sábado, 9 de março de 2013

Itália / Eslovénia / Áustria - parte 14 (Veneza)


2012/05/27

Último dia em Veneza, mas com direito a uma despedida muito prolongada, longe ainda a hora do comboio que me iria levar (bem à tarde) para Trieste.

Aos doridíssimos pés (vítimas do calçado que trouxe - a merecer, noutra altura, um texto próprio), acrescentei o desconforto da mochila cheia. Mochila pequena, é certo, mas, ainda assim, com capacidade para moer os ombros. Paciência: respira-se fundo e concentramo-nos no que nos rodeia. E, em Veneza, o que nos rodeia é beleza (rimou).

Saí do albergue com o guia da American Express aberto, seguindo um dos seus itinerários aconselhados e que começava logo ali. Conforme passeava calmamente pelas ruas, apercebi-me de um movimento maior naqueles canais secundários, com muitas embarcações em jeito de "grupo de foliões dominicais a caminho da paródia", passando em ritmo mais ou menos acelerado, consoante a vontade dos seus mestres e exibindo, alguns dos barcos, divertidos enfeites. Era dia de festa, dava para ver.

O meu primeiro objetivo era ir ao Campo dei Mori, uma praça onde existem algumas estátuas de "mouros" (mais provavelmente, turcos), incrustradas nas fachadas dos prédios. As ruas ainda apresentavam aquela "calma depois da festa", tão típica das manhãs de domingo, com o seu pouco - ou nenhum -, movimento, uns copos aqui, umas garrafas ali, uma ou outra pessoa com ar de quem não dormiu bem mas já foi obrigada a sair de casa e... tudo fechado.

Praça central da judiaria
Após muito cirandar por toda aquela zona, cruzando pontes e épocas, resolvi apontar à área onde estava o gettho ou seja, a "judiaria" local.

Pausa aqui, para meditar em como, tendo nós os termos "judiaria" e "mouraria" (as zonas onde os judeus e os mouros viviam nas nossas cidades medievais), usamos a palavra gettho (ou gueto) para designar a mesmíssima coisa quando esta se encontra além dos Pirinéus. "Judiaria" seria um bairro mas "Gueto" já seria uma prisão. Nem uma coisa, nem outra. Ou, se calhar, ambas. Adiante...

O "gueto" de Veneza é-nos apontado como o primeiro que existiu. Se olharmos para a sua data de criação (1516), facilmente percebemos que a coisa não bate certo. Ou então, o segredo está mesmo nos "termos" e na conotação que lhes damos...

Acede-se à judiaria atravessando uma ponte de ferro trabalhado, no início da qual (i.e., no lado cristão), estão duas casinhas, em jeito de controlo de acesso. Já em território dos filhos de Abraão, damos logo de caras com uma larga e agradável praça que é o coração da zona. À direita, uma série de placas de bronze com relevos, servem para nos lembrar do calvário da população judaica durante a Segunda Guerra Mundial. Esta área, como seria de esperar, e apesar da sangria a que foi sujeita pela loucura antissemita dos anos 40 (na verdade, apenas mais um episódio numa desgraça velha de séculos), ainda se mantém como símbolo da cultura judaica e isto nota-se logo pela existência, ao fundo da praça, de uma guarida ocupada por militares italianos, sempre ali presentes "por motivos de segurança".

Um dos acessos ao "gueto velho"
Eu ia com a ideia de visitar um museu no local mas, ao chegar à porta, tive a desilusão de ficar a saber que, por motivos religiosos, o museu (e outras estruturas a ele associadas) estavam encerradas. Raios! 

Como não havia muito mais a fazer por ali (é uma zona muito pobre em termos monumentais), continuei o meu caminho,  seguindo as ruas e tentando descobrir coisas ligadas aos judeus. Aqui e ali, uma placa, uma sinagoga (fechada), tudo muito discreto. Parei numa pequena pastelaria judaica já junto à saída, para provar um bolo típico. Coisa barata, simples e agradável. 

Sentia algum desapontamento. Não propriamente uma sensação de desperdício de tempo mas a noção de que, como local turístico, a judiaria antiga vale pouco. Ou se tem a hipótese de ir visitar algum edifício cujo interior tenha algo de interesse ou, então, mais vale passar ao largo. A aura quase mítica que envolve tudo quanto tenha a ver com judeus é responsável por uma curiosidade que, muitas vezes, se traduz numa perfeita desilusão. Afinal de contas, são gente normal, levando vidas normais e toda a vida assim teria sido se não fosse o preconceito de que foram vítimas.

(continua)

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