segunda-feira, 19 de agosto de 2013

As Janeiras na Ota

Na aldeia da Ota (zona de Alenquer), há o hábito de se pintar, nas paredes das casas, indicações sobre os anos em que os donos daquelas aceitaram que lhes cantassem as Janeiras (com o consequente donativo).

sábado, 27 de julho de 2013

Portugal - Sacavém [Forte de Sacacém]

Construído no Séc. XIX para, entre outros objetivos, bater a Estrada Real que vinha do norte e assim proteger o acesso a Lisboa, é hoje o lugar de arquivo de incontáveis documentos pertencentes ao SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitectónico).

terça-feira, 12 de março de 2013

O nosso rasto

Embora o visitante se possa queixar de algumas dificuldades na visualização dos conteúdos, o blog "O nosso rasto" vale, certamente, uma visita. Pelos itinerários e pelas magníficas fotografias que nos desvendam o interior de Portugal.

sábado, 9 de março de 2013

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 14 (Veneza)


2012/05/27

Último dia em Veneza, mas com direito a uma despedida muito prolongada, longe ainda a hora do comboio que me iria levar (bem à tarde) para Trieste.

Aos doridíssimos pés (vítimas do calçado que trouxe - a merecer, noutra altura, um texto próprio), acrescentei o desconforto da mochila cheia. Mochila pequena, é certo, mas, ainda assim, com capacidade para moer os ombros. Paciência: respira-se fundo e concentramo-nos no que nos rodeia. E, em Veneza, o que nos rodeia é beleza (rimou).

Saí do albergue com o guia da American Express aberto, seguindo um dos seus itinerários aconselhados e que começava logo ali. Conforme passeava calmamente pelas ruas, apercebi-me de um movimento maior naqueles canais secundários, com muitas embarcações em jeito de "grupo de foliões dominicais a caminho da paródia", passando em ritmo mais ou menos acelerado, consoante a vontade dos seus mestres e exibindo, alguns dos barcos, divertidos enfeites. Era dia de festa, dava para ver.

O meu primeiro objetivo era ir ao Campo dei Mori, uma praça onde existem algumas estátuas de "mouros" (mais provavelmente, turcos), incrustradas nas fachadas dos prédios. As ruas ainda apresentavam aquela "calma depois da festa", tão típica das manhãs de domingo, com o seu pouco - ou nenhum -, movimento, uns copos aqui, umas garrafas ali, uma ou outra pessoa com ar de quem não dormiu bem mas já foi obrigada a sair de casa e... tudo fechado.

Praça central da judiaria
Após muito cirandar por toda aquela zona, cruzando pontes e épocas, resolvi apontar à área onde estava o gettho ou seja, a "judiaria" local.

Pausa aqui, para meditar em como, tendo nós os termos "judiaria" e "mouraria" (as zonas onde os judeus e os mouros viviam nas nossas cidades medievais), usamos a palavra gettho (ou gueto) para designar a mesmíssima coisa quando esta se encontra além dos Pirinéus. "Judiaria" seria um bairro mas "Gueto" já seria uma prisão. Nem uma coisa, nem outra. Ou, se calhar, ambas. Adiante...

O "gueto" de Veneza é-nos apontado como o primeiro que existiu. Se olharmos para a sua data de criação (1516), facilmente percebemos que a coisa não bate certo. Ou então, o segredo está mesmo nos "termos" e na conotação que lhes damos...

Acede-se à judiaria atravessando uma ponte de ferro trabalhado, no início da qual (i.e., no lado cristão), estão duas casinhas, em jeito de controlo de acesso. Já em território dos filhos de Abraão, damos logo de caras com uma larga e agradável praça que é o coração da zona. À direita, uma série de placas de bronze com relevos, servem para nos lembrar do calvário da população judaica durante a Segunda Guerra Mundial. Esta área, como seria de esperar, e apesar da sangria a que foi sujeita pela loucura antissemita dos anos 40 (na verdade, apenas mais um episódio numa desgraça velha de séculos), ainda se mantém como símbolo da cultura judaica e isto nota-se logo pela existência, ao fundo da praça, de uma guarida ocupada por militares italianos, sempre ali presentes "por motivos de segurança".

Um dos acessos ao "gueto velho"
Eu ia com a ideia de visitar um museu no local mas, ao chegar à porta, tive a desilusão de ficar a saber que, por motivos religiosos, o museu (e outras estruturas a ele associadas) estavam encerradas. Raios! 

Como não havia muito mais a fazer por ali (é uma zona muito pobre em termos monumentais), continuei o meu caminho,  seguindo as ruas e tentando descobrir coisas ligadas aos judeus. Aqui e ali, uma placa, uma sinagoga (fechada), tudo muito discreto. Parei numa pequena pastelaria judaica já junto à saída, para provar um bolo típico. Coisa barata, simples e agradável. 

Sentia algum desapontamento. Não propriamente uma sensação de desperdício de tempo mas a noção de que, como local turístico, a judiaria antiga vale pouco. Ou se tem a hipótese de ir visitar algum edifício cujo interior tenha algo de interesse ou, então, mais vale passar ao largo. A aura quase mítica que envolve tudo quanto tenha a ver com judeus é responsável por uma curiosidade que, muitas vezes, se traduz numa perfeita desilusão. Afinal de contas, são gente normal, levando vidas normais e toda a vida assim teria sido se não fosse o preconceito de que foram vítimas.

(continua)

domingo, 3 de março de 2013

Santo Antão do Tojal

O aqueduto de Santo Antão do Tojal
2013/03/02

O acaso não perde uma oportunidade para mostrar a sua importância e nos convencer de como é decisivo na definição dos nossos percursos. Podendo a frase ter conotações pretenciosas de índole metafísica, a verdade é que aquela (a frase) e esta (a verdade), se resumem a algo tão comezinho quanto dois locais partilharem o mesmo nome e, ao procurar um, acabar por encontrar o outro.

Limpemos as ideias e ponhamos ordem no texto. Eu procurava informação sobre o "Palácio da Mitra", que fica na zona de Xabregas (Lisboa) e fui dar a uma página dedicada a um palácio do mesmo nome, também conhecido por "Palácio dos Arcebispos" e que ficava numa terra sobre a qual eu nunca havia ouvido uma palavra: Santo Antão do Tojal. As fotografias que desfilavam à frente dos meus olhos mostravam coisas desconhecidas, belas, paisagens e monumentos sobre os quais pairava - em jeito de convite -, a expressão "às portas de Lisboa" e isto, se por um lado me feria o orgulho ao tocar na chaga da ignorância relativa às coisas próximas, por outro, impelia-me a saltar ao caminho na antevisão de uma viagem rápida e proveitosa.

O tempo passou, perdido entre chuvas e preguiça, até que a curiosidade falou mais alto do que a ameaça do céu nublado. A 50 rodou para fora de Lisboa, entrando no caos do eixo Odivelas-Loures, ainda com a íngreme Calçada de Carriche soprando-lhe para as rodas uma velocidade pouco turística.

As localidades sucedem-se por aquelas zonas, separadas por placas de fronteiras que já devem cortar salas e quartos ao meio, de tão pegado que tudo aquilo é. Caminho feio e chato onde, aqui e ali lá aparece um testemunho de outros tempos, capaz de nos tirar por breves instantes a atenção de onde ela devia de estar: a movimentada estrada.

Chafariz  dos Arcos
Frielas marcava o verdadeiro começo do meu passeio: porque tem uma estação arqueológica e porque daquele sítio parte uma serena estrada que cruza campos onde ainda não nasceram prédios ou armazéns (isto, confiando nas imagens no Google Maps). Depois de ver ao longe as ruínas da villa romana local - e na ausência de placas para Santo Antão, lancei a mota para a estrada que subia. Após algum tempo, ao chegar a um local que, não sendo reconhecido como miradouro, o é de facto, pareceu-me que estava a afastar-me do caminho certo. A paisagem melhorava, é certo, ali, quase no cimo de uma das milhentas colinas que circundam Lisboa. Lá em baixo, um ribeiro rompia um vale onde alguns cavalos pastavam pachorrentamente.

Retornei a Frielas e interrompi o café a um homem cuja mesa estava mais perto da estrada. "Há uma estrada, sim, mas para essa mota não dá.", respondeu-me ele quando lhe pedi indicações sobre a fita cinzenta lançada sobre verdes campos que eu havia visto na internet. "Apanhe a A8 e saia em Bucelas", continuou ele, inconsciente de que a minha mota tem a matrícula da cor errada. Agradeci e convenci-me de que teria de retomar a desagradável estrada para Loures, de onde fugiria mal visse uma indicação de "Infantado". Após atravessar este último, a viagem continuou por estrada movimentada mas já menos urbana, até chegar a uma rotunda onde orgulhosamente se anunciava o meu destino: Santo Antão do Tojal.

A entrada da freguesia não é entusiasmante, até porque o turista leva na ideia as imagens dos monumentos e não é ali que eles estão. O que estará, isso sim, é uma urbanização que em tudo parece querer replicar uma espécie de bairro de pescadores do... Algarve. Ainda os edifícios estão, na sua maior parte, no cimento e já se sente uma espécie de aridez branca a avançar...

Um pouco mais à frente, vê-se um arco do aqueduto local galgando a estrada. Junto deste, há três elementos de interesse: um casarão antigo abandonado, um palacete (em bom estado) e - o mais importante -, o chafariz monumental. Em estilo barroco, lança fresca (mas imprópria) água por baixo enquanto que, em cima, nos vai lembrando das penas do inferno. Em tempos idos, isto devia de provocar uma espécie de pasteurização do espírito...

Andando um pouco mais, pode-se virar à esquerda e entrar numa ruela a partir da qual temos belos enquadramentos do aqueduto espraiando-se por um campo agrícola (a imagem no começo deste texto). Tiradas as fotografias que o quadro exige, voltamos ao chafariz para junto dele atravessar (com muito cuidado) a estrada e ir ver os tanques do outro lado. Para matar a sede aos animais? Para lavar a roupa? Era para o que fosse, calculo.

O caminho para a área monumental de Santo Antão do Tojal pode ser feito à sombra do aqueduto. É um percurso de terra mas perfeitamente limpo, no fim do qual desembocamos numa pequena rua. Curva e contra curva e estamos junto de uma casa cujo único (e simples) interesse é uma porta cujo remate é "manuelino". Não se entusiasmem com o termo porque não há nada ali que nos remeta para o lado mais interessante do estilo.

Um pouco mais à frente está o fim abruto do aqueduto e as traseiras (ou não) do "palácio-fonte". A minha dúvida é que, quando um edifício tem uma fachada monumental, virada para uma praça e, do outro lado, nada nos atrai, é difícil chamar traseiras à única coisa que vale a pena ser vista. Adiante. Este palácio está hoje ocupado por uma associação recriativa. Não sei se no seu interior sobra algo que mereça uma visita. Certo é que o piso térreo é um grande e "limpo" espaço onde apenas se veem uma ou duas mesas de bilhar.

Palácio-fonte
Uma ruela divide o palácio-fonte do edifício ao lado. Alguns homens acumulavam-se ali em conversa acompanhada de umas cervejas e encostados a carros que tinham invadido a praça monumental da terra para serem estacionados junto ao seu ex-libris. Lembrei-me, por instantes, de um texto escrito por uma americana vivendo em Portugal e no qual ela criticava a incapacidade de os portugueses deixarem o carro a mais do que cinco metros da sua porta. Para poder tirar fotografias à esplendorosa fonte do palácio, tive de "levar" com a companhia de, pelo menos, meia dúzia de automóveis.

A Praça Monumental é uma espécie de quadrado onde encontramos, para além do já referido palácio-fonte, o Palácio dos Arcebispos (o tal também conhecido como sendo "da Mitra"), um centro paroquial em estilo Estado-Novo e, ainda, uma igreja. Tudo estava fechado, à boa maneira lusitana. E difícil seria que, numa terra onde os carros podem invadir a sua praça central, os monumentos fossem visitáveis.

Defronte da igreja, abre-se uma praça semicircular com uma estrada em frente e outra para a direita e que vai dar à entrada da quinta que servia o Palácio dos Arcebispos e onde hoje funciona a Casa do Gaiato. De repente, com a lembrança da rapaziada que por ali vi, apetece-me fazer uma piada envolvendo "mitra" e "mitras"... Conto até dez e a coisa passa...

Santo Antão do Tojal é isto. Um aqueduto, um chafariz e uma praça monumental onde os carros entram. Ainda há outros pequenos pontos de interesse (um passo processional, um cruzeiro, uma zona de paul), mas nada disso é suficiente para justificar - por si só -, uma visita à terra. São pequenas coisas que servem para "encher" um passeio e nada mais.

De novo sobre rodas, aproveitei para seguir a Rua Padre Adriano, ao longo dos muros da Casa do Gaiato. No fim do caminho, e após alguns solavancos, encontrei a tal estrada por onde eu devia de ter chegado. Ali estava ela, cruzando o campo até chegar à muralha de colinas depois da qual está Lisboa. Olhei a paisagem e imaginei o quão bela - e até monumental -, seria, antigamente, a chegada à capital do Reino. Se há coisa má que o progresso trouxe foi a destruição dos arredores lisboetas, a zona saloia, a área que nos deu o cognome de "alfacinhas" e que devia de ser, em tempos idos, de uma beleza magnífica. Ainda hoje, esta zona saloia está cheia de pontos dispersos onde podemos contactar com o passado de pequenas aldeias e grandes quintas de edifícios brasonados, assim queiramos procurá-los e estejamos dispostos a trocar algumas horas de centro comercial por pequenas "explorações" à volta da cidade grande. É só querer, é só querer...


Santo Antão do Tojal

sábado, 26 de janeiro de 2013

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 13 (Veneza / Murano)

"Fondamenta dei Vetrai" - a via principal
2012/05/26


Murano 

Quando ainda não tivemos hipótese de gastar a nossa curiosidade pelo aspeto exterior de San Michele (a ilha cemitério), já Murano nos surge pela frente. Agora é hora de desembarcar. 

Um misto de turistas e nativos (sim "nativo" não é coisa que se aplique, apenas, a gente de tanga em países tropicais), sai do barco, uns preparando as máquinas fotográficas, outros cumprimentando logo ali um qualquer conhecido encontrado na zona do cais.


O caminho natural a seguir é para a direita, em direção a um canal que serve de "rua" principal à ilha. O espaço é ladeado por lojas e armazéns ligados ao comércio vidreiro e atravessado por algumas pontes que, para além de locais de passagem, são ótimos pontos a partir de onde tirar fotografias.


Não pude deixar de reparar na geral fealdade dos objetos à venda, quase todos misturados de vários cores e com aquele ar piroso de bibelô de segunda categoria que se espera ver em casas mal decoradas. É certo que se vê algumas coisas que só teriam sido possíveis de fazer com grande mestria (há enormes esculturas de vidro, ao ar livre), mas o talento técnico não é, necessariamente, sinónimo de bom gosto.


A ilha ainda estava começando a acordar. As lojas abriam, os comerciantes preparavam-se e algumas pessoas procuravam abastecer-se com os bens para o dia. O movimento era pouco, portanto. Continuei seguindo o canal (difícil era fazer outra coisa) até chegar a um local onde, em ambas as margens o espaço era maior. À esquerda, uma igreja antiga e, à direita, uma praceta com um torreão. A igreja estava fechada e, do outro lado, nada me apelou a mudar de margem. Já um pouco mais à frente, a mudança impos-se: um canal maior criava uma zona bastante aberta a qual era atravessada por uma ponte maior. Tentei perceber, olhando para um mapa, onde estariam os pontos de maior interesse (umas igrejas) e decidi procurar aquele que me pareceu mais fácil de alcançar.


Atravessado o canal, virei à direita e abrandei o passo para apreciar o negócio de venda de legumes que se fazia entre algumas velhotas na margem e um casal dentro de um barquinho. Se em Veneza tudo se faz pela água, porque não haver mercearias flutuantes?



Igreja de "Santa Maria e San Donato"
Continuei ao longo da Riva Longa até chegar ao ponto desejado: a igreja de Santa Maria e San Donato. Esta fica num largo, tem ao seu lado uma torre e um monumento que me pareceu ser aos mortos numa guerra. Todo o conjunto é naquele estilo com o tijolo à mostra, tão vulgar em Itália. Entrei na igreja, crente de que, dada a sua antiguidade (Séc. VII - e não, não falta um "X" no início), iria ver coisas interessantes. Na realidade, o melhor que se faz é não tirar os olhos do chão, já que este é composto de um enorme mosaico polícromo. Tendo a visita sido relativamente rápida, aproveitei para pairar um pouco nas imediações.

Por esta altura considerava Murano vista. É claro que havia mais coisas de interesse mas o meu fiel PDA dizia-me que tinha de ir apanhar o barco para a ilha de Burano e que era melhor apressar-me. Fiz o caminho de volta, tomando agora atenção a todos os barcos e barquinhos que se enfileiravam ao longo das margens do canal e apreciando a perícia de alguns "pintas" no manejo do leme.


Ao voltar à "rua" principal da ilha (a Fondamenta dei Vetrai - já se vê que vetrai e "vitrais" são palavras irmãs...), mudei de margem porque a paragem da carreira marítima era noutro local que não aquele onde eu tinha desembarcado. Isto deu-me oportunidade para ver mais algumas ruas (que já começavam a forrar-se de turistas), e a assistir ao começo da labuta manducatória dos primeiros convivas de algumas esplanadas.


Uma escultura de vidro de... Murano
Dizem-me que Murano é um daqueles pontos onde os turistas são levados por uma única razão: comprar "vidro".  Tudo me fez crer que isso seja verdade. A quantidade de lojas e a sua localização são típicas dos meios mononegócio (esta palavra existe?), mas, tal como em muitos outros locais, a presença de um grande interesse acaba por desviar a atenção dos visitantes de coisas muito mais interessantes. 

Quem for a Murano (pelo próprio pé ou levado em excursões), em busca dos foleirosos vidros arrisca-se a passar ao lado de tudo aquilo que a ilha realmente tem de valor: o ambiente, os edifícios, os canais... Ou seja, Murano é uma naturalíssima continuação de Veneza, mas à escala daquilo que a ilha é: um arrabalde. 

Esqueçam a Murano comercial, riam-se do mau gosto da especialidade local e apreciem o espaço porque é, mesmo, o melhor que a ilha tem para vos oferecer.



domingo, 20 de janeiro de 2013

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 12 (Veneza)

Um "vaporetto" no Grande Canal
2012/05/26

Chegou o dia de me fazer ao mar ou, pelo menos, à laguna. O meu terceiro dia em Veneza estava reservado à visita de três das muitas ilhas "ancoradas" na zona. A saber: Murano, Burano e Torcello.

Os transportes públicos em Veneza são caros. Refiro-me aos barcos, os famosos vaporetti (plural de vaporetto), que asseguram a vez dos vulgares autocarros existentes nas cidades "continentais". A verdade é que, a menos que queiramos ir a nado de uma ilha para outra, não nos resta outra hipótese que não seja embarcar num destes transportes. Há sempre a hipótese de alugar um táxi mas, nem vale a pena dizer que o preço é muito maior, certo?

Quanto custa uma viagem num vaporetto? Bom, naquele dia, o preço era de seis euros. Uma exorbitância, portanto. Felizmente para o turista, a transportadora local disponibiliza vários passes que, a partir de três viagens, se tornam essenciais como forma de poupar dinheiro. Comprei, portanto, um título válido por doze horas que me custou dezoito euros. Como eu iria fazer, pelo menos, cinco viagens, a coisa compensava largamente.

A carreira para a ilha de Murano (famosa pela sua arte vidreira) partia da Piazzalle Roma mas decidi atravessar a cidade para ir até à zona de São Marcos apanhar a linha nº1. A razão de ser deste desvio foi que esta linha percorre todo o Grande Canal e é, por isso, uma verdadeira preciosidade do ponto de vista turístico. Como era cedo e, ainda por cima, um sábado, tudo aquilo era calma. A calma suficiente para apreciar melhor as belezas de prédios que se iam sucedendo ao longo do canal. Uma coisa soberba.

Quem apanhe um barco ao longo do Grande Canal poderá pensar que fará sentido realizar o percurso de ida e volta para poder ver bem as coisas dos dois lados da via. Curiosamente, o percurso dos barcos é feito em zig-zag, ora parando numa margem, ora parando noutra e, assim sendo, embora eu aconselhe fazer os dois sentidos (sempre se vê as coisas duas vezes), tal não é essencial para se ter uma boa ideia do que por ali há.

San Michele - a ilha cemitério
Chegado à zona da Piazzalle Roma, saí de um barco para ir apanhar outro. À paisagem urbana sucedeu-se a da lagoa. Água e mais água mas salpicada por ilhas, e sempre com a presença tutelar da grande cidade lá atrás. 

Quando ainda estamos com os olhos presos no casario de Veneza, já o barco rasa (quando não para lá), a ilha de San Michele, à qual podemos chamar, com toda a propriedade, a "ilha cemitério", pois toda a sua área está ocupada pelo cemitério que servia a cidade. A ilha, completamente murada, pode ser visitada, da mesma forma que o pode ser outro cemitério em qualquer parte mas nem todas as carreiras de barco que junto dela passam fazem ali paragem. Ao que parece, o diminuto espaço já não consegue dar vazão às necessidades da cidade mas, apesar disso, ainda continua tendo alguma utilização (para além de ser um monumento em si mesmo).

(continua)
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