra que quisesse ferir os céus. Ninguém de perfeito juizo podia ficar indiferente àquilo tudo. Era como um vai e vem entre a placidez e a ira da natureza.

Meti-me a caminhar um pouco fora de trilho, só o suficiente para tirar umas fotografias e apanhar um pequeno susto quando vi um joelho sumir-se na neve. Foi o sinal de despertar e voltar atrás, para a firmeza do piso de alcatrão onde podia, em total segurança, olhar para as placas que, no meio da neve, indicavam a direção de terras perdidas por entre as montanhas, todas elas, estou certo, existindo sob o ominoso olhar da grande montanha suíça.



Argentina: o Aconcágua (ao centro)
Argentina (2006/12)

Da segunda vez que senti o apelo da montanha, fazia eu uma excursão de um dia pelos arredores de Mendoza (Argentina). Já para o final do trajeto, fomos levados até um local próximo da fronteira com o Chile, na estrada que, atravessando os Andes (*), liga Mendoza a Santiago do Chile.

A camioneta parou na berma da estrada e o guia fez-nos sair. A intenção era que pudéssemos ver, ao longe, o monte Aconcágua que, do alto do seus quase sete mil metros, reina sobre todo o continente americano. A paisagem era bela, como se esperaria. Um caminho mais ou menos pronunciado partia desde próximo da estrada em direção à montanha (que, na realidade, estava mais longe do que parecia), subindo e descendo ao sabor de suaves elevações cobertas de vegetação rasteira.

Não tínhamos muito tempo para estar ali. Ao fim de alguns minutos - que eu aproveitei para galgar umas centenas de metros -, ouvi a voz do guia que me chamava lá atrás. "Fraaaaaancoooo", gritava ele, acompanhando a chamada com um acenar largo. Olhei para o trilho que seguia rumo à natureza inóspita e invejei alguns viajantes que, mais à frente, por ele seguiam. Como eu teria gostado, também, de me lançar naquela caminhada...

Suspirei, puxei uma lufada daquele ar fresco e conformei-me com a necessidade de voltar à camioneta. E, ainda hoje, tantas vezes dou por mim pensando no que haveria para ver no trilho rumo ao Aconcágua... 

(*) Refira-se que, se se chama "alpinistas" aos exploradores dos Alpes, por maioria de razão se chama "andinistas" aos exploradores dos... Andes.




Islândia (2009/04/26) 

Skaftafell é um parque nacional islandês que fica, mais ou menos, no sudeste da ilha. De uma forma um bastante amadora, eu tinha planeado fazer uma caminhada que me levasse a um local onde uma nascente de água quente formava um lago onde era possível tomar banho. Atraía-me a ideia de penetrar na natureza e de, após alguns quilómetros, ser recompensado com uma confortável banhoca numa paisagem onde a neve marcasse forte presença. Exotismos, já se vê...

Por ter ido ver o famoso lago dos icebergues (o Jökulsárlón) e de ainda ter ido contemplar o glaciar adjacente ao parque, acabei por chegar à entrada de Skaftafell muito depois do que esperaria. Se bem que nenhum dos pontos anteriormente referidos deixasse de ser fundamental na minha viagem, a verdade é que a visita a ambos acabou por me impedir de concretizar o plano da caminhada pois, conforme me informaram na receção, o passeio levava, pelo menos, quatro horas para cada lado. Como já era perto do meio dia, dava para ver que, a menos que eu fosse inconsciente, nunca poderia fazer-me ao caminho do lago.

É claro que, uma coisa era eu não poder fazer a caminha e outra era eu ir-me embora. O parque estava ali e, dentro do tempo que eu tinha disponível, havia muito para ver. Depois de cirandar pela zona, de ir ver uma cascata e de me sentar a admirar a visão do glaciar que parecia não ter fim, comecei a caminhar rumo ao interior, por um trilho que amiúde se confundia com o terreno numa mistura de poças, pequenas zonas de neve e húmida vegetação rasteira. Acabei por dar por mim mais ou menos perdido. Valia-me o facto de "apenas" ter de voltar para trás para, mais tarde ou mais cedo, encontrar o caminho de volta. Ainda assim, apoderou-se de mim um certo desconforto, aumentado pela hora que avançava, pela ausência de outras pessoas e pela visão de umas montanhas lá ao fundo... Estas, cobertas de neve, reinavam sobre as suaves elevações que se alinhavam na sua direção e anunciavam-se-me como destino de contornos quase míticos para quem vencesse aquela distância, cruzando arbustos e riachos até ao momento em que todos os tons do campo se fundissem num imaculado branco.

Eu sabia que devia, que tinha de regressar até ao ponto onde existia um caminho seguro construído através daqueles campos mas, à minha frente, corria um regato em cujas margens se acumulavam placas de gelo e a partir desse ponto era à descoberta através do campo empapado. No fim, as montanhas...

Senti uma luta dentro de mim em que ao cobarde bom senso se opunha a aventurosa inconsciência. Voltar para mais tarde poder partir de novo ou partir para poder nunca mais voltar? Ganhou o bom senso e, ao fim de algum tempo (onde um pitada de angústia ainda chegou a aparecer), lá reencontrei o caminho feito com tábuas de madeira que me levaria à entrada do parque. As montanhas lá estão e eu também, mas aqui...


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