sábado, 11 de agosto de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 8 (Veneza)

2012/05/25

As minhas deambulações acabaram por me levar até um dos pontos de que mais gostei em Veneza: a zona de canais nas traseiras do Teatro Fenice. Bom, quem diz "traseiras" também pode dizer "frente" que, por lá, as duas coisas confundem-se amiúde, por força da existência de entradas diferentes para quem venha a pé ou de barco.

O Teatro Fenice tem um nome que não podia vir mais a propósito ("Fénix") já que, tal como a mítica ave, também ele ardeu e renasceu das cinzas. Woody Allen chegou, até, a oferecer os proveitos de um concerto seu para ajudar à recuperação da sala. 

Cheguei ao local vindo de uma ruela ao fundo da qual vi água. Estava cansado e precisado de uma pausa e, ao longe, o sítio pareceu-me agradável. Uma vez lá chegado,  este adjetivo mudou para "belo". Trata-se de uma área onde confluem vários canais e que é mais larga do que o costume, formando uma espécie de "praça" na água. Apenas de um lado existe uma zona pedestre, acabando esta, depois de uma ponte, no teatro ou, no lado oposto, continuando para outra ponte (mais antiga), rumo ao Campo Sant'Angelo. Não havia praticamente ninguém por ali e, em busca de conforto e sombra, sentei-me nuns degraus que desciam para o canal. Fitei a água e pensei nela como possível remédio para a fatiga dos pés, encafuados que estavam numas pesadas botas militares. Um certo pudor, misturado com o medo da falta de higiene da água, impediu-me de levar avante o "tratamento". Deixei-me ficar, intercalando momentos de fotografia com outros de puro dolce fare niente, apenas sentindo a leve brisa que ocasionalmente surgia e ouvindo os poucos sons que me chegavam da envolvente.

De vez em quando, uma gôndola passava por onde eu estava. Se viesse da esquerda, o espetáculo durava algum tempo, entregando-me eu a "trocar" fotografias com os ocupantes das embarcações enquanto estas deslizavam placidamente a caminho de outro canal. Mas, se os bonitos barcos viessem da minha direita, tapado que estava por uma esquina, apenas me restava concentrar a atenção nos incompreensíveis sons que os gondoleiros faziam como aviso à navegação.

Foi numa destas situações que ouvi, pela primeira e única vez, uma destas figuras cantar. Sim, eu estava, finalmente, a ter a oportunidade de presenciar um daqueles momentos míticos que só aparecem nos filmes: um gondoleiro, em Veneza, cantando enquanto passeava pelos canais. Mas, como nada é perfeito, o homem não se entregava, propriamente, à execução do repertório clássico do cançonetismo romântico italiano, optando, antes, por aplicar as suas capacidades capacidades vocais em qualquer coisa mais chã e inidentificável para mim. Pouco importava porque o momento era engraçado à mesma. Lentamente, a voz do artista foi aumentando de volume conforme ele se aproximava, sempre escondido pelo prédio junto do qual eu estava. Finalmente, surgida da estreiteza de um canal, uma gôndola apareceu... vazia. Sim, o gondoleiro cantava só para si... Ainda não era desta que a pitoresca fantasia tantas vezes mostrada nas fitas americanas se tornava realidade.

Recuperado o corpo no que era possível, parti para mais Veneza.

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