segunda-feira, 30 de julho de 2012

Os "hotéis cápsula"

Quem perca um pouco de tempo a explorar as milhentas idiossincrasias japonesas irá, fatalmente, tropeçar nessa coisa tão aparentemente bizarra quanto os "hotéis cápsula" (*), locais onde os hóspedes são literalmente empilhados dentro de "caixas", em vez de ocuparem normalíssimos quartos.

O público alvo deste tipo de estabelecimentos é constituído, essencialmente, por aquelas pessoas que, por alguma razão, não conseguem (ou não podem) voltar a casa ao fim do dia e, claro, têm necessidade de um sítio onde pernoitarem. Gente que perdeu o último comboio, homens que se zangaram com as mulheres, pessoas que beberam demais... Enfim, pessoal que precisa de se desenrascar para não dormir na rua.

Embora para os japoneses os HC (abreviemos o termo para não cansar), sejam um mal menor, para o resto do mundo eles constituem uma coisa tão exoticamente engraçada como, por exemplo, as vénias. Nós podemos achar aquilo "esquisito" ou "parvo" mas não conseguimos deixar de nos sentir atraídos pelo conceito. A verdade é que este não tem nada de extraordinário e é em quase tudo equivalente aos nossos albergues. E só não é igual porque é... melhor. É que, enquanto num albergue os hóspedes não têm direito a mais do que uma cama num beliche, partilhando um quarto com várias outras pessoas, nos HC os beliches são substituídos pelas "cápsulas", que têm cortina, rádio, telefone e, até, televisão e ar condicionado. Como se isto não bastasse, por causa do conceito que está na raiz destes hotéis, os hóspedes ainda são "brindados" com um roupão, chinelos e produtos de higiene, tudo para que, no dia seguinte, aqueles possam voltar ao emprego ou a casa com o melhor aspeto possível. Querem melhor?

Um sítio modernaço: o "Nine Hours Hotel"
Quando estive no Japão, guardei para a minha penúltima noite em Tóquio a estadia num HC (a última noite seria passada no aeroporto). Tinha comigo a indicação de dois ou três estabelecimentos do género, todos eles situados numa mesma área da cidade. Eu tinha chegado do sul, numa pequena e pontualíssima sucessão de comboios que, finalmente, me tinham trazido de volta à capital. Já era noite e as ruas naquela zona começavam a ser mais frequentadas por vagabundos e bêbedos. Com toda a tralha às costas, eu ia seguindo o meu caminho, com a apreensão pela "fauna" com que me cruzava sempre combatida pela noção do respeito (ou indiferença) que aquela gente demonstra pelos outros.

Após passar por dois ou três HC sem que me sentisse tentado a entrar (na verdade, eu procurava o mais barato da lista que trazia), lá dei de caras com o prédio. Na receção, um sujeito de idade indefinida, com um soturno ar de "marrão", atendeu-me. Num tom muito calmo, misturando Inglês e Japonês, encaminhou-me para o andar onde ficava a minha camarata. Esta era constituída por oito ou dez "caixas", dispostas ao comprido e empilhadas aos pares. Havia ainda um cacifo por cada cápsula, dentro do qual estava um roupão de pano fino (ao estilo quimono de trazer por casa), um par de chinelos e um saquinho com escova e pasta para os dentes.

Não me fiz rogado e troquei o desconforto da mochila e das roupas de viagem pela leveza da indumentária guardada no cacifo. Dei um salto à casa de banho do andar (comum a mais do que uma camarata, portanto) e, despachado da higiene, entreguei-me, enfim, à exploração da minha "cápsula". Era uma caixa amarela, aberta a todo o comprimento e com uma cortina que conferia privacidade a quem dela sentisse necessidade. Olhei em volta e reparei que havia duas cortinas corridas. Tinha dois companheiros de quarto, portanto. O fundo da cápsula estava coberto por um colchão fino mas confortável e, para me tapar, tinha apenas um lençol. Verdade seja dita que mais não era preciso porque a camarata era aquecida. Do meu lado direito ficava toda uma consola que incluia rádio, candeeiro, ventoinha e telefone. Embora se notasse que o equipamento já não era recente, tudo funcionava e estava impecavelmente limpo. Dentro da cápsula, o conforto era total, havendo espaço mais do que suficiente para que eu me pudesse sentar à vontade.

A "minha" cápsula
Na manhã seguinte, tratada a higiene, apenas tive de deixar as roupas do hotel na "cama". A estadia já tinha sido paga na noite anterior. Lembro-me de que o preço era mais elevado do que num albergue mas mais barato do que num hotel, o que é perfeitamente compreensível. Para quem estivesse com fome, havia, na receção, máquinas com comida e bebidas (onde é que não as há, no Japão?...), que, a troco de umas poucas centenas de yenes, nos matariam a larica matinal (uma lata de café custava, na altura, 120 yenes, o que correspondia a 180$00, ou seja, €0,90).

Sei que, hoje em dia, já há umas muito tímidas tentativas de trazer o conceito do hotel cápsula para a Europa. Acho que é pena que esta forma de alojamento não esteja espalhada pelo mundo. Se há tanta coisa nipónica que as sociedades ocidentais adotaram, porque não esta também? A resposta estará no puro preconceito e na ideia de que as cápsulas são claustrofóbicas. Para combater isto, só há que experimentar. Por mim, trocava já os beliches em que sempre durmo por uma boa... cápsula.


(*) O termo "hotel cápsula" não é o mais correto. "Hotel de/com cápsulas", sim, seria um nome mais apropriado, já que não são propriamente os hotéis que são as cápsulas...

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