domingo, 16 de setembro de 2012

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 11 (Veneza)

A zona de San Giacomo di Rialto
2012/05/25

Do lado de lá da Ponte Rialto há mais Veneza. Muito mais, mesmo.

No prolongamento da ponte, a rua estreita bastante, tal é a quantidade de bancas vendendo recordações e comida. Estamos a entrar na área conhecida por San Polo que era a antiga zona comercial da cidade, onde estavam os mercados de peixe e outros produtos alimentares.

Como de costume, quem segue um dos passeios indicados nos guias da American Express pode contar em ver o essencial. No caso de San Polo, isso quer dizer que visitamos os mercados, passeamos sob as arcadas, vemos as lojas de rua, admiramos os edifícios e encontramos os principais "postais" locais. Mas isso, sendo já muito, ainda pode ser complementado com a passagem nas ruelas que ligam as principais vias da rota indicada. E se formos suficientemente distraídos para não darmos com o nome de uma rua, então, aquilo que poderia ser um desejo, torna-se numa inevitabilidade e, enquanto andamos à procura do próximo ponto de paragem, aproveitamos para conhecer os lados menos vistos da terra. Bem sei que me repito neste "conselho" mas a verdade é que acho que visitar as "traseiras" dos pontos turísticos é uma coisa perto de fundamental.

Eu queria seguir a Ruga Vecchia San Giovanni (*) mas a curiosidade que senti por uma varanda florida fez-me desviar do caminho. Passo puxa passo e, após algumas voltas, a rota já estava toda baralhada. Ainda assim, consegui ir dar ao Campo Sant'Aponal onde está uma igreja junto da qual alguns jovens vestidos à maneira do Séc. XVIII (trajos populares), distribuiam publicidade relativa a uma ópera que se iria realizar num outro templo da cidade. A igreja estava fechada mas os turistas pareciam compensar a desilusão com as fotografias que tiravam às pitorescas figuras. 

Igreja de Santa Maria Gloriosa dei Frari
Um dos elementos mais notáveis de San Polo é a igreja de Santa Maria Gloriosa dei Frari, cujo interior alberga magníficos conjuntos escultóricos. A igreja fica numa praça junto a um pequeno canal e era para lá que eu me dirigia de forma mais ou menos consciente.

A fome apertava e, ao passar numa zona de maior movimento, junto a uma grande praça e onde havia muitos comes e bebes, resolvi carregar baterias entrando num snack árabe que por ali havia. "Árabe"?! Bem, era tudo e mais alguma coisa... Em Itália há-os por todo o lado: estabelecimentos de aspeto completamente informal que servem bebidas frescas e fazem sandes, "rolos", pizzas, shoarmas e coisas do tipo. Aquele, por causa dos donos, era mais para o árabe. Um belo rolo com atum e uma cerveja, comidos enquanto estava sentado num pequeno banco, encostado a uma estreita prateleira presa a uma parede coberta de pequenas mensagens deixadas pelos visitantes daquela loja. Havia-as em todas as línguas mas, nas que eu era capaz de entender, eram sempre feitos grandes elogios à qualidade da comida e à simpatia dos empregados. Um ou outro papel com ofertas de emprego tentava impor-se, pelo tamanho, aos post-it dos turistas.

Os "rolos" são das coisas mais práticas e baratas para matar a fome. Imagine-se uma base de massa fina, com uma camada de fiambre, outra de queijo, outra de, por exemplo, atum e, depois, tudo aquilo enrolado com bastante força até formar um cilindro bastante compacto. Acompanhados de uma bebida, podem custar entre três euros e meio e cinco euros. E cumprem bem a sua missão.

À chegada a Santa Maria Gloriosa dei Frari (isto quase que cansa), tive de fazer contas entre o tempo que ainda me restava até ao encerramento do monumento e o tamanho deste. Com uma espreitadela pela porta, cheguei rapidamente à conclusão de que aquilo era coisa que exigiria calma na visita. Como no dia seguinte ainda teria tempo para lá ir, sentei-me por ali, vendo as (poucas) gôndolas e os (muitos) turistas passarem.

O dia já estava ganho, ou seja, com uma ou outra alteração, eu já tinha posto o visto na lista de coisas para fazer, portanto, o que me restava para matar o ainda muito tempo até à hora normal de me deitar era... andar ao Deus-dará. Bem... isto nunca é exatamente assim, claro. Estabelece-se uma direção, usa-se como referência uma ou outra rua mas tudo isto de um modo suficientemente displiscente para dar a sensação de que se anda, mesmo, "perdido". E, em Veneza, até é fácil sentirmo-nos assim...

Entre Santa Maria Gloriosa dei Frari e a Piazzale Roma há uma zona mais moderna, provavelmente dos anos sessenta. Não é o único sítio em Veneza onde encontramos edifícios que, claramente, não têm idade ou aspeto para que os consideremos como "históricos" mas é interessante ver como - tirando um ou outro caso -, quando esta mistura se dá a sensação não é de choque ou desilusão mas sim de uma espécie de evolução. A razão de ser da aparente serenidade é a escolha de cores e a relativa discrição das linhas dos prédios que não os põe em conflito com a envolvente mas antes lhes dá um espaço próprio, concedido em vez de conquistado. Esta área é mais desafogada, mais calma e não deixa de ser uma boa opção para uma volta e uns minutos de descanso.

Ao chegar à Piazzale Roma, estamos de volta ao bulício da cidade: autocarros (é o único sítio da cidade onde se permite algo que não ande na água), barcos, gôndolas, gente que chega, gente que parte e gente que ainda não percebeu bem o que quer fazer. Atravessando a feia ponte de Santiago Calatrava (obra menor do autor da "nossa" Estação do Oriente), podemos ter uma boa visão de tudo isto, nomeadamente dos vaporetti despejando passageiros nas várias paragens por ali existentes.

Tempo de voltar ao albergue, usando a margem onde está a estação de comboios de Venezia-Santa Lucia (ver os grupos de adolescentes americanos que ali abancam protegendo quantidades incríveis de bagagem é um momento divertido), fotografar o outro lado do Grande Canal (ou Canal Grande, em Italiano) que, àquela hora, começava a ser dourado pelo sol em fim de dia de trabalho, apreciar os imigrantes asiáticos (nepaleses?) com as suas bugigangas, observar os turistas e deixar os pés andarem por si mesmos, ligado o piloto automático, em direção ao albergue que ainda estava a muitos quarteirões de distância. E ainda bem que era assim...

(*) O termo "ruga" vem do Latim e está na origem da nossa palavra "rua". No que diz respeito às denominações dos "caminhos" de uma cidade, Veneza é um autêntico festival. Só na área de San Polo encontramos: "piazza", "campo", "campiello", "ruga", "calle", e "riva"

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