terça-feira, 14 de agosto de 2012

As Pousadas de Juventude

Não sei se, nas muitas coisas que aqui escrevi, já disse que sou fan das Pousadas de Juventude. Se, por acaso ainda não o fiz, então, permitam-me que o faça agora mesmo: "Sou fan das Pousadas de Juventude!". Pronto, já está.

Esta rede de estabelecimentos hoteleiros gerida pelo Estado - e que tem como objetivo principal proporcionar à malta jovem alojamento barato -, é daquelas coisas que, de tão boa que é, até nos deixa desconfiados. Olhar para uma tabela de preços e ver que o preço de uma noite em camarata oscila entre os €11 e os €15 pode deixar-nos de pé atrás perante a bondade da esmola e, quando a isto acresce o termo "juventude", então, até o pé que está à frente pode decidir procurar a companhia do seu desconfiado par. Se isto acontecer, é claro que o incauto pobre se espalha à grande... E porquê? Porque, não só o preço baixo não é indicativo de más condições como também estes albergues dificilmente têm como clientela maioritária os jovens o que, convenhamos, acaba por ser uma boa notícia para quem tem pouca paciência para a excessiva energia adolescente. Casais, famílias inteiras (sim, com crianças), e adultos solitários são os tipos de hóspedes que mais comummente se encontra.

Antigamente, as Pousadas de Juventude chamavam-se "Albergues de Juventude". A necessidade tão lusa de "parecer bem" ditou a atualização da designação (quiçá na peugada das famosas Pousadas de Portugal). Mas o cartão que dá acesso aos estabelecimentos (quem não o tenha pode comprá-lo na receção de qualquer um) manteve durante anos o nome de "Cartão de Alberguista" sem que ninguém se sentisse pior por isso. Aliás, o termo "albergue" ainda é usado em todas as traduções para Português nos sites internacionais de reservas hoteleiras. Apenas em Portugal se tem vergonha da palavra "albergue", camuflando-a com um pomposo "pousada" ou um estúpido e estrangeiro "hostel", agora tão em voga entre a modernaça comunidade urbana. Podem ir buscar os mais rebuscados argumentos que, no fim, tudo se resume ao mesmo: pessoas partilhando quartos.

Quarto em Alvados/Porto de Mós
(sim, é um candeeiro Philippe Starck)
Mas as Pousadas de Juventude vão além do comum esquema de beliches em camaratas já que também dispõem de quartos clássicos. Hoje mesmo, uma promoção anuncia quatro noites em quarto duplo (com casa de banho) por apenas €80. Isto dá €20 por noite. Arranjem lá um hotel com preços semelhantes!...

Faço uma lista mental das "pousadas" onde já fiquei em Portugal: Leiria, Aveiro, Braga, Guimarães, Guarda, Castelo Branco, Lousã, Coimbra, Idanha-a-Nova, Lagos, Funchal, Alvados e Alfeizerão. De todas estas, talvez apenas uma ou duas vezes tenha ficado descontente com a estadia. E poucas terão sido as vezes em que tive, sequer, de partilhar quartos. É que, infelizmente (para a rede) e felizmente (para o turista), a maior parte das pousadas não parece ser particularmente concorrida, dando oportunidade a que os seus responsáveis distribuam os hóspedes de forma mais confortável para estes. O cúmulo desta situação deu-se no Funchal onde a política da casa ditava que não podia haver mistura de pessoas de origens diferentes (entenda-se, que não viajassem juntas). O resultado foi que, durante cinco noites, eu tive, só para mim, um quarto preparado para seis ou oito pessoas. Um luxo!

Há pousadas mais "gastas" (grandes centros urbanos e zonas de férias) e outras que são tão bem arranjadas que quase nos apetece fazer delas a nossa casa. A Lousã e Guimarães são bons exemplos disto. A primeira  estando num edifício construído de raiz, decorado de forma moderna e onde nada foi descuidado em termos de aspeto; a segunda, sendo a recuperação de um casarão minhoto em pleno centro antigo e mantendo um belo equilíbrio entre a sofisticação e a tradição arquitetónica. Alvados, ali encostadinha à Serra de Aire e Candeeiros, tem uma sala de estar tão boa que ninguém desdenharia tê-la como sua e, no caso da unidade do Alfeizerão (São Martinho do Porto), nem uma lareira falta à sua sala em estilo clássico (na realidade, a única coisa de que sentimos falta é de um simpático cão para se vir deitar sobre as nossas pantufas).

Arrifana/Aljezur (esta, falta-me no currículo)
O pessoal também costuma ser agradável, sendo, geralmente, as empregadas das cantinas os elementos mais simpáticos. De meia idade em frente, costumam ter o sorriso fácil de quem tem aquele gosto maternal em dar de comer aos outros logo pela manhã. E não são, necessariamente, rigorosas no que diz respeito às doses a que cada hóspede tem direito.

Vem a questão da comida a propósito porque me ocorreu-me escrever este texto quando, recentemente, tomava o pequeno almoço no agradabilíssimo albergue de Alvados/Porto de Mós. Estava na "cantina" e, para passar o tempo entre mastigadelas, dei por mim a ler a lista dos direitos do hóspede no que dizia respeito a pequeno almoço: dois pães, uma fatia de queijo, uma fatia de fiambre, um pacotinho de manteiga, um pacotinho de compota, café, chá, sumo de laranja, água, leite, flocos e iogurte. Chega, ou também querem um bitoque? :)

Conheçam o nosso país e usem as (boas) Pousadas de Juventude. E, depois, não passem a vida a dizer que os vossos impostos não servem para nada... 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Textos relacionados