terça-feira, 7 de agosto de 2012

O chao min

Chao min
As apreciações generalistas à culinária de um país têm o problema de todas as opiniões que se baseiam no conhecimento de uma ínfima parte de qualquer coisa. Na impossibilidade de provarmos todos os pratos ou, pelo menos, uns bons representantes da arte de fazer comida de cada sítio deste mundo em que estamos, não nos resta senão ceder à tentação de tomar o particular pelo todo e dizer coisas como "a comida inglesa não presta" ou "a comida mexicana é magnífica", quase sempre baseados numa "mutação" do original, feita para agradar a gostos estrangeiros. Há, portanto, que tentar ir à origem sempre que for possível e provar os pratos na sua terra natal.

Fan que sou (e sempre fui) da comida chinesa, não podia estar menos preparado para o choque que foi a minha primeira ida a Macau...

Levado pela minha irmã - à guisa de boas vindas -, a almoçar num restaurante na Praça do Leal Senado, sentei-me com a alegre expetativa de provar o que apenas poderia ser uma versão mais apurada do cardápio numerado à minha disposição em Lisboa. Como me enganei... Do primeiro ao último dia na Cidade do Santo Nome de Deus de Macau, Não Há Outra Mais Leal, com a honrosíssima exceção do estupendo "chao min", a comida chinesa foi uma desilusão constante que teve como momento inaugural o atrás citado almoço e o segundo em que eu levei à boca um pedaço de gengibre (coisa que nunca tinha provado), e que ainda hoje acredito ser a experiência mais parecida com engolir um trago de perfume.

Bem que me afiançaram que a comida mais parecida com a "nossa" culinária chinesa era a de Xangai (e lá iam os portugueses ao restaurante "Shangai", para matarem saudades), bem que me disseram que havia coisas boas e que era uma questão de hábito...

As "arcadas" em Coloane
Em duas idas a Macau (com prova de pratos macaenses) e umas passagens pela China e Hong Kong, não consegui enamorar-me por mais do que o já citado "chao min". Este, fosse numa vulgar tasca de rua, ou nas "arcadas" de Coloane (um dos locais de peregrinagem gastronómica da população lusa), era qualquer coisa de sublime e nunca consegui encontrar por cá algo que se aproximasse do gosto da massa, do molho e da carne que provei naquelas distantes paragens. E não é que eu não tenha tentado repetir, em solo pátrio, os deliciosos momentos em que levava uma garfalhada de fina massa e tenra carne às minhas goelas escancaradas. Eu tentei, sim senhor. Nos tempos mais próximos dos meus dois regressos, uma ida a um restaurante chinês implicava sempre perguntas como "Tem chao min como se faz em Macau?" ou "Fazem chao min com aquela massa fininha?". A resposta era sempre um decidido "sim", ou não fossem os chineses... chineses (nunca se diz que não, há que não perder a face e... fazer negócio). Mas, no fim, o "esparguete" servido era qualquer coisa que apenas me deixava com uma sensação entre o desconsolo e a irritação por ser "enganado".

Com o tempo, desisti de encontrar em Lisboa o pitéu oriental. Talvez um dia volte a Macau. Se isso acontecer, antes de ir experimentar os novos exotismos que nos permitem passear em ruas holandesas ou navegar em canais venezianos - :( -, vou logo direitinho ao primeiro canto que encontrar aberto, para atacar ferozmente a maior pratalhada de "chao min" que me puderem servir. E nunca os meus olhos redondos parecerão mais abertos àquelas gentes...


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